1º Encontro dos Arranjos Intercientíficos do Projeto Entre Ciências promove encontro entre povos indígenas, comunidades tradicionais, agricultores familiares e instituições de pesquisa e fortalece novas formas de produzir ciência
“Como diferentes maneiras de conhecer podem produzir ciência juntas sem que uma delas invalide a outra?”
A pergunta feita por João Campos-Silva, presidente do Instituto Juruá e pesquisador associado do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), durante o Primeiro Encontro dos Arranjos Intercientíficos do Projeto ‘Entre Ciências, traduz um dos principais desafios e, ao mesmo tempo, uma das maiores potencialidades do projeto: aproximar diferentes sistemas de conhecimento para construir novas formas de produzir ciência, sem hierarquizar ou apagar os conhecimentos que os constituem.
Foi com esse propósito que, de 1º a 4 de setembro, representantes dos oito arranjos intercientíficos apoiados pela iniciativa se reuniram em Brasília para um encontro marcado pela troca de experiências e pela construção coletiva dos próximos passos das pesquisas desenvolvidas nos territórios.

Coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), executado pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), em parceria com o Ministério dos Povos Indígenas (MPI), o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e implementado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), com financiamento do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), o projeto Entre Ciências: Territórios de Saber em Diálogo apoia pesquisas colaborativas e interculturais desenvolvidas por povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores(as) familiares nos biomas Amazônia e Cerrado.
A proposta parte de uma mudança fundamental: reconhecer que a produção de conhecimento não acontece apenas dentro das universidades. Povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores(as) familiares desenvolvem, há gerações, formas próprias de observar, compreender, manejar e cuidar da biodiversidade, das águas, dos animais, das plantas e das relações que sustentam a vida.
Para Bruno Martinelli, coordenador do projeto no Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação (MCTI), o Entre Ciências nasce justamente do reconhecimento de uma demanda histórica desses povos: o direito de terem seus conhecimentos reconhecidos e valorizados como ciência.
“O Entre Ciências nasce do reconhecimento das demandas dos povos e das comunidades tradicionais para que seus conhecimentos sejam reconhecidos e valorizados. São sistemas de conhecimento profundamente conectados à terra, à floresta, às águas, aos mares e aos territórios, de forma geral. Então, enquanto Ministério da Ciência e Tecnologia, a gente precisa olhar para todas as ciências.”

A perspectiva também representa uma transformação para a própria academia. Ao longo da história, diferentes sistemas de conhecimento foram hierarquizados, muitas vezes colocando os conhecimentos indígenas e tradicionais em uma posição inferior à ciência acadêmica. O Entre Ciências busca, portanto, abrir espaço para outra relação: não substituir um conhecimento pelo outro, mas criar condições para que diferentes formas de conhecer possam dialogar e produzir conhecimento conjuntamente.
Um encontro para reconhecer o que existe em comum
Reunir os oito arranjos intercientíficos selecionados para participarem do projeto permitiu que experiências desenvolvidas em diferentes regiões da Amazônia e do Cerrado fossem colocadas lado a lado. E uma das primeiras descobertas foi justamente a proximidade entre desafios que, à primeira vista, poderiam parecer específicos de cada território.
“Com esse encontro eu fui percebendo que a realidade da gente é muito parecida com a realidade dos outros territórios. Os desafios que a gente enfrenta, as dificuldades… Ouvir as outras vivências tem sido uma experiência vibrante”, contou uma representante do arranjo entre a Associação Quilombo Kalunga, do Goiás e a UnB.

Os projetos apoiados pelo Entre Ciências investigam temas diversos, relacionados às realidades e demandas de cada território, como: a conservação da diversidade da mandioca, o manejo da caça, o monitoramento das águas, o conhecimento sobre plantas medicinais, a conservação do pirarucu, a agroecologia, a medição dos impactos de obras de infraestrutura, como represas e estradas, e a relação entre mudanças climáticas e modos de vida tradicionais.
A troca entre os participantes, no entanto, revelou desafios que se repetem em diferentes contextos: as ameaças à segurança alimentar e à continuidade dos conhecimentos tradicionais, além dos desafios para garantir o bem viver e a permanência das novas gerações nos seus territórios.

