Luis Donisete Grupioni, coordenador executivo do Iepé, e Ianukulá Kayabi Suyá, ex-presidente da ATIX (Acervo Iepé)

Secretaria Executiva da Rede de Cooperação Amazônica, função que há mais de 15 anos era exercida pelo Iepé, agora é de responsabilidade da Associação Terra Indígena Xingu

O ano de 2026 marca o início da nova fase na Secretaria Executiva da  Rede de Cooperação Amazônica (RCA). A cadeira de secretário executivo, que durante mais de 15 anos foi ocupada pelo antropólogo Luis Donisete Grupioni, coordenador executivo do Instituto Iepé, passará a ser ocupada pela liderança indígena Ianukulá Kayabi Suyá, ex-presidente da Associação Terra Indígena Xingu (ATIX), uma mudança que sinaliza a maior autonomia e protagonismo dos povos indígenas hoje no país. 

As origens da rede RCA remontam a 1996, quando foi formada a Rede de Aliança Latino Americana, voltada a troca de experiências entre organizações que atuavam na região amazônica e que eram apoiadas pela Rainforest Foundation Norway (RFN). Em 2000, a seção brasileira dessa articulação se tornou independente, sob o nome de Rede de Cooperação Alternativa, e em 2013, a iniciativa foi renomeada como Rede de Cooperação Amazônica, alterando o nome, mas mantendo a sigla: RCA. Hoje ela é composta por 14 organizações, sendo 10 organizações indígenas e 4 indigenistas.

A ATIX, que participou da criação da RCA e é membro atuante desde então, recebe a partir de 2026 a secretaria executiva da rede. A ATIX é a representante legal das comunidades do Parque Indígena do Xingu. Desde sua fundação, em 1994, a organização atua na fiscalização da fronteira do Parque Indígena Xingu, lutando por transporte, saúde, educação e buscando gerar alternativas econômicas para as comunidades, como a venda de artesanato e mel – fortalecendo, assim, a valorização dos modos de vida dos povos Xinguanos. 

“As mudanças que ocorrem na coordenação da RCA nesse momento são um marco na trajetória da rede e mostram o amadurecimento de seus membros ao decidir, pela primeira vez, delegar a sua secretaria executiva a uma organização indígena, secretariado por um indígena”, celebra Ianukulá Kayabi Suyá, o novo secretário executivo.

Hoje, o trabalho da RCA, por meio de suas 14 organizações membro, envolve, direta e indiretamente, mais de 136 mil indígenas, habitantes de 93 Terras Indígenas da região amazônica do Brasil e somando uma área de aproximadamente 47 milhões de hectares.   

A RCA promove intercâmbios de conhecimentos, atividades de formação e capacitação de lideranças indígenas, incidência política nacional e internacional, apoio técnico e metodológico às suas organizações membro, além de produzir diversas publicações sobre variados temas. Desde 2024, após realizar um planejamento estratégico, tem organizado seu trabalho em torno de quatro temas principais: Gestão e proteção territorial; Defesa dos direitos indígenas; Mudanças climáticas e Mulheres e Juventudes indígenas.

Intercâmbio realizado pela RCA nas aldeias do Oiapoque – AP (Acervo Iepé)

Para trabalhar esses temas, a RCA promove tanto oficinas e eventos próprios, quanto participa de encontros organizados por outras entidades e articulações, no Brasil e no exterior. Processos formativos em direitos indígenas, protocolos de consulta, gestão territorial e mudanças climáticas foram realizados nos últimos anos, contribuindo para a atuação de lideranças indígenas em diferentes espaços de incidência. 

