Exposição está aberta ao público de quarta a domingo, no Museu Goeldi (Foto: Luis Donisete – Iepé)

Mostra, que está em cartaz em Belém, propõe novas formas de relação com histórias, conhecimentos e patrimônios indígenas

Texto: Angélica Queiroz

Está em cartaz no Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, a exposição Katxar kum neero | Nossos lugares verdadeiros, concebida e narrada pelos povos Katxuyana e Kahyana, por meio da Associação Indígena Katxuyana, Tunayana e Kahyana (AIKATUK).  

A mostra apresenta uma história marcada, desde a década de 1960, por deslocamentos forçados e pela dispersão de grupos e famílias para longe de seus lugares de origem, mas também pela continuidade dos vínculos com esses lugares e pelos movimentos de retomada da presença física, política e cosmológica em seus territórios. 

Realizada pela AIKATUK em parceria com o Instituto Iepé, o Museu Paraense Emílio Goeldi e a Universidade Federal Fluminense (UFF), a exposição parte das escolhas dos próprios Katxuyana e Kahyana sobre como contar sua história, quais relações tornar visíveis e como apresentar ao público conhecimentos e patrimônios que permaneceram conectados a eles mesmo quando pessoas e objetos foram levados para longe de seus territórios. 

Os caminhos e desafios dessa construção coletiva estiveram entre os temas destacados durante a abertura da exposição, realizada no último dia 25 de agosto, reunindo lideranças indígenas, pesquisadores e representantes de instituições parceiras, como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o British Council, a Universidade Federal Fluminense (UFF) e o próprio Museu Goeldi, que sediou o evento.

Uma continuidade da homologação 

Em sua fala, Juventino Kaxuyana, fundador da AIKATUK e importante liderança, que participou  da concepção e montagem da exposição, lembrou aos presentes um pouco da história narrada na exposição, marcada, na década de 1960, por deslocamentos forçados e pela dispersão de grupos e famílias para longe de seus lugares de origem e, posteriormente, por um processo de resistência e afirmação territorial que teve, entre seus marcos recentes, a homologação da Terra Indígena Kaxuyana-Tunayana, durante a COP 30, em Belém. “Nós fomos levados pelo Estado Brasileiro para um outro território, que não era nosso, mas sempre pensamos em retornar e retomar o nosso território, que nunca ficou abandonado”, contou.

Angela conduziu, junto com as demais lideranças indígenas presentes, a primeira visita aberta à exposição (Foto: Woltaire Masaki – MPEG)

À frente da concepção da mostra, Angela Kaxuyana conduziu a primeira visita à exposição e falou sobre o peso de transformar em narrativa pública memórias ainda muito recentes. “Foi um projeto construído com muita emoção e muito choro, porque cada documento nos lembrava a violência, a resiliência e a vida das pessoas que se perderam nesse processo de retomada. O primeiro desafio foi organizar, controlar e lidar com os sentimentos”, comentou. “Não faz sentido vocês olharem a exposição se não estiverem conectados com o que ela significa. Para mim, essa exposição é uma continuidade da homologação”, completou.

Para Angela, transformar as dores em uma mostra como essa é uma responsabilidade muito grande: “não podemos errar novamente nas narrativas das nossas histórias”. Outro desafio, segundo ela, foi o de transmitir tantos sentimentos em uma perspectiva que conversasse com a forma com que os não-indígenas pensam. “Ainda há uma necessidade de entender que o espaço do museu precisa se transformar e que, nós, indígenas podemos e devemos contribuir com essa reestruturação. Museu não é só passado, é presente e, principalmente, o futuro da continuidade da nossa existência”.

Angela Kaxuyana falou sobre os desafios da curadoria (Foto: Luis Donisete – Iepé)

“Uma pesquisa sobre nós, para nós”

Pesquisadora indígena e presidente da AIKATUK, Ana Lúcia Kaxuyana, também falou sobre esse processo. “É uma pesquisa sobre nós, para nós mesmas, para que as futuras gerações tenham a oportunidade de saber quem somos, de onde viemos e que os mais velhos estiveram aqui nesse espaço para contar que lutamos para não desaparecer nessa vida enquanto povo. Para isso a gente precisa utilizar novas ferramentas, se adaptando a formas de registrar que não são nossas, porque nós fazemos isso, mas de outro jeito, na vivência prática, quando os mais velhos contam histórias para os mais jovens à noite”, explicou.

Segundo Ana, aliar o saber tradicional ao dos não-indígenas e à linguagem de um museu foi difícil. “Mas estamos aqui vivos e permanecemos vivos porque buscamos estratégias para nos manter existindo. Tivemos que aprender a língua dos outros para contar a nossa história, mas a partir de agora queremos também reproduzir o nosso saber na nossa própria língua”, pontuou. “O que vocês vão ver nesta exposição é um pedacinho de nós, um grito de dizer para a sociedade brasileira e paraense que ainda existimos, que a nossa existência nunca foi apagada dentro de nós”. 

