Fotos: Helder Rabelo

Com anuência do MMA e MAPA, iniciativa piloto de fomento à produção indígena no sertão nordestino deve ganhar escala federal 

O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, anunciou, no domingo (24), a transformação do projeto Aldeias Produtivas em um programa nacional durante cerimônia de entrega de equipamentos referentes ao projeto na Ilha da Assunção, território tradicional do povo indígena Truká em Cabrobó-PE. Divulgada em meio à entrega de 50 itens avaliados em R$ 450 mil à população indígena, a medida permite à pasta a ampliação de investimentos para além do sertão nordestino e do escopo de execução do Instituto Federal do Sertão Pernambucano (IFSertãoPE), nacionalizando a iniciativa que ganhou projeção central na região do Rio São Francisco.

O ministro utilizou a cerimônia para comunicar o andamento do processo de conversão do projeto, concretizado via Termo de Execução Descentralizada (TED), em programa nacional, o que classificou como vitória política no território Truká. A entrega, executada em parceria com o IFSertãoPE, deixou de ser apenas um ato local para se tornar o anúncio de construção de uma política de Estado, permitindo que, uma vez aprovado, o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) aporte recursos em outras regiões do país no futuro.

Terena enfatizou que a mudança de projeto para programa foi fruto de uma superação de barreiras e preconceitos. “Instituir esse programa nos traz uma série de desafios porque infelizmente há quem pense que os povos indígenas não produzem ou não devem produzir”, revelou o ministro. Ele destacou que o sucesso da execução direta via IFSertãoPE serviu para obter anuência do Ministério do Meio Ambiente  Mudança do Clima (MMA) e do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) para desenvolver um ato normativo interministerial que estabeleça o programa a ser enviado à Casa Civil para que possa se posicionar oficialmente.

A escolha do território Truká para o anúncio não foi aleatória, mas um reconhecimento à resistência histórica dos povos do Nordeste, que o ministro descreveu como as primeiras barreiras contra o processo colonial. Terena ressaltou que os povos da região têm muito a ensinar sobre autodeterminação e preservação cultural, mesmo diante de séculos de pressão do capitalismo e de estruturas políticas adversas. Para ele, o sucesso das Aldeias Produtivas em Pernambuco inspirou o modelo nacional, que agora buscará parcerias com outros ministérios para ampliar os aportes financeiros.

O ministro demarcou a linha de atuação do governo para garantir que a produtividade não signifique a perda da identidade. “A gente não quer levar a monocultura, o agronegócio para os povos indígenas. Pelo contrário, a gente quer apoiar as iniciativas indígenas a partir do que os povos indígenas já fazem. A gente não quer inventar nada, a gente quer fortalecer aquilo que vocês já sabem fazer”, afirmou Terena, reforçando que o papel do Estado é fornecer ferramentas para a autonomia e não impor modelos externos de produção.

Além disso, foi firmado o compromisso de realizar oficinas para a elaboração de planos de negócios técnicos certificados pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), visando profissionalizar a gestão das comunidades. Outro destaque foi a menção ao projeto “Empreender Mulher Indígena”, também inspirado na experiência observada na Ilha da Assunção, focado em dar suporte inicial e formação para os negócios geridos pelas mulheres indígenas.

Por fim, Eloy Terena apresentou o novo secretário executivo do MPI, Marcos Kaingang, como a peça-chave para garantir o encaminhamento das medidas no Rio São Francisco sejam executadas com celeridade. O ministro concluiu reforçando que o fortalecimento econômico das aldeias é uma estratégia de defesa do próprio território, permitindo que os indígenas ocupem espaços como universidades e mercados “de cabeça erguida”, munidos de orgulho por sua ancestralidade e tradição.

Engrenagem nacional

Por sua vez, Marcos Kaingang, reforçou o papel técnico e operacional necessário para que a nacionalização do programa Aldeias Produtivas se torne efetiva. Kaingang citou que sua missão principal é dar os encaminhamentos práticos para as articulações feitas pelo ministro Eloy Terena, garantindo que os investimentos no sertão nordestino não sejam apenas um ato isolado, mas o início de uma engrenagem para ser replicada em todo o país.

