Por Val Munduruku

                        Sai da frente com seu preconceito que eu vou passar com o meu cocar

Brasília (DF) –  Eu sou Val Munduruku, e existir como indígena LGBTQIAPN+ é, todos os dias, um ato de resistência. No Acampamento Terra Livre, eu levo comigo meu corpo, minha história e minha ancestralidade, mostrando que nossa luta não é só por território, mas também pelo direito de sermos quem somos, sem medo.

Eu falo a partir do meu corpo, da minha ancestralidade e da minha existência inteira. Sou indígena, sou LGBTQIA+, e carrego em mim histórias que resistem há séculos, mesmo quando tentam nos apagar.

No Acampamento Terra Livre 2026, levamos mais do que a luta pelo território. Levamos  a defesa da vida digna, da saúde, da educação e do direito de existir na nossa terra com liberdade, respeito e segurança. Porque nós, indígenas LGBTQIAPN+, não somos pauta secundária, somos parte viva dos nossos povos, das nossas comunidades e das nossas retomadas. Mesmo diante da invisibilidade e do preconceito, eu sigo ocupando espaços dentro e fora do movimento indígena. Reafirmo que nossas vozes, nossos corpos e nossas cores também são território. E território não se negocia, se defende.

A realização do 2º Ballroom Indígena marca esse movimento de forma potente. É mais do que celebração: é afirmação de identidade, de estética, de pertencimento. É um espaço onde nossos corpos podem existir com liberdade, onde a cultura ballroom se encontra com a ancestralidade indígena, criando novas formas de resistência e expressão. A marcha LGBTQIAPN+ dentro da segunda marcha do ATL também reafirma esse avanço. Caminhar coletivamente, com nossos cocares, nossas cores e nossas bandeiras, é dizer que estamos vivos, organizados e presentes. É mostrar que nossas pautas fazem parte da luta maior dos povos indígenas. Esses momentos representam conquistas importantes, fruto de muita articulação e coragem. Ainda existem desafios, ainda enfrentamos preconceitos, mas seguimos avançando.

Porque cada passo dado, cada espaço ocupado, é também um caminho aberto para quem vem depois de nós. Ao longo dos últimos anos, nossas vozes têm rompido silêncios históricos, trazendo à tona debates fundamentais sobre identidade, território, ancestralidade e direitos, muitas vezes atravessados por múltiplas formas de violência e resistência.

Vivemos em um país que insiste em nos violentar, que ainda lidera números de mortes da população LGBTQIA+. Mas nós seguimos. Seguimos por quem veio antes, por Tibyra, por todas as pessoas que tombaram, e por aquelas que ainda virão. Nossa existência é continuidade, é memória e é luta.

  • A segunda marcha do ATL 2026 levou o tema ‘Demarca, Lula Brasil Soberano é Terra Indígena Demarcada e Protegida’  (Foto: BepmoroI  Metuktire/ Engajamundo).
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O Acampamento Terra Livre começou no domingo (5 de abril) e segue até o dia 11 de abril, em Brasília. Em sua  22ª edição, traz o tema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”. Val Mundurukuestá presente no ATL junto da delegação de jovens indígenas do Engajamundo, organização de liderança jovem e feita para jovens, que acredita na importância da atuação da juventude para enfrentar os maiores problemas ambientais e sociais do Brasil e do mundo.

A imagem que abre este artigo mostra a ativista Val Munduruku na segunda marcha no ATL 2026 (Foto: Breno Amajunepá/Engajamundo)

A produção do artigo da jovem Val Munduruku, sobre a cobertura do ATL 2026, faz parte de uma parceria entre o Engajamundo e a agência Amazônia Real.

Veja os outros artigos desta série:

A Voz de Janiely Truká no ATL 2026: Luta pela Terra, Memória e Futuro

ATL 2026: Juventude Indígena e a Defesa dos Territórios, por Breno Amajunepá

ATL 2026: enquanto a juventude indígena resistir, existirá esperança, por Ageu Puyanawa

ATL 2026: A força da comunicação da juventude Kayapó, por Bepmoroi Metuktire

Leia mais sobre o movimento LGBTQIA+ Indígena aqui.

Fonte: https://amazoniareal.com.br/jovens-cidadaos/o-protagonismo-indigena-lgbtqiapn-no-atl-2026/