O povo Laklãnõ/Xokleng vive completamente negligenciado pelo Estado Catarinense. Foto: Lideranças indígenas. Foto: Povo Xokleng

Barragem Norte mantém aldeias Xokleng isoladas, com alagamentos, perdas na produção e riscos à saúde, educação e segurança das comunidades indígenas

Por Claudia Weinman – do A Fronte

22 de setembro de 2026. Esta é uma data de memória e resistência pelos 112 anos de contato forçado do povo Laklãnõ/Xokleng com integrantes do antigo Serviço de Proteção aos Índios (SPI). O que resultou de 1914 foi uma sucessão de violências e perseguições que perduram. Dias como o de hoje são marcados por ofensivas do Estado catarinense, que assiste aos alagamentos, ao cancelamento de aulas e a ônibus transportando crianças indígenas escorado à margem da estrada, entre barro e madeiras, diante de uma situação gravíssima, e não toma qualquer providência. Seguem matando o povo Laklãnõ/Xokleng pela falta de água potável, enquanto famílias indígenas ilhadas, sem poder trabalhar, sofrem com prejuízos permanentes. A resposta do Estado de Santa Catarina é um espelho histórico de genocídio por omissão diante de tais acontecimentos.

São nove aldeias atingidas pela Barragem Norte: Plipatol, Kóplág, Pavão, Sede, Palmeirinha, Figueira, Coqueiro, Toldo e Bugio. As oito primeiras estão localizadas às margens do Rio Hercílio e da Barragem Norte (lago). A Aldeia Bugio fica no alto da Serra, enquanto a Terra Indígena Ibirama Laklãnõ está localizada no interior de quatro municípios: José Boiteux, Vitor Meireles, Itaiópolis e Doutor Pedrinho.

A Barragem Norte está localizada no município de José Boiteux, em Santa Catarina. Sua construção foi concluída no ano de 1992, tendo início no contexto da Ditadura Militar. Passados 34 anos, segue trazendo riscos à vida dos indígenas que ocupavam, antes da construção, seu território sagrado às margens do rio Itajaí.

Segundo dados divulgados pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), essa é uma das três barragens que controlam o fluxo de água que entra no Rio Itajaí-Açu. “Sua capacidade é de aproximadamente 355.000.000 m³ (trezentos e cinquenta e cinco milhões de metros cúbicos de água), que alagam uma área de mais de mil hectares de terra. Praticamente 90% desta área de alagamento concentra-se na Terra Indígena Laklãnõ Xokleng, a qual afeta mais de 650 famílias, totalizando aproximadamente 3.000 pessoas”.

“Temos um Plano de Contingência que, infelizmente, não funciona como deveria funcionar. As aldeias do lado de cima da barragem estão isoladas, caiu a barreira no acesso alternativo e ele já está bloqueado”, diz Fabiana Xokleng

Todos os anos, quando chegam os meses de junho, julho, agosto e setembro, a vida dessas famílias indígenas se resume a desgraças e sofrimento. Em 2026, tudo isso está se repetindo, ainda mais intensificado com o super El Niño. “A situação da nossa água é essa (foto), precisamos consumir, pois não tem outra, é preciso usar o que tem para poder se manter”, conta Fabiana Patte dos Santos, cacica presidenta da Aldeia Plipatol, Terra Indígena Laklãnõ/Xokleng.

A comunidade está apreensiva, segundo Fabiana, pois os deslizamentos de terra são recorrentes, e os trabalhadores e trabalhadoras indígenas enfrentam riscos quando uma área alternativa de circulação é aberta para passagem. “Temos um Plano de Contingência que, infelizmente, não funciona como deveria funcionar. As aldeias do lado de cima da barragem estão isoladas, caiu a barreira no acesso alternativo e ele já está bloqueado. Caso precise de um atendimento de emergência na saúde, está tudo bloqueado. As aulas foram suspensas novamente, quem está sendo prejudicado são os alunos. Nosso questionamento é: de que forma o município e o Estado vão atender o nosso povo?”.

Acordos e violações

Desrespeito, transgressões, quebras de acordos e omissão formam uma extensa linha de sinônimos atribuídos ao Governo do Estado de Santa Catarina, por vezes à própria União e à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), que, ao longo da história da construção da Barragem Norte, descumpriram acordos estabelecidos com os indígenas, como o Plano de Contingência, que deveria garantir a segurança das comunidades que vivem no entorno da barragem.