Neide Imaya Wara Kaxuyana, outra pesquisadora indígena que trabalhou no projeto, conta que, apesar dos desafios, aprendeu muito sobre sua própria história. Para ela, a exposição é apenas um começo, pois não encerra a pesquisa nem o esforço de perpetuar a cultura. “Temos que procurar novas formas de socializar nossas histórias também dentro do nosso território. Mas esses objetos que estão guardados nos lugares são referências e nos ajudam a não esquecer”. 

Lideranças acompanharam a cerimônia de abertura em Belém (Foto: Daniel Magno – MPEG)

Txamatxama: relações entre diferentes mundos 

No centro da exposição está o txamatxama, um artefato plumário de grande importância cosmológica e sociopolítica para os povos Katxuyana e Kahyana, um dispositivo de comunicação e diplomacia entre diferentes mundos, capaz de mediar relações entre humanos e outros seres da Terra. O artefato foi citado em várias falas durante a inauguração da exposição porque ele foi se revelando, ao longo do processo de curadoria, como central e simbólico para conectar toda a narrativa.

Txamatxama ocupa o centro da sala (Foto: Luis Donisete – Iepé)

Ao longo do processo de pesquisa e curadoria, o txamatxama foi se revelando não apenas como um dos patrimônios pesquisados, mas como uma referência capaz de conectar diferentes dimensões da narrativa apresentada na exposição: deslocamentos e reencontros, pessoas e objetos, lugares próximos e distantes, conhecimentos do passado e projetos de futuro.

A própria trajetória de muitos objetos Katxuyana e Kahyana ajuda a compreender esse movimento. Ao longo do século XX, numerosos pertences deixaram os territórios junto com pesquisadores e viajantes e hoje estão guardados em museus no Brasil e em outros países. Reencontrá-los tem feito parte dos processos contemporâneos de pesquisa e retomada.

Parceria inversa

A exposição também expressa uma transformação na própria maneira de compreender a colaboração entre pesquisadores indígenas e não indígenas. Para Denise Fajardo, antropóloga e coordenadora do Programa Tumucumaque-Wayamu (PTW), do Iepé, um dos aprendizados de décadas de trabalho com os Katxuyana e Kahyana é reconhecer que distância não significa necessariamente ruptura. “É possível estar longe e estar relacionado e profundamente ligado ao lugar de origem. Mesmo agora, que vocês estão de volta ao território, há parentes, objetos, histórias espalhados pelo mundo. E talvez as retomadas também sejam isso.”

Essa percepção modificou também sua maneira de compreender a pesquisa. “Durante muito tempo falamos dos povos indígenas como colaboradores das nossas pesquisas. Mas, olhando para essa trajetória, eu acho interessante inverter essa perspectiva. Eles contribuíram enormemente para a nossa formação e, com o tempo, as perguntas passaram cada vez mais a vir deles: onde estão nossos documentos, nossos pertences, nossas fotografias? O que queremos registrar? O que queremos transmitir aos jovens? Como queremos contar nossa história?”

Para Denise, essa inversão tem consequências concretas sobre a maneira de trabalhar: “Não basta escutar e depois continuar fazendo exatamente aquilo que faríamos sozinhos. Colaborar significa também permitir que aquilo que escutamos modifique nossas escolhas. Nossas formações, nossos instrumentos e nossas instituições podem ser importantes, mas devem funcionar como ferramentas para apoiar processos cujos rumos não necessariamente são definidos por nós.”

E resume: “Nós entramos numa rede de relações que já existia antes de nós e que continuará existindo depois. Podemos contribuir muito, mas entrar nessa rede implica também saber que não somos nós que devemos comandá-la”.

Denise Fajardo falou sobre as redes de relações Katxuyana e Kahyana, que conectam pessoas, territórios, conhecimentos e patrimônios mesmo à distância  (Foto: Sofia Galvão – Iepé)

“Essa é uma história que está sendo construída há muitos anos, a muitas mãos e que nascem, sobretudo, de projetos dos próprios povos”, reforçou Luisa Girardi, antropóloga e consultora do Iepé. Ela participou de todo o processo de concepção e montagem da exposição que, segundo ela, foi conduzida pelos indígenas desde o início, como desdobramento de uma história muito mais longa e de outros projetos. 

Entre eles, uma iniciativa apoiada pelo Iphan para identificação e pesquisa do patrimônio imaterial relacionado às artes plumárias desses povos e outra, selecionada por meio da chamada do Ano Cultural Brasil/Reino Unido 2025-26, realizada em colaboração com o British Council, que proporcionou intercâmbios para reconectar os Katxuyana e Kahyana e instituições culturais no Brasil e no Reino Unido, onde estão guardados diversos de seus objetos.

