A formação abordou temas como manejo do rebanho, nutrição animal, bem-estar, gestão da propriedade e práticas de campo.
O contato dos povos Macuxi e Wapichana com a criação de gado em Roraima começou há mais de cem anos, com a presença de fazendeiros nas regiões onde esses povos viviam. Foi nesse período que as comunidades passaram a conhecer melhor os cuidados e o manejo do gado. Mas foi somente na década de 1980 que a criação de gado começou a fazer parte da realidade das próprias comunidades indígenas, por meio do “Projeto M+ Uma Vaca para um Índio”, através dos Missionários da Consolata, a serviço da Diocese de Roraima, junto às comunidades indígenas de Roraima. M+ faz referência a Maturuca, primeira comunidade a receber o projeto, e a cruz significa igreja. Na prática, o projeto era assim: as comunidades indígenas recebiam 52 cabeças de gado (vacas adultas) e dois reprodutores e, durante cinco anos, cuidavam do rebanho, com ferra e outros manejos. Após isso, os animais eram repassados a outras comunidades. As reproduções desse período ficavam na comunidade, virando gado comunitário.
“Uma Vaca para o Índio” cresceu a cada dia e é uma prova de que a criação sustentável e a partilha de conhecimentos tradicionais entre as comunidades indígenas dão e fortalecem a autonomia, além de preservar e proteger o meio ambiente e de ter ajudado na retomada do território tradicional, como na luta pela demarcação da TI Raposa Serra do Sol.
A história é lembrada por Edinho Macuxi, ex-Tuxaua Geral do CIR e atual coordenador do Departamento de Monitoramento e Vigilância Territorial da organização, explicando que o projeto teve um papel importante na luta pela demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol.
“Os fazendeiros que estavam vindo para a Raposa Serra do Sol usavam o gado como algo que pudesse fazer a invasão dos territórios das comunidades indígenas. Se falava muito: onde há rastro do boi, aquele espaço pertencia ao fazendeiro. Então, nessa lógica, as comunidades se organizaram e buscaram parcerias, através da Igreja Católica, para comprar gado desses fazendeiros e criar o projeto Uma Vaca Para o Índio, o M+. O objetivo era ocupar os territórios que estavam sendo invadidos pelos fazendeiros, garimpeiros e marreteiros na época.”
A partir desse processo, a criação de gado passou a ocupar um espaço importante na organização produtiva de diversas comunidades indígenas de Roraima. Dados divulgados pela Agência de Defesa Agropecuária de Roraima (ADERR) em 2022 apontavam mais de 85 mil cabeças de gado nos territórios indígenas do estado, mostrando a dimensão que a atividade alcançou ao longo dos anos.
Essa trajetória construída pelas comunidades ao longo dos anos também está presente na Jornada de Pecuária Indígena Sustentável, realizada entre os dias 7 e 11 de setembro, no Centro Indígena de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol (CIFCRSS), na região Surumu. A atividade reuniu aproximadamente 94 lideranças indígenas, entre elas 23 mulheres, em uma programação que uniu a experiência das comunidades a conhecimentos técnicos sobre a criação e o cuidado com os animais.
A Jornada é resultado de uma parceria de mais de 15 anos entre o Conselho Indígena de Roraima (CIR) e o Instituto Terra Brasilis (ITB). Nesta edição, a iniciativa contou também com a participação de projetos apoiados pelo Fundo Indígena Rutî e pelo projeto Bem Viver, além de estudantes da Universidade Federal de Roraima e do próprio Centro de Formação, ampliando o espaço de troca entre diferentes experiências e conhecimentos sobre a pecuária indígena.
“Estamos fazendo essa formação para as lideranças, vaqueiros, juventude, alunos que estão se formando nessa área técnica, para poder cuidar dos nossos rebanhos, que atualmente, graças a parcerias com o ITB, pelo Projeto Bem Viver e a Danida, têm apoio para o melhoramento genético dos nossos rebanhos. Nossa prioridade é ter esse manejo profissional dentro das terras indígenas de Roraima”, explica Amarildo Macuxi, Tuxaua Geral do Conselho Indígena de Roraima.
A importância das parcerias também foi destacada por Reinaldo Lorival, diretor executivo do Instituto Terra Brasilis. “As parcerias vêm justamente nesse sentido, apoiar. Estamos com mais de 80 pessoas aqui, 11 projetos do Fundo Indígena RUTÎ, seis projetos do Programa Bem Viver, fazendo troca de informação e experiência, aliando a técnica ao conhecimento tradicional”, completa.