Geomar Covi Crendô, que integra o Conselho Estadual dos Povos Indígenas de Santa Catarina (CEPIn/SC), traz como exemplo o acordo de negociação da Terra Indígena Laklãnõ/Xokleng, datado de outubro de 2015, no qual estavam reunidos representantes dos poderes públicos federal e estadual, além das lideranças indígenas da TI Laklãnõ. Naquele momento, Geomar salientou que foram determinados alguns pontos, entre eles: “Secretaria de Estado de Defesa Civil de Santa Catarina apresentará demanda ao Governo Federal para a realização de Estudo de Impacto Socioambiental da Barragem Norte, de forma a atualizar a matriz de impactos que o empreendimento tem sobre a TI Laklãnõ-Xokleng”.

A comunidade indígena dialogou sobre a necessidade de construção de moradias definitivas, e não apenas provisórias, além da realocação das famílias para áreas seguras

Nesse ponto, Geomar detalha que o estudo se encontra no gabinete do governador do Estado de Santa Catarina, Jorginho Mello, ainda para assinatura, e que ele não tem movido esforços para o encaminhamento da questão.

A construção de 17 casas para os casos emergenciais identificados também fazia parte do acordo. Segundo o texto: “essas casas serão no padrão já executado pela Secretaria, por meio de contrato de licitação já existente, até o final do ano de 2015, podendo ser ampliado de acordo com o levantamento da demanda vinculada às áreas de risco”.

Acordo de negociação não cumprido

Geomar disse que algumas casas foram feitas e que a comunidade indígena dialogou sobre a necessidade de construção de moradias definitivas, e não apenas provisórias, além da realocação das famílias para áreas seguras, o que, segundo ele, não aconteceu. “O estudo/levantamento sobre a demanda habitacional não aconteceu por parte do Estado e do Governo Federal em diálogo com a comunidade indígena. A manutenção das estradas também foi feita uma vez e, depois disso, como podem ver nas imagens, a situação só piorou com as cheias”, afirmou.

Repúdio da Amioeste

“Vão à merda” é a resposta do governador Jorginho Mello

Enquanto o povo Xokleng sofre as consequências do maior equipamento público de retenção de águas do Estado de Santa Catarina, a Barragem Norte, fazendo travessias sem equipamentos de segurança e permanecendo ilhado por mais de 40 dias, sem acesso à saúde, à educação e ao direito de ir e vir, o governador do Estado de Santa Catarina, Jorginho Mello, lava as mãos diante dos mais de 357 milhões de metros cúbicos da barragem.

Isso é a demonstração exata de que o genocídio vai além de um conceito de assassinato em massa, pois se caracteriza por promover, de forma intencional, a destruição lenta do povo Xokleng de Santa Catarina, quando o Estado usa seu aparato institucional para causar danos que colocam crianças, idosos e toda a população indígena no entorno da Barragem Norte em situação de extrema vulnerabilidade social, privando-a de qualquer direito à vida, à alimentação digna, à água potável e a uma infraestrutura segura para suas necessidades básicas. “Inclusive, no dia 8 de julho, o governador esteve aqui e, a partir da visita, não se manifestou mais, não chamou para conversar, nem mesmo a Defesa Civil”, disse Geomar.

Ele se refere especialmente à passagem de Jorginho Mello pela Terra Indígena Laklãnõ/Xokleng, na tarde de quarta-feira, 8 de julho de 2026, ocasião em que proferiu falas de cunho racista, machista e misógino. A situação foi registrada em imagens divulgadas em vários canais de comunicação do Estado, as quais mostram o governador ingressando no território indígena para gravar um vídeo sobre a barragem de contenção de cheias construída no interior da Terra Indígena, referente a um suposto plano de contingência, porém sem diálogo, sem ouvir a comunidade e sem o consentimento das lideranças, recusando-se a dialogar com os presentes. Ao ser questionado pelas mulheres Xokleng, respondeu com agressividade, chegando a mandar que elas fossem “à merda”, em uma atitude incompatível com a função pública que exerce e profundamente ofensiva à dignidade das mulheres indígenas.

