Mulheres iniciaram encontro com danças e apresentações das representantes das aldeias (Foto: Nefertiti Hass – Iepé)

Os fundos coletivos de mulheres indígenas são mais que estratégias de apoio à produção de artes tradicionais, funcionam também como instrumentos de autonomia e fortalecimento político. Esse tema vem sendo debatido há alguns anos pela Articulação de Mulheres Indígenas Wayana e Aparai (AMIWA), que, durante seu encontro anual realizado entre 4 e 8 de maio, na Aldeia Bona, avançou nas discussões rumo à concretização desse sonho.

Representando as mulheres do lado leste do Tumucumaque, a AMIWA, vinculada à Associação dos Povos Indígenas Wayana e Aparai (APIWA), foi criada em 2017 e, desde então, trabalha para desenvolver projetos voltados para as mulheres, como medicina tradicional, roças, produção de pimenta e artes. Anualmente, esse coletivo se reúne para discutir, entre diversas pautas, o seu fortalecimento. A criação de um fundo próprio é encarado como um passo importante nesse processo.

“Temos muitos artesanatos e grafismos específicos do nosso povo”, afirma Serieuru Pupuri Apalai, vice-coordenadora da AMIWA. “Isso tem potencial para fazer o nosso fundo crescer, fortalecendo não só as nossas mulheres, mas também as futuras gerações”, completa.

Uma das discussões no encontro de 2026 foi sobre a qualidade das peças, fator decisivo para que sejam vendidas (Foto: Sofia Galvão – Iepé)

Para além de diversas rodas de conversa ao longo da semana, as mulheres participaram de atividades práticas voltadas à organização das artes já existentes e à estruturação de um processo produtivo. Uma dessas atividades foi a oficina de precificação, que buscou fortalecer a compreensão sobre a importância dessa etapa e apoiar a definição coletiva de critérios para estabelecer o valor das peças produzidas.

Mulheres discutiram valor agregado para chegar a proposta de preço para cada peça (Foto: Nefertiti Hass – Iepé)

A dinâmica permitiu que elas visualizassem os custos envolvidos na produção, no transporte e na comercialização das peças de miçanga. O exercício foi conduzido de forma coletiva, com tradução para as línguas indígenas e o uso de recursos visuais, como desenhos, para garantir o melhor entendimento de todas. 

Dezenas de mulheres de diversas aldeias do Tumucumaque leste se reuniram na Aldeia Bona  (Foto: Nefertiti Hass – Iepé)

Conhecimentos das mulheres fortalecidos podem gerar primeiros recursos do fundo

Entre as conquistas do trabalho da AMIWA está a retomada da produção dos wejus, saias frontais tradicionais feitas de miçangas pelas mulheres da região. Trata-se de um conhecimento tradicional que vinha se enfraquecendo e que a articulação conseguiu fortalecer por meio de oficinas apoiadas pelo Iepé. Alguns dos wejus produzidos ao longo desses anos foram entregues à APIWA e AMIWA, como consignação. A venda das peças será revertida parte para o pagamento das artesãs que os produziram e parte para compor o fundo das mulheres e cobrir as taxas administrativas da associação. 

Durante o encontro deste ano, as mulheres também catalogaram as peças já existentes, que serão doadas para o fundo, cerca de 40 wejus. Foi uma oficina prática, na qual mulheres que sabem escrever ajudaram as outras a anotar as informações de cada peça, numa tabela com informações como número da peça, aldeia, artesã, descrição, tamanho, largura, altura, cores, materiais, grafismo e preço. 

Houve também um momento de reflexão sobre o processo de fabricação dos wejus: o tempo necessário para produzi-los, o tamanho das miçangas utilizadas e a classificação das próprias saias, características que influenciam diretamente no preço final de cada uma. Existe um valor agregado, como lembrou Maruahani Apalai Waiana. “É um trabalho difícil de fazer, exige experiência para ficar bem feito. É nossa arte, nossos conhecimentos, não é copiado e não tem em outro lugar”.

Como ponto de partida para a criação do fundo, ele será composto, neste primeiro momento, exclusivamente pelos wejus. A proposta, porém, é ampliar gradualmente sua composição, incorporando outros tipos de produções das mulheres, não apenas trabalhos com miçangas, mas também peças de cerâmica, algodão e sementes.

Cerca de 40 weyus foram catalogados e devem ser doados ao fundo (Foto: Mariana Bachiega – Iepé)

Fundo Mukuxi

As regras do fundo e a divisão do valor das vendas foi outro tema de pauta, uma vez que o valor arrecadado é dividido entre pagamento da artesã, fundo coletivo e taxas administrativas para a organização indígena, que será responsável pela gestão da conta e apoio à comercialização. As mulheres também decidiram coletivamente o nome Fundo Mukuxi, que remete a um recipiente que elas usam para guardar alimentos, em sua maioria gordurosos.

Ao final do encontro, as mulheres discutiram os próximos passos do trabalho, que abrange outras linhas de atuação para além da produção de artesanato, incluindo as roças e a medicina tradicional. Também foi realizada a distribuição de linhas, agulhas e miçangas, que servirão como insumos para as produções do próximo ano.

Nome do fundo foi definido durante encontro em Bona (Foto: Sofia Galvão – Iepé)

Fundo de Artes e Artesanatos Wëriton Iyeripo é inspiração

Uma das principais inspirações para o fundo da AMIWA é o Fundo de Artes e Artesanatos Wëriton Iyeripo, criado pela associação de mulheres do lado oeste do Tumucumaque, a Articulação de Mulheres Indígenas Tiriyó, Katxuyana e Txikiyana (AMITIKATXI), vinculado à Associação dos Povos Indígenas Tiriyó, Katxuyana e Txikiyana (APITIKATXI). Como os dois lados do Tumucumaque compartilham o mesmo PGTA e possuem desafios, especialmente logísticos, parecidos, o Wëriton Iyeripo é sempre citado como exemplo. 

O encontro de mulheres da AMIWA foi apoiado pela APIWA e pelo Iepé, em parceria com Nia Tero, LLF e Bezos Earth Fund. 

Fonte: https://institutoiepe.org.br/2026/05/fundo-mukuxi-e-criado-para-fortalecimento-das-artes-das-mulheres-indigenas-wayana-e-aparai/