Os debates ocorreram na manhã desta terça-feira (22), durante a XI Assembleia Estadual da Juventude Indígena, com a participação do Conselho Indígena de Roraima (CIR), representado pela Tuxaua Geral do Movimento de Mulheres Indígenas do CIR, Kelliane Wapichana; do Fundo Indígena RUTÎ; da Organização Internacional do Trabalho (OIT); da Central Única dos Trabalhadores (CUT); de produtores e artesãos indígenas.
A convidada Isabel Wapichana, de 75 anos, moradora da Comunidade Indígena Alto Arraia, região Itacutu, é artesã e liderança tradicional. Emocionada, ela compartilhou com a juventude um pouco de sua experiência de vida e dos trabalhos que produz, enfatizando a importância da demarcação do território para manter viva a tradição e, principalmente, para o fortalecimento da economia indígena.
“Eu faço meus trabalhos desde criança. Faço cestos, rede de algodão, brincos de sementes, mas, para continuar com essa produção, precisamos do território demarcado e protegido. É da natureza que tiramos as matérias-primas para fazer a nossa arte. E destaco que nós, povos indígenas, não somos preguiçosos. Trabalhamos e cuidamos da terra, e vocês, jovens, é que ficarão aqui cuidando desse lugar quando eu não estiver mais aqui”, disse, emocionada.
Jarison Macuxi, ceramista da região Raposa, trouxe para reflexão a importância de fortalecer as economias indígenas, como a produção de panelas de barro e o etnoturismo, além dos projetos voltados à juventude. Jarison recordou o artista indígena Jaider Esbell, que foi pioneiro na divulgação da arte indígena por meio de pinturas em tela mundo afora.
“Temos que valorizar a nossa cultura, dança e canto, porque tudo isso ajuda a nossa economia indígena, gera renda e atrai turismo, sem perder a nossa essência e a nossa originalidade. Cito como exemplo a panela de barro, que é um conhecimento milenar que precisa ser valorizado por vocês, jovens. A Comunidade Indígena Raposa I foi a primeira do Norte a ter um plano de visitação, e isso mostra que podemos gerar renda através da nossa cultura”, disse Jarison.
O Conselho Indígena de Roraima (CIR), por meio dos departamentos, tem apoiado projetos em diversas áreas, fortalecendo a autonomia das comunidades. Na ocasião, a Tuxaua Geral do Movimento de Mulheres Indígenas do CIR, Kelliane Wapichana, apresentou os projetos da juventude apoiados pelo Departamento de Mulheres, com a ajuda de parceiros, entre eles a instalação de placas solares e de um sistema de irrigação na roça estadual da juventude, na região Raposa.
“As demandas chegam ao CIR e nós apoiamos com base no que vocês nos enviam no documento e nas áreas que vocês querem fortalecer. O projeto da juventude na região Raposa, por exemplo, foi uma demanda do Departamento da Juventude, que nos procurou, e nós apoiamos. Mas, além disso, levamos formação sobre os direitos das mulheres, os tipos de violência e, principalmente, o empoderamento feminino”, expressou Kelliane.
Raoní Beltrão, encarregado do Escritório de Projetos da OIT para a Amazônia, da Organização Internacional do Trabalho, participou da plenária, levando aos jovens informações sobre artigos da Convenção 169 da OIT e frisando que o conhecimento sobre os direitos indígenas é fundamental na luta pela garantia desses direitos.

“Para entender melhor um pouco do que eu trouxe, quero que vocês leiam o artigo 6º da Convenção 169 da OIT, para saber mais sobre os direitos de vocês. Lá estão reconhecidos os direitos conquistados pelos guerreiros que vieram antes de nós. É preciso que vocês, jovens, leiam e entendam, porque ela não vem de fora para dentro, e sim foi norteada por grandes lideranças. Se vocês acham que o facão e o revólver são fortes, o papel e a caneta são as ferramentas mais fortes que existem. Por isso, reforço: conheçam e dominem os seus direitos”, destacou Raoní.
Qual o plano institucional para a defesa e proteção dos jovens indígenas nos territórios?
Na segunda mesa, os representantes do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da Associação dos Povos Indígenas da Terra São Marcos (APITSM) e do Conselho Indígena de Roraima (CIR) responderam à juventude ao questionamento: “Qual o plano institucional para a defesa e proteção dos jovens indígenas nos territórios?”.
Ícaro Lavoisier, especialista em assuntos indígenas da UNICEF, apresentou as ações desenvolvidas pela instituição por meio dos departamentos, incluindo a pauta da saúde mental, o acesso à água, entre outras. Ícaro explicou ainda os próximos passos da UNICEF voltados aos jovens.
“Vamos trabalhar com vocês a empregabilidade, por meio do projeto Um Milhão de Oportunidades. Na oficina, quero apresentar essa plataforma para vocês, que é gratuita, e vocês vão me dizer se os cursos e as oportunidades ofertadas estão dentro da realidade de vocês.”
Participando pela primeira vez da Assembleia Estadual da Juventude, Israel Santana, coordenador do Núcleo da Juventude da APITSM, destacou que a organização abrange três regiões, Alto, Médio e Baixo São Marcos, e tem buscado parcerias com outras instituições e organizações para atuar com a juventude indígena, principalmente na área da saúde mental.
“Essa é a primeira vez que participo da Assembleia Estadual, mas temos sempre acompanhado a luta da juventude indígena do CIR e estamos buscando mais parcerias para fortalecer cada vez mais a juventude. É muito importante cuidar de nós mesmos, cuidar do nosso próximo para cuidar daquilo que é nosso. Temos nos preparado para atuar junto com a juventude. Conseguimos uma parceria com a psicóloga Léia Fontoso para falar sobre saúde mental, fomos aprovados pelo Fundo Podaali e temos outros projetos para que os jovens tenham oportunidade de fazer intercâmbio entre as regiões, porque a realidade é diferente de um lugar para o outro”, pontuou o coordenador.
“Responder a essa pergunta se resume em um plano que se resume a uma frase: ‘Nada sobre nós sem nós’. O plano precisa vir de dentro para fora. Nós apresentamos esse plano na Assembleia dos Povos Indígenas, em Maturuca, e estamos aqui para ouvir a base do CIR e consultar sobre as necessidades de vocês. Essa prática é transversal e é por isso que a OIT apoia o processo de escuta, que vai além do apoio prestado, mas também envolve o conhecimento que levamos daqui”, disse Raoní.
Paulo Ricardo destacou o apoio dos parceiros que, juntos, construíram com responsabilidade o fortalecimento da luta indígena, assim como das demais organizações e lideranças presentes. Ele ressaltou as decisões e os encaminhamentos importantes que sairão da Assembleia da Juventude, pensando no presente e no futuro da juventude indígena.
“Quero dizer que a nossa organização tem um protagonismo muito importante e nós, enquanto juventude, temos um papel muito importante em seguir esse legado. Como parte da coordenação executiva do CIR, temos uma responsabilidade muito grande de fortalecer a juventude e nós fazemos aqui presentes. Porém, ainda estamos muito longe de atender aos anseios da juventude, porque, se não priorizarmos, não temos como alcançar essa meta. Eu me comprometo, enquanto coordenação jovem, a apoiar a juventude”, destacou o vice-tuxaua geral do CIR, Paulo Ricardo.
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