“Nós ficamos preocupados com a violência que foi incitada contra a comunidade indígena. Porque, se o governador fez isso, os apoiadores dele vão se achar no direito de nos agredirem”, diz Xokleng

Sobre essa violência, a Articulação das Mulheres Indígenas do Oeste de Santa Catarina (AMIOESTE) se posicionou: “É inadmissível que uma mulher indígena, especialmente uma liderança tradicional cacica de seu povo, seja tratada com desrespeito por uma autoridade pública. Atitudes dessa natureza ferem não apenas a dignidade das mulheres indígenas, mas também desconsideram os direitos dos povos originários e o respeito que deve existir entre o poder público e as comunidades indígenas”.

“Nós ficamos preocupados com a violência que foi incitada contra a comunidade indígena. Porque, se o governador fez isso, os apoiadores dele vão se achar no direito de nos agredirem. A preocupação é que isso pode vir a gerar agressões físicas”, desabafou a liderança Fabiana.

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Regional Sul, também denunciou a situação ao Ministério Público Federal (MPF) e, em representação apresentada à Procuradoria-Geral da República (PGR), “o Cimi pede a instauração de Inquérito para a completa apuração dos fatos e tomada de medidas cabíveis, nos âmbitos criminal, cível e administrativo, incluindo uma retratação pública”, menciona a nota pública divulgada pelo Regional Sul.

Vista da Barragem Norte e o local onde estava instalada a antiga aldeia Xokleng, vítima do despejo dentro da própria Terra Indígena. Foto: Renato Santana/Cimi

O descaso dia a dia

Desde o início de setembro, as lideranças indígenas intensificaram a divulgação de diversas imagens sobre a situação vivenciada no entorno da Barragem Norte. Cleber Buzatto, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Regional Sul, está em diálogo constante com as lideranças e também fala a partir de uma cronologia do descaso, reforçando que a Terra Indígena Xokleng Ibirama-Laklãnõ está encravada em uma região de grandes montanhas e que a única área plana, antigamente usada para plantios, agora está debaixo d’água. “Além disso, a principal via de acesso à maioria das aldeias também está submersa, o que dificulta o deslocamento interno das famílias para seus afazeres, tais como trabalho, estudo e tratamento de saúde. Essa situação tem sido recorrente e interfere constantemente na vida de toda a comunidade indígena.”

Buzatto ainda menciona a necessidade urgente de finalização do processo que tem no centro do debate sobre o território Xokleng a tese genocida do Marco Temporal. “Mostra-se ainda mais urgente a retomada e a finalização do julgamento do Recurso Extraordinário 1.017.365, com Repercussão Geral (Tema 1031), no bojo do qual o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou a inconstitucionalidade do Marco Temporal, a fim de que o restante da terra tradicional seja, finalmente, devolvido aos Laklãnõ/Xokleng”.

Sem isso, os Xokleng de Santa Catarina vivem em situação de extrema vulnerabilidade, cenário que as lideranças classificam como pior que o enfrentado no passado. “A barragem cheia nos preocupa. Os alunos não vão para a aula. É um lugar perigoso, a velocidade da água é grande. Estamos pior do que no século passado, quando o governo mandava matar os indígenas. Agora ela mata deixando o povo debaixo d’água”, disse Brasílio Priprá, liderança Xokleng.

A confirmação dessa situação está na gravidade dos fatos apresentados pelas lideranças indígenas. Aqui descrevemos um recorte desse contexto:

Estudantes estão sem ir à escola porque os caminhos sofreram erosões ou foram inundados. Foto: Povo Xokleng

Cronologia

8 de setembro: Risco gravíssimo a que crianças Xokleng/Laklãnõ foram expostas na tarde de 8 de setembro de 2026, na Barragem Norte, em José Boiteux (SC). Depois de dez dias de alagamento, ao tentar fazer a travessia no bueirão, o ônibus escolar derrapou em meio ao barro e à madeira acumulada e ficou escorado na margem da estrada. Caso tivesse caído para o outro lado, teria ido para o fundo d’água com as crianças dentro.

9 de setembro: O povo Xokleng/Laklãnõ trabalhando duro para sustentar os benefícios da Barragem Norte aos cidadãos catarinenses que vivem às margens dos rios Hercílio e Itajaí-Açu.

