Ateliê de grafismos e cosmologia (Foto: Anderson Oliveira)

Oficinas na Terra Indígena Uaçá mobilizam 110 participantes e fortalecem grafismos, bancos rituais e marcas cosmológicas como saber vivo

Texto: Marcelo Domingues

Durante seis dias, a aldeia Kumarumã viveu um intenso processo de formação cultural e artística. No fim de novembro, o povo Galibi-Marworno transformou casas, khabes e o centro comunitário da aldeia em ateliês de criação e memória. Cerca de 110 pessoas participaram do ciclo de oficinas conduzido por mestres da própria comunidade, nas quais jovens e adultos aprofundaram conhecimentos sobre grafismos como Mak makurakura, Thásdjáb eXimēsolei, além de escultura de bancos rituais, tambores, chapéus Galibi, remos, adornos e confecção de cuias tradicionais.

Vinculadas ao ritual do Turé, as criações revelam uma cosmologia estruturada que articula memória, espiritualidade e organização social. A iniciativa foi realizada pelo Iepé com apoio da Associação Indígena do Povo Galibi-Marworno (AIPGM) e financiamento da Fundação Rainforest. Em 2023, a aldeia Kumarumã já havia recebido uma oficina com o mesmo objetivo, a valorização dos conhecimentos dos mais velhos. 

Entre o corte da madeira, o brilho do cumatê e o traço que representa o abraço coletivo das mulheres, as oficinas realizadas em Kumarumã reafirmaram que arte indígena não é adorno: é pensamento estruturado, memória ativa e projeto de futuro.

Aplicação de marcas em cuia (Foto: Aliberto dos Santos)

“Essa oficina de grafismo e simbolismo foi uma forma de valorizar os traços que são muito utilizados nos nossos artesanatos”, afirma o professor e artista indígena Milton Nunes, do povo Galibi-Marworno. “Muitos artistas e artesãos usam sem compreender o simbolismo. E isso ficava muito preocupante para nós artistas dentro da comunidade. Os artesanatos perdiam totalmente sua essência dentro do contexto narrativo do meu povo.”

Os grafismos desenvolvidos e aprofundados nas oficinas — como Mak makurakura (o fantástico mundo colorido das borboletas), Thásdjáb (pegadas do mapinguari), Ximēsolei (caminhos do sol), Maktutxi (marca do jabuti) e Yumaware (pessoas bonitas) — não são apenas composições geométricas. “É um mundo cosmológico que está dentro das narrativas que somente os pajés conhecem”, explica Milton.

O ritual do Turé, celebrado anualmente, é o eixo simbólico dessa produção. É nele que bancos zoomorfos, mastros, cuias, pinturas corporais e cantos se articulam como um sistema integrado.

Desenhos e cortes de escultura em madeira (Foto: Anderson Oliveira)

Na oficina de escultura em madeira, mestre Lázaro ensina os jovens no entalhe de bancos em madeira marupá. Lázaro aprendeu observando os mais velhos. “Desde criança eu ficava olhando meus avós, meus pais, meus tios fazendo os bancos para o Turé. Hoje eu sou o mestre desse trabalho. Os jovens veem no livro, mas não sabem fazer. Agora estão vendo de perto, cortando a madeira e percebendo quanto tempo leva para produzir um banco.”

“Esse banco tem uma importância muito grande dentro da cultura de nosso povo”, explica Milton, diante da peça ainda em processo. “Aqui é a base onde o pajé senta, no centro do laku, para organizar a dança como um todo. Ela é uma entidade muito poderosa. É quem fecha a dança no último dia da festa.”

Segundo Lázaro, muitos desses bancos já não são produzidos na aldeia e acabam substituídos por objetos comprados na cidade. “Os antigos já foram. Os jovens não sabem fazer. Por isso essa oficina é importante”, conclui.

Se a escultura aponta para o resgate, a oficina de cuias abre caminho para experimentações. O processo segue técnicas tradicionais — corte, raspagem, polimento e aplicação do pigmento natural com cumatê, que após sucessivas camadas adquire tom preto e brilho intenso. 

Cuias e ferramentas de produção (Foto: Aliberto dos Santos)         

Na aldeia Kumarumã, a cuia tem grande importância pelos usos sociais, alimentares e rituais associados em diferentes contextos culturais da aldeia. A comunidade identifica três formatos principais: cuia maracá, cuia comprida e cuia redonda, que apresentam variações de tamanho e funções específicas. É tradicionalmente utilizada na confecção do maracá, instrumento ritual usado em práticas culturais e cerimoniais. Atualmente, seu uso também se diversificou, sendo utilizada no cotidiano para retirar farinha do torrador, servir caldo ou beber caxixi.

A cuia comprida é utilizada principalmente para o consumo de chibé, preparação à base de farinha, água e pimenta. Esse tipo de cuia costuma ser empregado em contextos coletivos, como mutirões de trabalho ou reuniões comunitárias. Já a cuia redonda é utilizada principalmente para o consumo de alimentos como açaí e bacaba, além de servir caxixi durante o ritual do Turé.

Yumaware: mulheres que abraçam o mundo

Marca Yumaware (Foto: Lucas Campos)

Entre as criações desenvolvidas nas oficinas de grafismos e cosmologia, está a marca Yumaware. Palavra antiga, associada a “beleza” e “pessoas bonitas”, aparece nos cantos do Turé dedicados às mulheres.