Para a superintendente regional do Iphan Pará Cristina Vasconcelos, que prestigiou o evento, se hoje temos uma sociedade interligada é porque alguém chegou antes e escreveu a história. “Essas pessoas precisam ser relembradas. Estamos aqui para celebrar não só uma exposição, mas a história, aquilo que cada um representa, com saberes profundamente enraizados na floresta”, afirmou. Mariana Lacerda, diretora de patrimônio imaterial no Iphan, também presente em Belém, afirmou que informações de pesquisas como essa podem ajudar os povos indígenas a conquistar mais direitos. “O que mais me encanta nesse processo de aproximação é a potência do que vai ser construído em conjunto”, concluiu.

Museus, acervos e direito à memória  

O coordenador-executivo do Iepé, Luis Donisete Benzi Grupioni, que conduziu os debates, salientou a importância dessa iniciativa em termos de aprendizado cultural mútuo: “Iepé é um termo Karib para amigo, parceiro de troca. Ao longo de nossa existência como instituto, temos trocado muito com os povos desta região do norte do Pará. E aprendido com eles no desenvolvimento de vários projetos e iniciativas de valorização e fortalecimento cultural e linguístico, apoiando seus modos de vida e respeitando suas visões de mundo”. 

Em sua fala, Lúcia van Velthem, pesquisadora do Museu Goeldi desde 1975 e sócia-fundadora do Iepé, ressaltou que está em curso uma mudança entre as relações dos museus que abrigam coleções etnográficas e suas comunidades de origem. “Diferentes museus se empenham em ampliar a acessibilidade e protagonismo dos povos indígenas em relação às suas coleções, através da exposições organizadas em processos de curadoria participativa, como é o caso da presente exposição”, afirmou. 

Adriana Russi, pesquisadora e professora da UFF, lembrou o histórico de suas pesquisas sobre coleções etnográficas dos povos Katxuyana e Kahyana nos museus, responsável por identificar artefatos desses povos em diversos países, entre eles Dinamarca, Alemanha, Inglaterra e Noruega. “A dispersão dessas coleções etnográficas, deslocadas de seus contextos de origem, em diferentes períodos, e levadas para lugares distantes, alguns do outro lado do Atlântico, evidencia a fragmentação de um passado e o afastamento das pessoas em relação às suas coisas e suas memórias”, afirmou. “O direito à memória e o protagonismo indígena tem ativado essa vontade de se reconectar com parte da sua história e mobilizado, principalmente pesquisadores indígenas, a estudar, dialogar e enfrentar a complexidade que envolve a presença desses acervos nesses museus”, completou.

“O que está guardado é parte da nossa família, é parte de nós”, retomou Angela Kaxuyana, que concluiu o debate falando sobre o aprendizado coletivo. “São muitos aprendizados para nós que temos que nos moldar a seguir os padrões estabelecidos, mas muito mais pra vocês se adaptarem pras novas possibilidades trazidas por nós. Muitos de vocês não estão preparados para isso, mas é o momento”.  

“Nossas relações não começam e não terminam com vocês: são muito anteriores e ultrapassam o que vocês projetam. Os ancestrais de vocês arrancaram meus ancestrais do território e vocês têm esse dever de reparar, se sensibilizar e fazer uma nova história. Essa exposição é um pouco disso. Se permitam fazer parceria inversa: vocês com os povos indígenas. Só isso vai transformar de fato os espaços e reconhecer as existências de todos nós povos indígenas”, concluiu a liderança.

Lideranças indígenas visitaram pela primeira vez a exposição após sua abertura oficial, no dia 25 de agosto (Foto: Sofia Galvão – Iepé)

A cerimônia completa foi transmitida pelo Youtube e está disponível no link.

A exposição Katxar kum neero | Nossos lugares verdadeiros é realizada pela AIKATUK, em parceria com o Instituto Iepé, o Museu Paraense Emílio Goeldi e a UFF, no âmbito do Inventário Nacional de Referências Culturais das Artes do Txamatxama, apoiado pelo Iphan. Integra também o Ano Cultural Brasil-Reino Unido 2025–26, promovido pelo British Council. A exposição resulta ainda de processos mais amplos de retomada territorial e valorização dos patrimônios Katxuyana e Kahyana que contaram com apoio da Nia Tero e do Bezos Earth Fund.

SERVIÇO

Exposição Katxar kum neero | Nossos lugares verdadeiros

Visitação pública: de 26 de agosto de 2026 a 30 de abril de 2027 | quarta a domingo, das 9h às 16h

Local: Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi. Centro de Exposições Eduardo Galvão (mezanino). Avenida Magalhães Barata, 376 – São Brás. Belém (PA).

Acesso ao parque: R$ 3, com meia-entrada e gratuidades previstas em leis.

Fonte: https://institutoiepe.org.br/2026/09/katxar-kum-neero-exposicao-concebida-pelos-katxuyana-e-kahyana-reune-memorias-e-promove-reencontros-no-museu-goeldi-em-belem/