Para o secretário, a entrega dos equipamentos é o coroamento de uma luta ativa da comunidade indígena local, rechaçando a ideia de passividade perante o Estado. Ele ressaltou que a chegada de tecnologias como tratores ao território Truká é fruto de uma mobilização política que encontrou eco no novo arranjo ministerial, afirmando que a busca por parcerias e compromissos firmados é o que permite que o suporte do governo chegue, de fato, ao chão das aldeias.

Kaingang defendeu que o apoio à produção deve caminhar lado a lado com a demarcação de terras. Ele pontuou que, muitas vezes, as áreas já demarcadas acabam invisibilizadas pela urgência das pautas fundiárias, privando os povos do apoio necessário para a produção de alimentos e insumos. Com a possibilidade da conversão do Aldeias Produtivas em programa nacional, o governo federal pretende preencher essa lacuna, fortalecendo a segurança alimentar e a autonomia econômica em territórios já garantidos.

Em um momento de comparação entre diferentes biomas e culturas, o secretário contrastou o modelo sustentável dos Truká com as pressões do agronegócio em outras regiões. “Há os que entendem que plantar soja e milho é muito mais prático do que apostar e investir em outras iniciativas. Por que não trazer lideranças de outras regiões para ver a experiência e o modelo de produção que vocês têm aqui como uma possibilidade real?”, questionou, reforçando o valor do modelo de diversificação produtiva encontrado no sertão nordestino.

Marcos Kaingang propôs formalmente o uso da Ilha da Assunção como um centro de aprendizado, onde lideranças de outras regiões possam estudar como o manejo produtivo indígena pode ser rentável sem abrir mão da identidade e da sustentabilidade. “Estamos diante de um exemplo que visa quebrar a dependência de monoculturas externas, promovendo modelos de negócio desenhados pelas próprias comunidades.”

Ao finalizar, o secretário executivo reafirmou que a operacionalização dessa política nacional é a “receita do sucesso” para uma gestão indigenista que busca resultados tangíveis e duradouros. Ele garantiu que o ministério está empenhado em abrir novos eixos de atuação e que a estrutura do MPI e da Funai estará à disposição para dar suporte aos próximos passos.

Agenda Truká

Escuta ativa aplicada ao desenvolvimento sustentável

Como coordenador do projeto Aldeias Produtivas e professor do IF do Sertão Pernambucano, Tarcísio Nunes, detalhou que a cerimônia formalizou a entrega de parte do investimento de R$ 1 milhão destinado especificamente ao povo Truká. O investimento incluiu equipamentos de grande porte, como dois tratores de 35 cavalos e dois reboques, além de uma completa reestruturação tecnológica para a comunidade com 28 computadores, drones, câmeras de segurança e equipamentos de vídeo para o laboratório de informática da escola local.

O diferencial do programa, segundo Tarcísio, reside na oferta de educação tecnológica pioneira dentro do território indígena. Os cursos de Produção de Frutas e Zootecnia foram desenhados para atender às vocações locais. Enquanto o primeiro foca na colheita e transformação de polpas, uma demanda direta das mulheres produtoras; o segundo abrange a criação de galinhas, peixes e camarões. O coordenador ressaltou que cerca de 20% dos jovens Truká já são alunos do IF em Salgueiro, e o programa permite que egressos graduados retornem à ilha como professores, consolidando um ciclo de formação onde indígenas ensinam outros indígenas.

A metodologia aplicada pelo IFSertãoPE rompe com modelos tradicionais de assistência técnica ao adotar uma postura de escuta ativa. Tarcísio explicou que cada item entregue e cada disciplina ensinada foram decididos em reuniões prévias com as lideranças, garantindo que o programa supra as carências reais da comunidade. Essa abordagem visa evitar o êxodo rural, oferecendo alternativas de emprego e renda dentro do próprio território tradicional, transformando o Instituto Federal em uma ferramenta de extensão que ultrapassa os muros da academia.

Com uma possível expansão nacional, o IFSertãoPE pode assumir um papel de coordenação da descentralização de recursos para outras instituições de ensino técnico em diferentes biomas do Brasil. Tarcísio vislumbra que esse modelo de capacitação técnica, que nasceu como um projeto piloto no sertão, servirá de base para que outros povos recebam o suporte necessário para desenvolver seus próprios modelos de negócio. Ele destacou que a capilarização em rede federal será essencial para levar essa “mão amiga” a todas as regiões do país, mantendo o rigor técnico e o respeito às especificidades culturais.

