Representantes de oito arranjos trocaram experiências em Brasília entre os dias 1 e 4 de setembro (Foto: Camila Behrens – IEB)

Reunião, em Brasília, reuniu representantes de oito parcerias que unem conhecimento científico e tradicional na Amazônia e no Cerrado

A troca de experiências é fundamental para fortalecer a capacidade dos povos indígenas e tradicionais de desenvolver estratégias para proteger efetivamente seus territórios e salvaguardar seus conhecimentos. Essa é uma das apostas do projeto Entre Ciências: Territórios de Saber em Diálogo, que promoveu seu primeiro encontro entre os dias 1 e 4 de setembro, em Brasília, reunindo representantes de oito “arranjos intercientíficos” da Amazônia e do Cerrado. 

“Arranjos intercientíficos” é o nome dado no edital do projeto às parcerias colaborativas que articulam o conhecimento científico acadêmico aos saberes tradicionais. A proposta é valorizar as ciências indígenas e das comunidades tradicionais e promover a produção colaborativa de pesquisas interculturais em campo, com metodologias próprias e adequadas às diferentes realidades.

Maria Anika apresenta o foco da pesquisa intercultural no Oiapoque (Foto: Camila Behrens – IEB)

O Iepé integra um desses arranjos, em parceria com a Associação das Mulheres Indígenas em Mutirão (AMIM), os Agentes Ambientais Indígenas (AGAMIN) e o Instituto Federal do Amapá (IFAP). No Oiapoque, a pesquisa tem como foco os conhecimentos indígenas relacionados aos sistemas agrícolas tradicionais, em diálogo com a agroecologia, buscando contribuir para o enfrentamento da crise fitossanitária que afeta as roças, provocada pela praga conhecida como vassoura-de-bruxa da mandioca

Dentre os integrantes dos AGAMIN, foram selecionados seis indígenas para atuar como pesquisadores no projeto: Maria Anika, Teraina Felipe, Alessandra Forte, Adilaudo dos Santos, Gilson dos Santos e Ciliano Loriano. Eles serão responsáveis pela realização das pesquisas de campo, dos experimentos nas roças e das entrevistas com os anciãos, para sistematizar os conhecimentos sobre os sistemas agrícolas tradicionais e os resultados das estratégias adotadas para enfrentar essa crise, que vem afetando a segurança alimentar, a geração de renda, a saúde e as práticas culturais dos povos indígenas do Oiapoque, desde 2022.

“Esse projeto será importante para dar continuidade ao trabalho que a AMIM já vem fazendo para enfrentar esse momento tão difícil que a gente chamou de pandemia das roças. É uma situação muito triste e outros territórios precisam saber o que está acontecendo, pois essa praga pode chegar até eles também”, explicou Renata Lod, coordenadora da AMIM, que também participou do Encontro em Brasília.

Além de sua relevância local para o enfrentamento a crise da mandioca, o projeto também tem o objetivo maior de subsidiar a elaboração de uma política pública para reconhecimento e valorização dos conhecimentos indígenas como ciência no âmbito do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCTI).

Apresentação do arranjo intercientífico do Oiapoque no Encontro do Entre Ciências (Foto: Camila Behrens – IEB)

Para Rita Lewkowicz, coordenadora do Programa Oiapoque do Iepé, que também esteve em Brasília, o encontro foi muito produtivo, pois promoveu o intercâmbio entre diferentes sistemas de conhecimentos e permitiu colocar em pauta a importância da valorização dos conhecimentos indígenas e tradicionais nos espaços públicos e oficiais de produção de conhecimento, como o MCTI. “Foi muito interessante ouvir as experiências das outras pesquisas colaborativas e ver o potencial delas para a incidência política e a elaboração de diferentes metodologias de coleta e publicação dos dados”, comentou.

Outra pauta de destaque durante o encontro foi a discussão sobre diferentes plataformas para registro e divulgação de dados, com especial atenção ao Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr) e destaque para importância de ampliar o acesso das comunidades tradicionais a esses espaços formais de registro, possibilitando que essas pessoas também possam registrar e compartilhar seus conhecimentos sobre a sociobiodiversidade nesses espaços formais de reconhecimento, que também podem contribuir para subsidiar políticas públicas.

O projeto Entre Ciências é coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e executado pelo IEB. A Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), é sub-executora de um dos componentes do projeto, que também tem o Ministério dos Povos Indígenas e o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima como parceiros institucionais. O Entre Ciências é um projeto financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e tem o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) como agência implementadora.

Fonte: https://institutoiepe.org.br/2026/09/ciencia-indigena-em-pauta-iepe-amim-e-agamin-participam-do-1o-encontro-do-entre-ciencias/