Pesquisar a partir das urgências dos territórios
No Oiapoque, no Amapá, a pesquisa nasceu de uma emergência vivida diretamente nas roças. A diversidade de mandiocas, fundamental para a alimentação e para a cultura dos povos indígenas da região, vem sendo afetada por uma crise fitossanitária. Pesquisadores(as) do arranjo liderado pela Associação das Mulheres Indígenas em Mutirão (AMIM) descrevem a situação como uma “pandemia das roças”.
“A gente saiu da pandemia da Covid e entrou direto na pandemia das roças”, relatou um dos participantes.
Os impactos vão muito além da produção agrícola. A crise afeta a segurança alimentar, a geração de renda e até a saúde psicológica das comunidades. Diante disso, o projeto articula conhecimentos indígenas e agroecologia para enfrentar a crise e conservar variedades e saberes tradicionais. Um levantamento realizado na região identificou 182 variedades de mandioca, a partir também dos conhecimentos compartilhados pelos mais velhos. Nesse caso, pesquisar significa responder a uma questão urgente do território e, ao mesmo tempo, preservar uma diversidade que carrega histórias, práticas e modos de vida.

As soluções estão nos territórios
Para o IEB, responsável pela execução do Entre Ciências, o encontro representa a concretização de uma visão construída ao longo de sua trajetória.
“Não colocar a ciência acadêmica de um lado e as ciências tradicionais e indígenas do outro, mas dar as mãos e construir um novo saber, um novo tipo de conhecimento, a partir dos territórios e para os territórios”, destacou Andréia Bavaresco, diretora executiva do IEB.
A proposta é que os resultados das pesquisas retornem aos territórios e possam contribuir para o bem viver, para a permanência das juventudes, para a proteção da biodiversidade e para o fortalecimento das comunidades.
“Tem muita coisa que a gente precisa fazer junto. As soluções estão nos territórios”, afirmou Bavaresco.

Essa perspectiva também foi ressaltada por Ana Paula Oliveira, pescadora artesanal e representante da Rede de Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil (Rede PCT do Brasil) no Comitê Gestor do projeto, que defendeu o reconhecimento dos povos e comunidades tradicionais como sujeitos da produção científica.
“Nós somos pesquisadores da nossa própria história e das nossas próprias comunidades”, afirma.
Mais do que participar de pesquisas realizadas por outras pessoas, os participantes reivindicam o direito de formular perguntas, produzir dados, definir protocolos, interpretar resultados e decidir como e onde seus conhecimentos serão compartilhados.

Quando pesquisar também é defender o território
Em alguns dos arranjos, a pesquisa já se tornou uma ferramenta concreta de defesa territorial. É o caso da experiência desenvolvida pelo Monitoramento Ambiental Territorial Independente da Volta Grande do Xingu (MATI-VGX), que realiza monitoramento ambiental a partir da combinação entre conhecimentos acadêmicos e conhecimentos locais. Os dados são coletados e discutidos pela comunidade e, antes de serem publicados, passam pela avaliação da assembleia, que também participa da decisão sobre aquilo que pode ou não ser divulgado.
A experiência mostra que produzir conhecimento não é apenas uma atividade acadêmica. Ter dados sobre o território pode significar ter instrumentos para reivindicar direitos, contestar impactos e participar de debates públicos.
“Como que você vai lutar para um empreendimento não acontecer na sua região, se você não tem nenhum dado sobre isso?”, questiona Josiel, liderança indígena do povo Yudjá/Juruna da Terra Indígena Paquiçamba e coordenador do MATI-VGX.

Ao longo do tempo, o MATI também enfrentou o desafio de transformar dados produzidos localmente em informações acessíveis e reconhecidas. A decisão de divulgar os resultados e inserir dados no Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr) foi, segundo Josiel, um momento importante nesse processo.
“Se a gente não divulga, a gente não é visto.”
Para ele, a produção e a divulgação dos dados estão diretamente relacionadas à defesa dos territórios: “Ter dados é uma forma de lutar pelo seu território de uma forma científica.”
A experiência despertou o interesse de outros arranjos, como o Kuikuro, que também irá desenvolver pesquisas sobre plantas, peixes e mudanças no território. O intercâmbio permitiu compartilhar não apenas resultados, mas também caminhos para organizar, validar e comunicar os conhecimentos produzidos pelas próprias comunidades.

