Com a participação de cerca de 44 pessoas, o primeiro módulo promoveu um nivelamento de informações a partir do histórico e dos conhecimentos das lideranças mais experientes.

Realizado pelo Conselho Indígena de Roraima (CIR), em parceria com o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), o curso Formar Sustentabilidade ocorreu de 14 a 17 de setembro de 2026, na Comunidade Indígena Maturuca, Terra Indígena Raposa Serra do Sol. A iniciativa foi voltada à formação de lideranças, estudantes, produtores e produtoras indígenas sobre as economias indígenas e a sustentabilidade nos territórios.

O primeiro módulo da formação teve como tema “Modos de Vida e Economias dos Povos Indígenas de Roraima” e reuniu participantes de diferentes regiões, comunidades e terras indígenas do estado. A atividade contou com a participação do Instituto Insikiran de Formação Superior Indígena da UFRR e do Centro Indígena de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol (CIFCRSS), que integram o processo de construção pedagógica da formação.

Segundo Sineia do Vale, coordenadora do Departamento de Gestão Territorial, Ambiental e Mudanças Climáticas (DGTAMC) do CIR, o primeiro módulo tem como objetivo promover um nivelamento de informações a partir do histórico e dos conhecimentos das lideranças mais experientes.

“Nós estamos aqui no primeiro módulo do Formar Sustentabilidade. Estamos falando das economias indígenas. Esse é um trabalho que o Conselho Indígena de Roraima, em parceria com o IEB, vem pensando, estruturando e agora está se consolidando. Nesse primeiro módulo aqui, estamos nivelando informações sobre o Formar Sustentabilidade, sobre o conhecimento das lideranças mais experientes. Então, esse primeiro módulo traz todo esse histórico, que é para a gente nivelar essas informações e agora seguir nessa formação de um ano e oito meses. É importante dizer que são produtores de várias regiões, várias comunidades, várias terras indígenas, que estão nesse momento compondo esse grupo de 44 pessoas que vão estar fazendo esse trabalho em conjunto, porque nós precisamos dar um andamento na questão das economias indígenas”, disse Sineia do Vale.

Ao todo, cerca de 44 participantes integram a formação, que vai durar um ano e oito meses, reunindo alunos do Centro Indígena de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol, do Instituto Insikiran, produtores e produtoras indígenas e participantes vinculados aos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs), selecionados por meio de edital e que passam a desenvolver as atividades de forma coletiva ao longo do curso.

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Participantes em apresentação durante o Formar Sustentabilidade.

História, modos de vida e economias indígenas

Durante as atividades, os participantes também discutiram a trajetória das organizações e das comunidades indígenas de Roraima, relacionando acontecimentos históricos com as transformações nas formas de produção e de organização comunitária.

A liderança indígena Laudisa André destacou que a memória das comunidades também passa pelas formas de produção e pela organização diante das mudanças vividas no território.

“Eles eram bem tranquilos, felizes, tinham suas roças, tinham tudo. Eu me lembro que meu pai era um trabalhador, agricultor, que tinha arroz, feijão, milho, batata, macaxeira, mamão, cana, banana, tinha tudo na roça dele”, disse Laudisa.

Ao relembrar o processo de organização da comunidade, Laudisa também ressaltou a decisão tomada em 1977 de dizer “não à bebida alcoólica e sim ao trabalho”.

“Então, eles tomaram. Viram que estavam todos na escravidão, que estavam sofrendo, tomaram essa decisão. Tiveram reunião de um dia e tomaram essa decisão, dizendo: sim, o trabalho; não, a bebida alcoólica. Não à bebida alcoólica e sim ao trabalho”, disse Laudisa.

A liderança tradicional Clovis Ambrósio, da comunidade Malacacheta, região Serra da Lua, relembrou o processo de união entre diferentes povos indígenas de Roraima e a organização construída ao longo dessa trajetória.

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Participantes durante atividade em grupo.

“Quero só lembrar do que eu contei para vocês, que a nossa situação aqui em Roraima foi muito discutida entre nós, entre as populações diferentes, né? Por exemplo, eu sou Wapichana, eles aqui são Macuxi, aqui tem Taurepang, tem Ingaricó, tem Patamona, tem todo esse pessoal que está aí. Então, nós nos unimos por uma necessidade de fortalecer nossa caminhada mesmo. Isso foi lá no Surumu.”

Ao recordar sua participação no movimento indígena, Clovis contou que começou a atuar como tuxaua em 1974 e permaneceu participando das mobilizações ao longo dos anos.

“Então, em 74 eu comecei a participar como tuxaua. Eu fui eleito lá na comunidade como tuxaua, mas eu andava sem ser tuxaua mesmo. Aí eu fiquei na responsabilidade de estar lá na Serra da Lua e vim participar desse movimento. E quando eu entrei, nunca mais saí até agora.”

Histórico de como era antigamente

Os registros apresentados durante a formação retomaram momentos como a 1ª Assembleia Geral dos Tuxauas, realizada em 1971, em Surumu, e a criação de iniciativas relacionadas à produção e à organização dos povos. Entre os exemplos estão o Projeto de Gado, iniciado em 1980, a criação de escolas indígenas e experiências de formação de pessoas, além de acontecimentos relacionados à organização territorial e à saúde indígena.

As discussões também abordaram mudanças ocorridas nas economias comunitárias. Antigamente, a produção estava fortemente ligada às trocas, ao ajuri, à fartura compartilhada e à farinharada. Produtos como farinha, milho, mandioca e outros alimentos produzidos nas comunidades faziam parte dessas relações de troca. Com o passar do tempo, a produção passou também a ser comercializada nas próprias comunidades e regiões, enquanto aumentaram a presença de trabalhadores assalariados, aposentados e o uso de dinheiro, incluindo novas formas de pagamento, como o Pix.

