A região de Palimiú, na terra indígena Yanomami, ficou conhecida, em 2021, após ataque de garimpeiros ilegais, fortemente armados. Um vídeo que foi circulado, na época, nas redes sociais mostrou o conflito e o desespero de lideranças, mulheres e até crianças, alvo de ataques constantes de garimpeiros na região.

Há dois anos desse momento dramático, as lideranças indígenas Yanomami, finalmente, conseguem se reunir, e até realizar seus encontros e assembleias, para debater as invasões que continuam, a violência contra mulheres e crianças, ameaças às lideranças e outros problemas que afetam as regiões.

Desde o dia 4, lideranças Yanomami de quatro regiões, Korekorema, Halikatou, Budu e Palimiú, estão reunidas em Assembleia e recebendo convidados, na comunidade Palimiú. O evento encerra hoje, 8.

Chegada da Equipe do CIR

A convite das lideranças, o Conselho Indígena de Roraima (CIR), pela primeira vez, esteve na região, nesta quarta-feira (6), para participar da Assembleia. Representaram a organização, a secretária do Movimento de Mulheres Indígenas de Roraima do CIR, Kelliane Wapichana e o assessor Jurídico, Ivo Makuxi.

Ao chegarem, foram recepcionados pelas crianças e jovens. Antes de entrarem no malocão, Kelliane e Ivo, receberam o ritual da pintura corporal Yanomami.

De mãos dadas, aos passos da tradição Yanomami, dançaram e, seguidamente, foram recebidos pelas 200 lideranças, entre homens, mulheres, jovens e crianças. Um momento festivo, de união, luta e resistência.

Na mesa composta pelo Conselho Indígena de Roraima (CIR), Associação Yanomami (Urihi), Hutukara Associação Yanomami (HAY) e Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), as lideranças pautaram sobre sobre proteção territorial e a retirada definitiva de invasores, principalmente garimpeiros ilegais.

” Limpar a nossa terra”

“Até hoje estamos sofrendo, o garimpo não acabou. Vocês são grandes guerreiros, lutem por nós. Estamos pedindo ajuda, ainda existe garimpo aqui, continuem dando apoio a nós. Os órgãos não estão conseguindo nos ajudar, vocês têm que trabalhar juntos para conseguir limpar a nossa terra”, exigiu a liderança, Pedrinho Yanomami.

Liderança Tradicional Yanomami, durante Assembleia

A Assembleia foi traduzida por um professor, tanto para a língua Yanomami quanto o português. “Eu estou aqui para falar muito, aqui é nossa terra tradicional, estamos aqui lutando, estamos juntos com vocês. A nossa terra está muito ferida, quero melhorar a nossa terra de novo, quero acabar com o garimpo. O marco temporal não é bom, é destruição, nós lutamos pelas nossas crianças e vamos acabar com o marco temporal”, disse Isaque Yanomami.

As mulheres Yanomami são as que mais sofrem tanto pelos seus filhos, principalmente filhas, vítimas de abuso sexual, quanto pela terra-mãe, também vítima com a destruição das fontes de alimento, como o rio, as roças, as caças, pescas e outras fontes. Uma delas relatou e pediu ajuda ao CIR, especialmente, ao assessor jurídico, Ivo Makuxi.

“Estou aqui lutando pra salvar a minha terra. Queremos a terra livre, não queremos a terra suja, somos mulheres guerreiras, sabemos lutar pelas nossas terras. Meu irmão Ivo, me ouve, leva as nossas vozes, não é pra guardar. Estou triste. A gente sofre, precisamos de alguém pra defender a nossa terra. E mais, queremos que os nossos filhos estudem para nos ajudar”, desabafou a liderança.

Emocionada, por estar junto ao povo Yanomami, Kelliane Wapichana, expressou profunda alegria, e deixou claro, que a união vence as lutas mais difíceis e que o coletivo precisa prevalecer. “Nós lutamos pelo coletivo, nós não estamos falando somente do povo macuxi e wapichana, ou dos demais, também estamos falando do povo Yanomami. Vamos lutar juntos, vamos fazer com que a nossa luta salve as nossas vidas, salvar a nossa terra. Basta de morte e violência nos nossos territórios.”, expressou.

Mesmo com as operações de retirada de garimpeiros ilegais, presença do exército na região e outras medidas, o avanço do garimpo ilegal continua, inclusive a violência e morte de lideranças. Indignada com tantas mortes no território, Wapichana questionou: até quando vamos ser mortos nos nossos próprios territórios?

Vista aérea dos rios locais

O assessor Jurídico, Ivo Makuxi, explicou o trabalho que realiza na assessoria jurídica junto aos povos indígenas, por meio do CIR. Esclareceu sobre os Projetos de Leis, que tentam acabar com os direitos tradicionais. “Temos a missão de defender os direitos dos povos indígenas, inclusive os territórios. Vamos juntos meu povo, lutar pela nossa terra”, reforçou Ivo.

À noite, aproveitando o espaço dedicado à organização, Kelliane e o Ivo explicaram às lideranças sobre a estrutura do CIR, e suas ações nas 263 comunidades indígenas do lavrado.

Após ouvirem os relatos, as crianças entregaram ao CIR, um documento contendo demandas da assembleia. O documento será analisado e os devidos encaminhamentos também serão feitos pela organização.

A participação na Assembleia da região Palimiú, representa o fortalecimento, a união e a resistência dos povos indígenas do lavrado e da floresta, como o povo Yanomami que, mesmo diante de uma rica diversidade cultural, ancestral e territorial, também clama por justiça, proteção e por vida.

Fonte: https://cir.org.br/site/2023/09/08/em-assembleia-na-regiao-de-palimiu-cir-ouve-demandas-de-liderancas-yanomami/

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