Por fim, o coordenador anunciou os próximos passos na região. Entre eles, a certificação de até 300 alunos indígenas em novembro, durante uma feira de produtos indígenas em Serra Talhada-PE. Ele informou que o MPI irá promover uma feira nacional de produtos indígenas para dar visibilidade à produção em larga escala. Para Tarcísio, o entusiasmo da comunidade Truká com as entregas é a prova de que a educação tecnológica aliada ao investimento em equipamentos é o caminho para o desenvolvimento sustentável das aldeias em todo o Brasil.

Truká: embrião do Aldeias Produtivas

O cacique Aurivan Santos Barros, conhecido como Neguinho Truká, líder da aldeia mãe na Ilha da Assunção, apresentou um panorama que justifica a elevação do projeto Aldeias Produtivas ao status de programa nacional do governo federal. Aurivan detalhou que, apesar de o povo Truká possuir um território tradicional de quase 22 mil hectares, a luta pela regularização fundiária ainda passa por etapas distintas do processo, com apenas 1.650 hectares totalmente regularizados. 

Mesmo diante dessa limitação jurídica, a comunidade de mais de 7 mil indígenas em Cabrobó consolidou força econômica, sendo responsável por mais de 60% da economia do município, segundo o cacique, o que serviu de base para atestar ao Ministério dos Povos Indígenas (MPI) a viabilidade do programa.

A origem do projeto na Ilha da Assunção serve de contraponto à monocultura de larga escala. O cacique disse que a iniciativa é uma resposta à produção de soja em territórios indígenas. Para Neguinho Truká, é necessário mostrar que a agricultura indígena brasileira é multifacetada e integrada ao bioma local, não se resumindo a um único modelo. Essa visão de uma agricultura diversificada e ancestral foi o que chamou atenção do ministro Eloy Terena em sua primeira visita, realizada em 2025, transformando a experiência Truká no embrião do projeto.

A escala produtiva apresentada pelo cacique possui volume e variedade, suportada pelo manejo sustentável da Caatinga. Ele citou que a comunidade opera cadeias produtivas robustas, como a produção de 240 toneladas de peixe em picos de safra até granjas que abastecem centros urbanos como Petrolina e Salgueiro com ovos e aves. Na fruticultura irrigada, os Truká manejam quase 2 mil hectares de manga e banana, utilizando técnicas consorciadas onde o feijão, o milho e raízes como macaxeira e inhame são plantados entre as árvores frutíferas, garantindo renda e segurança alimentar durante todo o ano.

Neguinho Truká ressaltou o desejo de romper com a invisibilidade e a dependência de intermediários no mercado nacional e internacional. “A nossa luta é justamente para que a gente consiga se capacitar para não estar mais na mão do atravessador e projetar o nome, mostrar o indígena produtor; que a gente pode ser o que a gente quiser ser sem deixar de ser o que somos. Para a sociedade nacional ver que contribuímos, já que existe essa visão cega de que a gente não contribui para o país”, afirmou o cacique.

O investimento de R$ 1 milhão, aliado aos cursos de capacitação em audiovisual e agricultura, foca justamente na profissionalização dessas cadeias já existentes. O cacique explicou que o povo Truká chegou a esse patamar produtivo praticamente sozinhos, sem acesso facilitado a empréstimos ou incentivos estatais por décadas. Uma nacionalização do programa Aldeias Produtivas surgiria, portanto, como o reconhecimento necessário do Estado brasileiro, que agora vê a produção indígena não como uma curiosidade, mas como um pilar de sustentação econômica regional e preservação ambiental.

Ao concluir, Neguinho Truká reiterou que o projeto deve servir de espelho para outros povos do Brasil. Ele destacou o envolvimento crucial de mulheres e jovens na estruturação das cadeias produtivas, garantindo a sucessão e o fortalecimento da cultura Truká. Para o cacique, a entrega dos itens e a oficialização nacional do programa em parceria com o IFSertãoPE marcam o fim da era em que a contribuição indígena para o PIB e para a mesa dos brasileiros era silenciada, abrindo caminho para uma produção técnica, ancestral e soberana.

Fonte: https://www.gov.br/povosindigenas/pt-br/assuntos/noticias/2026/05/mpi-anuncia-processo-de-criacao-do-programa-aldeias-produtivas-a-nivel-nacional-durante-cerimonia-em-territorio-truka-pe