A RCA também tem apoiado delegações de suas organizações membro na participação dos Acampamentos Terra Livre (ATL) e da Marcha das Mulheres Indígenas. No plano internacional, a RCA acompanha desde o início a criação e funcionamento da Plataforma de Conhecimentos Indígenas e Comunidades Locais da Convenção-Quadro das Nações Unidas Sobre a  Mudança no Clima (LICPP/UNFCCC) com delegações de lideranças indígenas que têm participado ativamente das COPs de Mudanças Climáticas nos últimos anos, realizando eventos e apresentando contribuições. Também tem acompanhado as as sessões anuais do Fórum Permanente sobre questões indígenas da ONU, realizado em Nova York, nos EUA, e das sessões  do Mecanismo de Peritos em Direitos dos Povos Indígenas das Nações Unidas (EMRIP), que ocorre em Genebra, na Suíça – dois importantes fóruns internacionais de discussão sobre a promoção dos direitos indígenas no mundo. 

A RCA integra o Coletivo RPU Brasil, acompanhando os processos de revisão do Brasil pelo mecanismo da Revisão Periódica Universal (RPU) junto ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, contribuindo com análises para a elaboração de relatórios sobre o cumprimento de recomendações sobre os direitos dos povos indígenas recebidas pelo país, nos ciclos de revisão.

“Ao longo dos últimos anos, essa articulação em rede de organizações indígenas e indigenistas com forte atuação no cenário amazônico criou uma dinâmica de trabalho que fortalece suas organizações membro por meio da troca e do aprendizado compartilhado, permitindo que boas práticas implementadas em territórios indígenas sejam replicadas em outros territórios”, comenta Luis Donisete Grupioni. “Também nos esforçamos em divulgar conhecimentos por meio de um importante conjunto de publicações, principalmente nos temas de gestão territorial e de consulta livre, prévia e informada”.

A passagem de bastão da Secretaria Executiva da RCA, do Instituto Iepé para a ATIX, teve início em março de 2025, quando a assembleia anual da RCA elegeu Ianukula Kaiabi Suiá, como novo secretário executivo da Rede.

“A RCA já tem um desafio natural interno por ser uma rede mista com organizações indígenas e indigenistas, isso significa visões de mundos diferentes que se chocam as vezes, mas que sempre se encaixam em um só objetivo. É um aprendizado”, comenta Ianukulá.  “A rede tem o privilégio de ter uma visão política e técnica aprofundada, por possuir como membro as organizações sérias que trabalham a longas datas com os povos indígenas”, finaliza o novo secretario executivo.

Reunião de transição da Secretaria Executiva da RCA, em Canarana-MT (Acervo Iepé) 

Entre as principais atribuições da Secretaria Executiva da RCA estão a condução das ações previstas pelo planejamento anual pactuado na assembleia da rede (como intercâmbios, oficinas e reuniões), assegurar a participação de todas as organizações membro nas atividades da RCA, coordenar, formular e buscar financiamento para projetos de interesse, além de realizar a gestão financeira e executiva em concordância com o Conselho Político da rede. Também cabe ao secretário executivo representar a rede perante o movimento indígena e parceiros estratégicos.

“Estamos confiantes que esse processo de transição da secretaria executiva do Iepé para a ATIX resultará em inovação e em maior potência dessa articulação única de organizações. Avaliamos que cumprimos nosso papel e estamos empolgados em apoiar o trabalho do novo secretário executivo” conclui Luis Donisete Grupioni. 

Confira abaixo a lista completa com as 14 organizações que hoje são membros da RCA:  

Organizações Indígenas

Apina – Conselho das Aldeias Wajãpi 

AMIM  – Associação das Mulheres Indígenas em Mutirão do Oiapoque

ATIX – Associação Terra Indígena Xingu

AMAAIAC – Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre

OPIAC – Organização dos Professores Indígenas do Acre

FOIRN – Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro

HAY – Hutukara Associação Yanomami 

CIR – Conselho Indígena de Roraima 

OGM – União dos Povos Indígenas do Vale do Javari 

Wyty-Catë – Associação Wyty-Catë das Comunidades Timbira do Maranhão e Tocantins

Organizações Indigenistas 

Iepé – Instituto de Pesquisa e Formação Indígena

CTI – Centro de Trabalho Indigenista 

ISA – Instituto Socioambiental  

CPI-AC – Comissão Pró-Indígenas do Acre 

Fonte: https://institutoiepe.org.br/2026/03/do-iepe-para-a-atix-novos-horizontes-na-rede-rca/