Da troca de experiências ao fortalecimento de uma rede
O primeiro encontro também mostrou que os arranjos não precisam desenvolver suas pesquisas de maneira isolada. As experiências compartilhadas durante os dias de atividade abriram possibilidades de cooperação entre territórios. Grupos que já avançaram na construção de protocolos de pesquisa se colocaram à disposição para apoiar outros que estão começando esse caminho. Experiências de comunicação e divulgação de dados, informações e conhecimentos também passaram a circular entre os participantes.

Para os pesquisadores, esse intercâmbio é uma das grandes riquezas do projeto. A experiência do MATI, por exemplo, despertou o interesse de outros territórios que enfrentam problemas semelhantes relacionados às águas, à biodiversidade e aos impactos ambientais. O encontro permitiu identificar afinidades, compartilhar dificuldades e pensar em estratégias que possam continuar mesmo depois do encerramento da atividade em Brasília.
“É muito importante continuar essa conversa depois do encontro, ouvir as dificuldades e as soluções dos outros para a gente conseguir completar bem os nossos projetos”, destacou Josiel.

Uma nova agenda para a ciência brasileira
O alcance da experiência pode ir além dos oito arranjos atualmente apoiados. Para Andrea Latgé, secretária de Políticas e Programas Estratégicos do MCTI, o Entre Ciências representa uma experiência inédita e pode contribuir para a construção de uma nova agenda pública de pesquisa. “A gente tem planos de aproveitar a experiência para desenvolver o Programa Nacional de Pesquisa Intercultural, específico para pesquisas colaborativas, apostando nesse formato de diálogo de saberes e na participação ativa das comunidades no desenho da pesquisa”, afirma.

A experiência também reforça a necessidade de ampliar políticas públicas capazes de reconhecer e financiar essas formas de produção de conhecimento. Para Marciano Toledo, engenheiro agrônomo, representante do segmento a Agricultura Familiar no Comitê Gestor do projeto e dirigente do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), que atua na defesa dos direitos camponeses e da agrobiodiversidade, o desafio é fazer com que essa agenda avance para além de projetos pontuais e se incorpore ao planejamento do Estado.
Mas, para quem participou do encontro, os resultados do Entre Ciências também estão naquilo que se constrói a partir da convivência entre diferentes territórios e formas de conhecimento. Ao final do encontro, umas das participantes destacou a importância de ter sua voz e sua experiência reconhecidas pelo projeto: “O Entre Ciências respeita toda a nossa voz, toda a nossa luta, levando em consideração toda a nossa vivência. Isso é muito importante.”
Seu Nenzinho, da Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema, no Acre, também destacou a dimensão histórica desse reconhecimento. Depois de décadas ouvindo que os conhecimentos tradicionais precisavam ser valorizados e respeitados, ele vê no projeto a possibilidade de transformar esse discurso em prática: “As populações tradicionais estão tendo a oportunidade de tornar isso real. De poder falar: ‘Eu estou pesquisando o nosso conhecimento e tornando isso realidade’, porque antes isso ficava só em palavras.”

O desafio, portanto, é fazer com que o Projeto Entre Ciências seja parte de uma transformação mais ampla, atuando na maneira como o Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (SNCTI) reconhece seus sujeitos, seus territórios e seus diferentes sistemas de conhecimento.
No fim, talvez a pergunta que abriu a reflexão de João Campos-Silva seja também a que melhor sintetiza o caminho iniciado pelo Projeto Entre Ciências: como produzir ciência juntos sem que uma forma de conhecer precise desaparecer dentro da outra?
O primeiro encontro mostrou que as parcerias para as pesquisas já estão acontecendo. Os ‘territórios de saber’, representados não apenas pela universidades e institutos de pesquisa, mas também pelos territórios dos povos e comunidades, são lugares simbólicos, onde residem sistemas de conhecimento próprios e que, quando colocados em diálogo podem ser a chave para a compreensão e o enfrentamento tanto de questões locais como globais.

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