Alexis Grefa é dirigente de Assuntos Internacionais do povo Kichwa de Pastaza, no Equador – Diego Aguilar/Divulgação

  • Direitos da natureza, incidência internacional e autogovernança são modelos para proteção dos territórios
  • No Equador, TEDxAmazônia reúne lideranças em busca de soluções que ultrapassam fronteiras

Gabriela Caseff

Baños (Equador)

Contra todo o tipo de ameaça, indígenas empregam diferentes instrumentos de proteção em seus territórios. Articulação jurídica e incidência internacional são algumas delas. Mas também se valem de ativismo, equipes de vigilância, navegações em comboio e até de música.

É o que mostraram lideranças de diferentes povos no TEDxAmazônia, realizado no Equador na última semana.

“Durante muito tempo pensei que defender a amazônia significava somente resistir”, diz Alexis Grefa, dirigente de Assuntos Internacionais da etnia quíchua (kichwa) de Pastaza.

“Mas a amazônia não precisa de heróis. Precisamos negociar, criar propostas e ocupar cargos nas decisões sobre o futuro do planeta”, completa ele. O equatoriano integrou no ano passado uma flotilha até a COP30, em Belém (PA), com representantes de 60 organizações indígenas que exigiam transição energética justa.

Resistência é a maneira como Davixon Payaguaje aprendeu a proteger seu povo, hoje composto por 800 pessoas que vivem em Sucumbíos, região entre o Equador e a Colômbia.

“Nossa nacionalidade está em perigo de extinção”, diz o coordenador da Guarda Indígena Siekopai, que lidera patrulhamentos territoriais para identificar invasões, desmatamento e outras ameaças.

Antigamente, conta ele, seus antepassados protegiam a comunidade por meio da ingestão de yagé [ayahuasca], tradição ancestral que reafirma seu vínculo espiritual, cultural e histórico com a terra.

“Transformavam-se em onça, em jiboia ou qualquer espírito para cuidar do território. Infelizmente, isso se perdeu. Hoje protegemos fisicamente o território, fazendo monitoramentos e percorrendo-o com os guardas”, diz Davixon.

Homem indígena vestido com túnica amarela, colares coloridos e cocar com penas, fala em palco iluminado por luzes alaranjadas. Fundo de parede de pedra e plantas decorativas ao lado direito.
Davixon Payaguaje é coordenador da Guarda Indígena Siekopai e vive entre o Equador e a Colômbia – Diego Aguilar/Divulgação

Estratégia diferente adota Rukka Sombolinggi, secretária-geral da Aman (Aliança dos Povos Indígenas do Arquipélago da Indonésia). O país asiático concentra uma das maiores populações indígenas do mundo, estimada em pelo menos 50 milhões de pessoas —no Brasil, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), são 1,7 milhões.

A ativista argumenta que, apesar de a constituição indonésia reconhecer os povos tradicionais, faltam mecanismos legais e financiamento para proteger seus territórios.

“Estamos sempre lutando contra os mesmos inimigos, contra as mesmas empresas em diferentes lugares.”

As ameaças incluem mineração, desmatamento, grilagem de terras, avanço do agronegócio, extração ilegal de madeira, entre outras. Parte da resposta à crise climática, avalia Rukka, estaria na proteção desses povos, mas o financiamento para esse trabalho não chega na ponta.

“A maior parte do dinheiro fica nos escritórios que trabalham com povos indígenas. E, enquanto isso, nossos líderes são assassinados por proteger a natureza.”

No Equador, a proteção à natureza ganhou status de lei em 2008, com o reconhecimento dos direitos da natureza. Luta encabeçada por Patricia Gualinga, defensora histórica dos direitos humanos e da natureza diante do extrativismo petrolífero no território Sarayaku.

A líder do povo quíchua afirma que, para se fortalecerem, os povos precisam de governos territoriais indígenas, o que não significa “um Estado dentro de outro Estado”.

“É uma autogovernança para que possam reivindicar títulos de propriedade, exigir direitos, impedir a aplicação do marco temporal e exigir que a contaminação não fique impune”, diz Gualinga, que vê avanços na interlocução desses povos no Brasil.

“Há 20 anos, quando viajei ao Brasil e dizia que era indígena, pessoas me olhavam como se eu fosse estranha, um símbolo folclórico, porque não conheciam os povos da amazônia. Agora há ministros e parlamentares indígenas”, afirma ela.

Homem indígena com cocar colorido e microfone de cabeça participa de roda de conversa com outras pessoas, em ambiente interno com iluminação colorida.
O DJ brasileiro Eric Terena entre lideranças indígenas em sessão do TEDxAmazônia, no Equador – Diego Aguilar/Divulgação

O território Sarayaku foi inspiração para uma das músicas do DJ brasileiro Eric Terena, que fez uma apresentação no TEDxAmazônia.

“Toco essa música em vários países e as pessoas não entendem, mas repetem a letra, que fala dos petroleiros invadindo, da mineração chegando e que é preciso proteger o território. Esse é o modo da música curar”, diz ele.

E faz um contraponto com o som de máquinas mineradoras na floresta: “É um massacre acústico. Um som invasor que ensurdece e prejudica nossa relação com a natureza.”

Ao reunir lideranças indígenas, cientistas, empreendedores e artistas de diferentes países amazônicos, a proposta do TEDxAmazônia, organizado em parceria com o TEDxQuito, foi a de mostrar conexões entre os Andes e a Amazônia, com soluções para a defesa dos territórios.

“Indígenas são fundamentais para a biodiversidade global e estão na linha de frente sofrendo ameaças por defenderem a floresta”, diz Rodrigo V. Cunha, organizador licenciado do TEDxAmazônia. “E não basta falar de um só país quando o que está em risco é o futuro do clima no planeta.”

A repórter viajou ao Equador a convite do TEDxAmazônia.

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/folha-social-mais/2026/09/povos-indigenas-reforcam-defesa-da-amazonia-com-ativismo-vigilancia-e-ate-musica.shtml