Jair Candor finca o primeiro marco durante o processo de demarcação física na Terra Indígena Kawahiva do Rio Pardo.

Mais de 25 anos após a confirmação da existência dos indígenas isolados na Terra Indígena Kawahiva do Rio Pardo, a demarcação física de seu território no Mato Grosso teve início.

Esse é um passo fundamental para a conclusão da demarcação do território depois de tantos anos de atraso do Estado brasileiro. Após a finalização da demarcação física, é necessária a homologação para concluir todo o processo demarcatório.

A Survival International alerta que a demarcação deve ser concluída o quanto antes, pois os Kawahiva isolados que vivem na região enfrentam ameaças iminentes.

Uma das ameaças é a pavimentação da estrada que corre paralela à fronteira sul do território dos Kawahiva, pois estradas na Amazônia facilitam a colonização e o desmatamento. Grileiros, madeireiros e pecuaristas já invadiram as áreas ao redor do território, destruindo milhares de hectares de floresta e aumentando a pressão sob a floresta dos Kawahiva.

As eleições gerais, marcadas para outubro, também representam um risco, já que a violência no campo aumenta em ano eleitoral e territórios indígenas se tornam ainda mais alvos de grileiros, à medida que os políticos incentivam as invasões em troca de apoio às suas campanhas.

Há também o perigo de que Flávio Bolsonaro possa ser eleito como presidente do Brasil. Flávio prometeu que, se for eleito, nenhuma terra indígena será demarcada no Mato Grosso. É vital que a demarcação seja concluída ainda este ano.

© FUNAI

Imagens gravadas pela FUNAI durante encontro ao acaso em 2011.

A diretora da Survival International, Caroline Pearce, afirmou hoje: “Durante anos, atrasos burocráticos, interesses políticos e processos judiciais usados como arma pararam o processo demarcatório do território Kawahiva, enquanto a floresta ao seu redor foi devastada. A demarcação dessa terra indígena é um grande passo para garantir justiça e o direito dos Kawahiva de viverem em segurança em suas próprias terras. Mas agora é uma corrida contra o tempo – a demarcação física deve ser concluída rapidamente para garantir que a homologação do território aconteça ainda este ano, antes do início de um possível novo governo.”

Jair Candor, o renomado indigenista da FUNAI que trabalha pela proteção desse território desde a década de 90, disse ao O Globo esta semana: “Eu fico até sem palavras. Estou aqui há 26 anos nessa espera deste momento. Então para mim isso não tem preço. Você sabe da minha luta, da minha briga para segurar e manter a segurança desse grupo. Meu grande sonho era esse! Era me aposentar , passar o bastão para outras pessoas que estão vindo aí, outros colegas de trabalho, mas deixar pelo menos isso resolvido. A gente sabe que não ganhamos a guerra, mas pelo menos vencemos mais uma batalha.”

História da campanha pela proteção da Terra Indígena Kawahiva do Rio Pardo

  • Os indígenas isolados da Terra Indígena Kawahiva do Rio Pardo são caçadores-coletores nômades que dependem totalmente da floresta para sua subsistência e bem-estar, e rejeitam categoricamente qualquer contato.
  • A FUNAI confirmou a existência desse povo isolado neste território em 1999. Posteriormente, em 2013, o órgão divulgou imagens inéditas de nove isolados Kawahiva caminhando pela floresta.
  • Em 2016, após intensa campanha da Survival em parceria com organizações indígenas e indigenistas e a pressão de milhares de apoiadores da Survival em todo o mundo, o Ministério da Justiça assinou a declaração da Terra Indígena Kawahiva do Rio Pardo. Mas o processo de demarcação do território havia sido paralisado desde então devido à forte oposição de políticos locais e do agronegócio.
  • Há anos a Survival vem fazendo campanha pelos direitos territoriais dos Kawahiva, em conjunto com organizações indígenas, incluindo a COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira), a FEPOIMT (Federação dos Povos e Organizações Indígenas do Mato Grosso) e o Indian Law Resource Center, além das organizações indigenistas OPAN (Operação Amazônia Nativa) e Opi (Observatório dos Povos Indígenas Isolados). 

Povos indígenas isolados ao redor do mundo

O novo relatório global da Survival, Fronteiras de resistência: a luta global dos povos indígenas isolados, mostrou que existem pelo menos 196 grupos e povos indígenas isolados vivendo em 10 países ao redor do mundo. Esses povos são autossuficientes, resilientes e vivem de forma independente em suas florestas. Eles prosperam quando seus direitos são respeitados. Mas 96% de todos os povos e grupos isolados estão ameaçados por atividades de extração e exploração de recursos, como é o caso de indígenas isolados que vivem no estado do Mato Grosso.

Fonte: https://www.survivalbrasil.org/ultimas-noticias/14510