Essa troca entre diferentes conhecimentos também esteve presente no acompanhamento dos projetos apoiados pelo Fundo Indígena RUTÎ. A partir desse trabalho, a equipe identificou alguns dos desafios enfrentados pelos vaqueiros nas comunidades e levou essas questões para serem trabalhadas durante a Jornada.
Romeson Macuxi, assistente de monitoramento do Fundo Indígena RUTÎ, explica como esse acompanhamento ajudou a definir os temas da formação: “Durante nossas visitas de monitoramento, detectamos alguns desafios que eram comuns nos projetos, questões de sanidade animal, como vacinas, levantamento de dados de bezerros, novilhas. Não havia um controle, uma gestão desses dados, então trouxemos esses vaqueiros para passar essas informações”.
A programação contou com aulas teóricas e práticas conduzidas por parceiros como a Universidade Federal de Roraima (UFRR) e a Agência de Defesa Agropecuária de Roraima (ADERR), com conteúdos sobre manejo, alimentação, saúde animal, pastagens e organização da atividade.
Entre os temas esteve o controle do morcego hematófago, conhecido como morcego-vampiro, um dos principais transmissores da raiva entre os animais. O assunto foi apresentado por Joseney Maia, médico veterinário da ADERR, que trouxe dados sobre os ataques a rebanhos em Roraima. Segundo a agência, 71% dos ataques acontecem na região Norte do estado, sendo que cerca de 50% ocorrem em comunidades indígenas. Nos últimos dez anos, 80% dos morcegos capturados pela ADERR foram encontrados em comunidades indígenas.
“Com a vigilância nos abrigos de morcego, nós conseguimos controlar a raiva de chegar nos animais e, consequentemente, nos humanos”, explicou Joseney. O monitoramento também ajuda a reduzir ataques ao rebanho e problemas como anemia, infecções secundárias e a morte de bezerros.
Depois da aula teórica, os participantes tiveram uma atividade prática no Sítio Praia Nova, da liderança tradicional Alcides Sapará, onde, durante a noite, montaram uma rede para captura de morcegos hematófagos e conseguiram capturar quatro animais. Por meio da atividade, aprenderam a identificar as características dos morcegos, retirá-los da rede e manuseá-los com segurança, além de conhecer o uso da pasta vampiricida no controle desses animais.

A atividade também trouxe novos aprendizados para quem trabalha diretamente com a criação de animais nas comunidades. O vaqueiro Pedro Macuxi, da comunidade Santa Maria, região Baixo Cotingo, contou como foi participar pela primeira vez de uma atividade prática sobre a captura e o manejo dos morcegos hematófagos: “Recentemente tivemos muitos ataques de morcegos e bastante perda de bezerros, com casos recentes de suspeita de raiva. Essa formação vem para agregar, e a gente volta com a meta de começar a praticar o que aprendemos aqui.”
A formação também levou os participantes para a prática no curral, onde aprenderam sobre os cuidados necessários com a saúde e o bem-estar do rebanho. A atividade foi conduzida pelo médico veterinário da ADERR, Dr. Sylvio Botelho, com orientações sobre vacinação contra a raiva, aplicação de vitaminas e medicamentos para o controle de moscas e carrapatos, além dos cuidados com os bezerros e a prevenção de doenças.
Para Taziane Macuxi, da comunidade Cumanã, região Surumu, e Elielson Macuxi, da comunidade Enseada, na região Serras, alunos do primeiro ano do Centro Indígena de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol (CIFCRSS), a atividade foi uma oportunidade de colocar em prática os conhecimentos aprendidos durante a formação.
“Foi minha primeira vez vacinando. Na minha comunidade não tem criação de gado, mas estou aprendendo e, futuramente, quero ensinar para as minhas lideranças”, conta Taziane.

“É um aprendizado, está sendo muito legal e ajudando a aprimorar ainda mais o nosso conhecimento”, completa Elielson.
A programação também trouxe uma conversa sobre cooperativismo, com foco na organização coletiva e no fortalecimento das iniciativas produtivas desenvolvidas pelas comunidades.
Um dos momentos que marcou o encerramento da Jornada foi a assinatura do Acordo de Cooperação entre o Conselho Indígena de Roraima (CIR), o Instituto Terra Brasilis (ITB) e a Agência de Defesa Agropecuária de Roraima (ADERR), voltado ao fortalecimento da pecuária indígena. A parceria busca ampliar o apoio técnico às comunidades, fortalecer os conhecimentos sobre saúde e manejo dos animais e contribuir para o aprimoramento das práticas que já são desenvolvidas nos territórios. Participaram do momento o Tuxaua Geral do CIR, Amarildo Macuxi; a Tuxaua Geral do Movimento de Mulheres Indígenas de Roraima, Kelliane Wapichana; o diretor executivo do ITB, Reinaldo Lorival; e José Carlos Markus, da presidência da ADERR.

A formação foi concluída com a certificação dos participantes e reafirmou o compromisso do CIR com o apoio às comunidades indígenas na construção de seus próprios caminhos. Por meio de seus departamentos e parcerias, o CIR segue contribuindo para o fortalecimento da pecuária indígena sustentável e de outras iniciativas definidas pelas próprias comunidades, respeitando seus conhecimentos, suas realidades e suas formas de organização.
Texto: Charles Taurepang
Revisão: Helena Leocádio.
Fotos: Charles Taurepang (ASCOM/CIR) e Daniel Wapichana (Rede Wakywaa- região Itacutú).
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