• Na América Central, na fronteira entre a Costa Rica e o Panamá, um grupo de mulheres da comunidade indígena Ngäbe-Buglé poderia perder o lugar tradicional de seu trabalho, próximo ao curso d’água, devido à construção de uma ponte entre os dois países.
  • Mas, após diálogo com a comunidade envolvida, foi possível preparar uma nova área perto do rio para que mais de 100 mulheres pudessem continuar desenvolvendo seu ofício, dentro de suas tradições culturais. O espaço foi reformado, trazendo mais segurança, melhores condições, além de estar localizado mais próximo da comunidade onde elas vivem.
  • A nova ponte binacional sobre o rio Sixaola foi construída pelos governos da Costa Rica e Panamá, com o apoio solidário do Governo do México; e sob a direção, administração, supervisão e execução do Escritório das Nações Unidas para Serviços de Projetos (UNOPS). “Uma obra pela irmandade dos povos”, é o que evocam as autoridades dos três países envolvidos.

 

O desenvolvimento de obras de infraestrutura rodoviária pode ter impactos significativos nas comunidades locais e populações vulneráveis. Foi o que aconteceu durante a construção da nova ponte sobre o Rio Sixaola, que liga a Costa Rica ao Panamá, na América Central. No início da obra, um grupo de mulheres da comunidade indígena Ngäbe-Buglé poderia perder o lugar tradicional de seu trabalho, próximo ao curso d’água. Mas, após diálogo com elas, foi possível preparar uma nova área perto do rio para que mais de 100 mulheres pudessem continuar desenvolvendo seu ofício, dentro de suas tradições culturais. O espaço foi reformado, trazendo mais segurança, melhores condições, além de estar localizado mais próximo da comunidade onde elas vivem.

Leidy Morales é uma dessas mulheres de origem Ngäbe. Ela vive entre a Costa Rica e o Panamá desde os 6 anos, e cruzar a fronteira é algo cotidiano. Durante sua infância, para estudar, passou da cidade de Sixaola, na Costa Rica, a Guabito, no Panamá. Anos depois, ele continuou a circular entre os dois países para continuar seus estudos, fazer compras no mercado ou visitar a família, que mora do outro lado da fronteira.

Quando criança, Leidy pegava um velho ônibus que cruzava a velha ponte ferroviária usada para ligar as duas cidades durante mais de 100 anos. “Cada vez que eu cruzava, morria de medo, pois pensava que a velha estrutura metálica iria cair no rio. Mas eu apenas ficava calada, porque já estávamos todos acostumados com aquilo”, diz ela, às margens do rio Sixaola.

Assim como Leidy, dezenas de mulheres das comunidades Ngäbe e Teribe costumam ir até a beira do rio para tomar banho, cuidar da higiene das crianças e lavar roupa, com um método tradicional que faz parte de sua cultura.

“Gostamos de usar o rio, é assim que tradicionalmente fazemos. Estamos aqui desde as 6h da manhã e nos revezamos. Embora sejamos muitas, cada uma se lava em silêncio, porque nós, mulheres Ngäbe, não falamos muito”, diz Onelia Tomas, que passa de duas a três horas submersa nas águas do rio Sixaola todas as manhãs, geralmente próxima de sua sobrinha Odilia.

Legenda: Dezenas de mulheres das comunidades Ngäbe e Teribe costumam ir até a beira do rio para tomar banho, cuidar da higiene das crianças e lavar roupa, com um método tradicional que faz parte de sua cultura
Foto: © Carla Soto

Apesar dos processos de colonização e miscigenação na área, os povos da comunidade indígena Ngäbe-Buglé persistem em manter algumas de suas tradições. Um exemplo disso é a relação íntima com o rio, profundamente integrada ao cotidiano. Lavar-se no rio simboliza a conexão com as raízes tão ameaçadas pelas mudanças culturais. Por isso, o ato de proteger seu lugar no rio torna-se uma reivindicação, defendida como um direito cultural.

Em 4 de março de 2021, foi inaugurada a nova ponte binacional sobre o rio Sixaola. A obra foi construída pelos governos da Costa Rica e Panamá, com o apoio solidário do Governo do México; e sob a direção, administração, supervisão e execução do Escritório das Nações Unidas para Serviços de Projetos (UNOPS). “Uma obra pela irmandade dos povos”, é o que evocam as autoridades dos três países envolvidos.

Do ponto onde as mulheres costumam se lavar, dá para ver a estrutura da nova ponte. A obra foi construída sob princípios de sustentabilidade e resiliência e vai facilitar a vida de cerca de 15 mil pessoas que moram nas proximidades. Na região, há uma grande presença de povos indígenas e afrodescendentes, o que faz com que a ponte se torne também um importante instrumento para a promoção do desenvolvimento humano local, que historicamente tem sido baixo na área.

A consulta e o diálogo com a comunidade fazem parte da dimensão social das obras, que busca não deixar ninguém para trás. Isto permitiu a Leidy, Onelia e Odilia passar da lavagem da parte baixa da ponte velha a um novo local, preparado de acordo com as suas necessidades, respeitando a sua cultura e tradições, e favorecendo a sua participação efetiva no processo. A partir desse novo local, elas e outras mulheres de sua comunidade continuarão a travessia do Panamá à Costa Rica, ou vice-versa, em busca das mercadorias que utilizam no dia-a-dia.

Fonte: https://brasil.un.org/pt-br/140084-mulheres-indigenas-da-america-central-usufruem-de-obras-de-desenvolvimento-sem-esquecer-de