11 de setembro: Continua crítica a situação enfrentada pelo povo Xokleng/Laklãnõ. Ônibus com trabalhadores Xokleng/Laklãnõ fica bloqueado por uma barreira em estrada vicinal próxima à Barragem Norte, em José Boiteux (SC), no dia 11 de setembro. Trabalhadores indígenas retornavam do frigorífico da região onde são empregados. A água represada na Barragem Norte já havia bloqueado a passagem na tarde do dia 10 de setembro, na estrada normalmente utilizada.

Ainda no dia 11 de setembro, o povo Xokleng/Laklãnõ segue ilhado. Com milhões de metros cúbicos de água acumulada na Barragem Norte e deslizamentos em estradas vicinais, o isolamento se agravou. A água da barragem já havia interrompido novamente a passagem de veículos e pedestres na quinta-feira, 10 de setembro. Nesta sexta-feira, deslizamentos bloquearam o caminho alternativo mais longo, pela estrada do Roncador.

13 de setembro: As águas da Barragem Norte seguem bloqueando o principal acesso às aldeias Xokleng/Laklãnõ, na Terra Indígena Ibirama, em José Boiteux. Milhões de metros cúbicos de água acumulada continuam beneficiando a população a jusante e provocando transtornos aos Xokleng.

14 de setembro: A ponte que dá acesso à Aldeia Toldo está a cerca de 15 metros debaixo d’água, na Terra Indígena Ibirama Laklãnõ, entre os municípios de Vitor Meireles e Itaiópolis (SC). Famílias Xokleng fazem a travessia sem equipamentos de segurança, em situação de grave risco. A aldeia está localizada a cerca de 30 km da taipa da Barragem Norte, o que demonstra a dimensão do alcance de seus impactos negativos sobre o povo Xokleng.

16 de setembro: O sol apareceu, mas a Barragem Norte continua bloqueando a passagem dos Xokleng/Laklãnõ. Benefícios contínuos para a população a jusante e danos permanentes aos Xokleng.

Toneladas de laranjas perdidas: o alto preço que os Xokleng pagam

Neste ano de 2026, as famílias indígenas perderam grande parte da produção de cítricos que cultivam na Aldeia Toldo, devido aos problemas logísticos decorrentes dos alagamentos da Barragem Norte e das estradas vicinais de acesso. Essa aldeia está localizada a aproximadamente 30 km da taipa da Barragem Norte, o que demonstra a dimensão do alcance de seus impactos negativos.

A liderança Iraci Nunc-nfôonro, da Aldeia Toldo, do povo Xokleng, questiona, profundamente indignada, as perdas que os indígenas estão tendo e quem irá assumir a responsabilidade pela produção de laranjas, por exemplo, sem ter como vender ou escoar.

“Aqui produzimos algumas coisas como citros, hortaliças, criamos alguns animais, e a gente fica sem escoar a nossa produção. Acabamos de perder muitas frutas por conta da estrada, que é precária, os caminhões não conseguem passar, não pode passar na ponte. Esse ano não vendemos nem a terceira parte da produção de laranja, temos um projeto com plantio de laranja, onde comercializamos de 15 a 18 toneladas por ano, e então perdemos muito”, explica Iraci.

O risco de morte do povo Xokleng está na conta dos órgãos públicos catarinenses

As lideranças indígenas cobram dos órgãos públicos um posicionamento urgente sobre o Plano de Contingência e as medidas relativas aos impactos socioambientais. Geomar Covi Crendô, que integra o CEPIn/SC, detalhou o OFÍCIO/CEPIn Nº 016/2026, do Conselho Estadual dos Povos Indígenas de Santa Catarina (CEPIn/SC), que questiona a situação vivenciada na Barragem Norte. O documento cita um pedido de atualização do Plano de Contingência, a participação da Terra Indígena Xokleng/Laklãnõ nesse processo e as demais medidas relacionadas aos impactos decorrentes da Barragem Norte sobre as comunidades indígenas.

Esse material inclusive cita que, “conforme registrado na Ata do Ministério Público Federal, durante a reunião realizada em 06 de outubro de 2025, foram deliberadas importantes providências relacionadas à Terra Indígena Xokleng/Laklãnõ”.

“O Estado envia um garrafão de água para cada família, mas como uma família vai sobreviver uma semana com aquele pouco de água potável para higiene e consumo?”, questiona liderança

Ao ser questionado sobre essas medidas, o Ministério Público Federal (MPF), por intermédio da Procuradoria da República em Caçador/SC, “manifestou-se pela ausência de pronunciamento sobre a temática”.