Marca Yumaware utilizada no ateliê de Chapéu Galibi (Foto: Lucas Campos)

Segundo Nordevaldo dos Santos, artista e professor Galibi-Marworno, “a concepção da marca Yumaware surgiu a partir da observação de uma dança do Turé, que permitiu acompanhar de perto o conjunto dos movimentos corporais dos dançarinos, com especial atenção aos gestos protagonizados pelas mulheres. O grafismo representa o abraçar das mulheres todas juntas dentro do cântico”, explica o professor.

O entrelaçar dos braços, o ritmo dos pés formando losangos, zigue-zagues e círculos no espaço do ritual, foram os pontos centrais da pesquisa. A partir de registros fotográficos e diálogos entre mestres e alunos, o desenho foi consolidado no decorrer das oficinas, como expressão contemporânea enraizada na tradição.

“Por meio da linguagem da arte busco estabelecer um diálogo entre tradição e inovação, aproximando saberes ancestrais das dinâmicas da sociedade atual. Yumaware é uma obra que expressa minha identidade cultural e minha visão de mundo”, afirma Nordevaldo. “É uma homenagem ao passado e ao mesmo tempo reflexão sobre o presente.”

Yumaware marcado escultura em madeira (Foto: Lucas Campos)

Yarari: lágrimas que viram céu

Outra marca discutida durante as oficinas foi Yarari, vinculada à narrativa de Lapusiē, a constelação das sete estrelas. Segundo a tradição, a marca representa as lágrimas de Xeripinako, que, ao chorar, fez cair a chuva. As cores — azul, branco, amarelo, laranja e preto — são associadas às nuvens do amanhecer.

Yarari, tinta acrílica e grafite sobre papel canson (Foto: Lucas Campos)

Na cosmovisão Galibi-Marworno, a marca Yarari transita entre diferentes esferas do cosmos, configurando-se como um signo que conecta os quatro mundos: subterrâneo, subaquático, terrestre e celestial.

Relatos lembram o pajé Urusu, que teria visto a marca no mundo espiritual e orientado sua reprodução no ritual do Turé. Assim, o grafismo circula entre plano visível e invisível, articulando cosmologia e estética. Ela está nos mastros, nos bancos, e adornos do ritual.

Segundo Nordevaldo “a marca se inscreve no cotidiano da comunidade de diferentes formas, como nas narrativas, artesanato e expressões visuais que constituem o patrimônio cultural imaterial de nosso povo”A marca Yarari, evidencia a expressão ativa da memória coletiva Galibi-Marworno, articulando passado e presente, materialidade e imaterialidade, ritual e cotidiano.

Sua preservação e valorização representam a continuidade de uma tradição que permanece essencial para a identidade cultural e espiritual das relações sociais do povo Galibi-Marworno.

Equipe de jovens comunicadores do Oiapoque realizam registro audiovisual das marcas Yarari e Yumaware (Foto: Marcelo Domingues) 

Exposição e continuidade

No encerramento das oficinas, o Centro Comunitário do Casarão foi transformado em galeria. Mesas forradas com folhas de bananeira exibiam bancos, remos, cuias, adornos, bolsas. Cada mestre apresentou os resultados dos trabalhos, refletindo sobre a semana de trocas e aprendizagem. Foram produzidos: três bancos de madeira, um chapéu Galibi, 15 bolsas com tecido americano cru pintadas com grafismos, oito desenhos em papel canson, dois tambores de madeira, cinco remos, 20 cuias, 46 adornos em sementes e 79 adornos em miçangas. 

Finalização e Exposição no Centro cultural de Kumarumã (Foto: Aliberto dos Santos) 

As oficinas demonstram que a arte Galibi-Marworno não é apenas lembrança do passado. É um sistema de conhecimento tecnológico, filosofia visual e fundamento espiritual. Mesmo quando utiliza lixas industriais ou tintas compradas na cidade, a matriz simbólica está ancorada em sistemas próprios de interpretação, vinculados a um pensamento indígena específico e historicamente constituído. “A oficina foi um momento histórico de fortalecimento, ensinamento e criação. Não se tratou apenas de produzir artefatos. Tratou-se de reafirmar um sistema de pensamento”, resume Milton Nunes.

Exposição de adornos em sementes (Foto: Aliberto dos Santos)

Mestras e mestres das atividades

Milton Nunes e Nordevaldo – Grafismos e cosmologia Galibi-Marworno

Lázaro Getúlio – Escultura em madeira

Inácio Santos – Remos

Izonildo Macial – Chapéu Galibi

Gonzalo dos Santos – Tambor Galibi-Marworno

Clemiana dos Santos – Adornos em miçangas

Dagma Galibi – Adornos em sementes

Diene Galibi e Siara Santos – Cuia

Comunicadores indígenas

Aliberto dos Santos Benjamin – povo Galibi-Marworno

Manuela dos Santos Araújo – povo Galibi Kali´na

Lucas Monteiro Campos – povo Galibi-Marworno

Anderson Oliveira – povo Karipuna

Equipe Instituto Iepé 

Marcelo Domingues – coordenador da atividade e autor do texto 

Irana Calixto – assessoria

Elenilda – logística 

Luane Farias – administrativo

Fonte: https://institutoiepe.org.br/2026/03/oficina-de-artefatos-fortalece-cosmologia-do-povo-galibi-marworno/