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Participantes durante atividade em grupo.

Nesse contexto, os participantes refletiram sobre a relação entre a economia tradicional e a economia atual, observando mudanças na produção, no consumo e na circulação de mercadorias. Também foram discutidos os impactos da compra de alimentos industrializados e a necessidade de fortalecer a produção realizada nos próprios territórios.

Fortalecimento das economias indígenas

A formação parte das experiências de produção existentes nos territórios indígenas e buscou discutir formas de fortalecer essas atividades, considerando os mercados interno e externo.

Entre os produtos produzidos nas comunidades estão café, pimenta, farinha, carne, entre outros. Durante o processo formativo, foram discutidas questões relacionadas à chegada desses produtos aos mercados e aos processos de certificação.

Os conteúdos trabalhados destacam o potencial das economias indígenas por meio dos produtos regionais, feiras comunitárias, projetos, formação tradicional e formal e iniciativas desenvolvidas pelo CIFCRSS. A proposta é observar como essas experiências podem contribuir para a geração de renda e para a continuidade das práticas econômicas construídas nos territórios.

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Participantes em discussão durante atividae em grupo, no Formar Sustentabilidade.

Para Sineia do Vale, a proposta é construir esse conhecimento de forma conjunta, considerando as experiências dos próprios povos indígenas e as diferentes realidades existentes nos territórios.

Planos de Gestão Territorial e Ambiental

Outro eixo discutido durante a formação foi a experiência dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) e sua relação com as comunidades.

As atividades do Departamento de Gestão Territorial, Ambiental e Mudanças Climáticas destacaram experiências de elaboração dos primeiros planos, incluindo iniciativas registradas a partir de 2011, além de processos desenvolvidos em 2019, 2020 e 2023. Também foram apresentadas experiências de oficinas realizadas em diferentes regiões e as ferramentas produzidas para a articulação comunitária.

Os participantes conheceram ainda experiências de implementação dos planos, envolvendo governança, projetos, acesso à água, atuação junto aos órgãos públicos, colaboração entre comunidades e políticas públicas construídas a partir dos PGTAs.

A formação também apresentou os 27 PGTAs mencionados durante as atividades, relacionando esses instrumentos às estratégias de organização, gestão e planejamento dos territórios.

Adaptação às mudanças climáticas e mecanismos de perdas e danos

As discussões avançaram para os Planos de Adaptação Indígena, construídos a partir das realidades dos territórios. Entre os exemplos apresentados estão experiências desenvolvidas na Serra da Lua e na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, incluindo a região do Amajari.

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Momentos de debate e atividade durante a formação.

Os participantes também discutiram os impactos provocados pelas mudanças climáticas e os chamados mecanismos de perdas e danos, considerando situações de emergência climática e seus efeitos sobre as comunidades, a produção e o território.

O curso relaciona essas experiências à necessidade de planejamento realizado pelos próprios povos indígenas, levando em consideração as mudanças que ocorrem ao longo do tempo e as estratégias adotadas pelas comunidades.

Também foram compartilhadas experiências de políticas públicas já implementadas a partir dos PGTAs e iniciativas desenvolvidas em parceria com as comunidades.

O curso prevê ainda atividades práticas, nas quais os participantes deverão observar como as atividades econômicas acontecem ao longo do ano e como os ciclos de produção estão relacionados à realidade de cada comunidade.

Formação construída a partir dos territórios

O curso estabeleceu uma relação entre as economias indígenas, a gestão territorial e os desafios provocados pelas mudanças climáticas. O primeiro módulo coloca em evidência os 27 Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) mencionados na atividade, juntamente com os planos de adaptação indígena.

A discussão considera os efeitos das mudanças climáticas sobre a vida social e cultural das comunidades, as atividades econômicas e os territórios indígenas. Dessa forma, a sustentabilidade das economias indígenas é trabalhada em conjunto com as estratégias de gestão e adaptação desenvolvidas nos próprios territórios.

Além das atividades presenciais, os participantes terão períodos de tempo comunitário, quando irão desenvolver atividades diretamente nas comunidades. A proposta permite relacionar os conteúdos trabalhados durante a formação com as experiências e práticas existentes nos territórios.

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Momento de discussão durante a formação.

Calendários das economias indígenas

Como parte das atividades coletivas, os participantes também foram convidados a refletir sobre os calendários das economias indígenas, identificando quando e como diferentes atividades econômicas acontecem ao longo dos anos.

A proposta considera os ciclos de produção, as práticas comunitárias e as mudanças que interferem nessas atividades. O exercício busca relacionar os conhecimentos discutidos no curso com o cotidiano das comunidades e com as diferentes formas de organização econômica existentes nos territórios.

Troca de experiências entre povos e estados

Durante o primeiro módulo, o representante que atua junto aos povos indígenas do sul do Amazonas acompanhou a experiência desenvolvida em Roraima, buscando conhecer as metodologias utilizadas na formação e as possibilidades de aplicação em outros contextos.

A iniciativa reuniu, portanto, diferentes experiências relacionadas à produção, gestão territorial, sustentabilidade e conhecimentos indígenas. A formação contribui para o fortalecimento das economias indígenas a partir das realidades vivenciadas pelas comunidades.

O processo conta com a participação dos parceiros que integram o comitê pedagógico e colaboram com a formação, incluindo o Conselho Indígena de Roraima (CIR), o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), professores do Instituto Insikiran e o Centro Indígena de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol, espaço de formação dos povos indígenas no âmbito do Conselho Indígena de Roraima.

Fonte: https://cir.org.br/post/curso-formar-sustentabilidade-reune-povos-indigenas-de-diversas-regioes-de-roraima-para-fortalecer-economias-e-conhecimentos-nos-territorios