O mesmo silêncio se percebe quando o assunto é o estudo sobre os impactos socioambientais, que se encontra no gabinete do governador, bem como o processo de licenciamento ambiental da Barragem Norte e do canal extravasor, que ainda não foram concluídos e estão nas dependências do Governo do Estado de Santa Catarina, que, sem atender de maneira concreta aos pedidos de informações apresentados pela Funai, hesita em cumprir seu dever com relação a esse tema.

Alemães ao lado dos Xokleng durante processo de colonização e genocídio bugreiro. Foto: acervo Edmar Hoernan

O estrato social de Santa Catarina: quando os Laklãnõ/Xokleng são importantes?

“Quando o Estado precisa dos Laklãnõ/Xokleng para garantir seus mecanismos de interesse do Estado, aí eles existem para a sociedade”. Georgia Carneiro da Fontoura é assessora de projetos da FLD – Programa Comin (Conselho de Missão entre Povos Indígenas) Defesa de Direitos. Ela faz um recorte sobre a forma como o Estado invisibiliza os indígenas, especialmente quando o tema envolve os direitos dos Laklãnõ/Xokleng, mas, quando o Estado precisa de mão de obra para resolver os mecanismos da Barragem Norte, eles são “notados”. Estas são as relevâncias e “desimportâncias” de um estrato social de Santa Catarina.

São treze anos lado a lado dos Laklãnõ/Xokleng, na luta por direitos, pontua Georgia. “A situação se repete. Em 2014 aconteceu uma grande cheia, naquele momento a maior cota já atingida. Lá foi firmado o acordo de 2015 e as reivindicações são as mesmas de agora. O Estado está ciente de que essa comunidade vai sofrer, como já vem sofrendo, e que a situação vai piorar com as mudanças climáticas, porém, não existe proatividade para se criar uma solução efetiva”, detalha Georgia.

“Fico aqui me perguntando: até quando vamos sofrer sem ninguém olhar, fazer nada?”, indaga Iraci Nunc-nfôonro

Georgia faz questionamentos que denunciam a omissão do Estado de Santa Catarina diante da cruel e desumana realidade vivenciada pelos Laklãnõ/Xokleng. Para ela, “onde já se viu o diretor da escola e a própria comunidade terem que limpar o caminho onde passa um ônibus escolar, que está ali, entulhado no meio da lama, para conseguir garantir a segurança e entrada dessas crianças dentro da escola. Ou então, você precisa de um atendimento de saúde e começa a chover, você fica com medo, sem saber se vai conseguir sair dali. Se você está grávida, fica com medo de não conseguir atendimento adequado. Você fica isolado e não consegue ter acesso a cestas básicas e água potável por dias. Há constante falta de luz, e a água é barrenta e inadequada para consumo. O Estado envia um garrafão de água para cada família, mas como uma família vai sobreviver uma semana com aquele pouco de água potável para higiene e consumo?”.

O que Georgia chama a atenção é justamente para a compreensão da comunidade regional de que é diferente: os impactos da Barragem Norte para a comunidade indígena são, segundo ela, maiores do que para a outra parcela da sociedade, que não permanece ilhada por mais de quarenta dias. “É urgente a criação de uma solução para reduzir os conflitos, as tensões dessa realidade, pensar em um protocolo sério que garanta a dignidade desse povo. Existem mecanismos claros de que o Estado tem como garantir, em situações de emergência, o atendimento a essa comunidade e não deixá-los à mercê por tantos dias”, finalizou.

Na data de fechamento deste material, as águas da Barragem Norte ainda não tinham baixado; ao contrário. O relato das lideranças indígenas é de um “cheiro forte” na região. O desespero é gritante: “Hoje de manhã, os trabalhadores saíram. Tiveram que fazer manobras para pegar a canoa. Dá um medo tão grande quando vejo essa cena. Já perdemos tantos água abaixo, inclusive um irmão meu. Quem está à frente, pegando a canoa, é meu filho. Ali está minha gente, meu povo. Isso me deixa muito assustada. Fico aqui me perguntando: até quando vamos sofrer sem ninguém olhar, fazer nada?”, encerra Iraci Nunc-nfôonro, da Aldeia Toldo, do povo Xokleng.

Fonte: https://cimi.org.br/2026/09/barragem-norte-xokleng/