Sônia Guajajara participa da marcha indígena, organizada da pela sociedade civil como parte da programação da COP30, em Belém – Danilo Verpa 17.nov.25/Folhapress

  • Após três anos a frente da pasta dos Povos Indígenas, ela disputará pleito por São Paulo
  • Maranhense escolhe a capital paulista por eleger mais parlamentares para a Câmara

Jorge Abreu

São Paulo

“Nunca mais um Brasil sem nós”. Com essa frase, Sônia Guajajara tomou posse, em 11 de janeiro de 2023, de um ministério de Estado em um dia histórico para os povos indígenas. No ano anterior, havia sido eleita deputada federal pelo Psol em São Paulo com 156.966 votos.

Agora, Sônia retorna ao objetivo de seu movimento de base: “aldear política” —um mote de convocação para as eleições. Ela deixa nesta semana o MPI (Ministério dos Povos Indígenas) para concorrer, pelo mesmo partido, a reeleição como parlamentar por São Paulo.

Segundo ela, a escolha da candidatura em solo paulista é porque o estado tem direito a mais deputados na Câmara e é uma região onde ela teria um potencial de votos maior que em sua terra natal, o Maranhão, em razão do maior colégio eleitoral.

Ainda no início de sua gestão, a então ministra sofreu a primeira derrota contra o Congresso Nacional, que esvaziou, em maio de 2023, os ministérios de Povos Indígenas e de Meio Ambiente, de Marina Silva, sob pressão do centrão e da bancada ruralista.

Sônia viu ainda a força contrária do Legislativo, que incluiu o marco temporal para a demarcação das terras indígenas na Constituição Federal —tese diz que as etnias só têm direito a reivindicar territórios que já ocupavam na data da promulgação, 5 de outubro de 1988.

marco temporal tinha sido derrubado, anteriormente, no STF (Supremo Tribunal de Federal), após luta do movimento indígena contra a tese, o que levou a mobilização na Câmara e no Senado pela efetivação da regra que dificulta a principal demanda do grupo: a demarcação de terras.

Mesmo com as limitações impostas pelo Congresso, o ministério de Sônia atuou na articulação de homologações de vinte terras, além de 21 portarias declaratórias. No governo anterior, o então presidente Jair Bolsonaro (PL) não demarcou nenhuma terra.

A pasta indigenista, inédita em um governo federal, será comandado agora pelo número dois na hierarquia, o advogado Eloy Terena, que atuou junto de Sônia na Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), a maior entidade representativa dos povos originários.

O MPI afirma que reduziu em 98,77% o garimpo ilegal na terra indígena Yanomami, o maior gargalo do governo, com cerca de 9.000 ações que causaram mais de R$ 642 milhões em prejuízo, atingindo desde pontos de extração até as rotas de abastecimento e escoamento do ouro.

Além da Yanomami, ainda estão em curso operações de desintrusão nas terras Sararé (MT), Vale do Javari (AM) e Uru-Eu-Wau-Wau (RO). As ações contam com apoio da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) e da Polícia Federal.

A força-tarefa finalizou a desintrusão nas terras indígenas Alto do Rio Guamá (PA), Apyterewa (PA), Trincheira Bacajá (PA), Karipuna (RO), Munduruku (PA), Sai-Cinza (PA), Arariboia (MA) e Kayapó (PA).

Em junho de 2025, o projeto de lei das Cotas no Serviço Público, com articulação do ministério, aumentou de 20% para 30% a reserva de vagas para indígenas e quilombolas no serviço público, visando assegurar maior representatividade étnica no Estado.

Já em novembro do ano passado, Sônia celebrou a maior participação indígena em uma conferência do clima da ONU (Organizações de Nações Unidas). A COP30 reuniu, em Belém, cerca de 3.500 indígenas de 385 etnias diferentes do mundo, sendo 312 do Brasil e 73 de outros 42 países.

O MPI coordenou ainda o Plano Temático Povos Indígenas, um dos 16 projetos de adaptação que integram o novo Plano Nacional sobre Mudança do Clima (Plano Clima) 2024-2035, que foi construído de forma participativa com envolvimento de etnias de todos os biomas.

Sônia Guajajara nasceu na terra indígena Arariboia, no Maranhão, e ainda criança se mudou para Imperatriz (MA). Tornou-se uma das principais lideranças do movimento indígena, inclusive tendo discursado em cúpulas das Nações Unidas.

Em 2018, já no Psol, foi candidata a vice-presidente na chapa de Guilherme Boulos. Mas só em 2022 foi eleita deputada federal pela primeira vez, em que disputou por São Paulo.

Terras indígenas homologadas no governo Lula 3:

Manoki (MT)

Arara do Rio Amônia (AC)

Kariri Xocó (AL)

Rio dos Índios (RS)

Tremembé da Barra do Mundaú (CE)

Uneiuxi (AM)

Ava Canoeiro (GO)

Rio Gregório (AC)

Acapuri de Cima (AM)

Cacique Fontoura (MT)

Aldeia Velha (BA)

Potiguara de Monte-Mor (PB)

Morros dos Cavalos (SC)

Toldo Imbu (SC)

Pitaguary (CE)

Lagoa Encantada (CE)

Tremembé de Queimadas (CE)

Kaxuyana-Tunayana (PA/AM)

Parecis (MT)

Uirapuru (MT)

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/03/sonia-guajajara-deixa-ministerio-para-concorrer-a-reeleicao-como-deputada-federal.shtml