Participação na Conferência, realizada na Armênia, destacou experiências de conservação ambiental e proteção territorial, o papel das organizações indígenas e quilombolas e a importância do financiamento direto para os povos e comunidades tradicionais que protegem a biodiversidade.
Entre os dias 19 e 23 de outubro de 2026, o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) participou da 17ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP 17), realizada em Yerevan, na Armênia. A delegação reuniu integrantes da equipe do IEB, lideranças indígenas e quilombolas e um representante do Ministério dos Povos Indígenas (MPI).
Integraram a delegação Fablina da Silva Nascimento (Fablina Tremembé), vice-presidente do Conselho Indígena de Itapipoca (CITI); Leosmar Antônio Terena, fundador e atual assessor do Coletivo Indígena Ambiental de Ação pela Natureza, Agroecologia e Sustentabilidade (CAIANÁS); e Carlos Pereira, liderança da comunidade quilombola Kalunga e presidente da Associação Quilombola Kalunga (AQK). Também participaram Marcela Menezes e Ney Maciel, do Programa Povos Indígenas, e Bianca Lima, do Programa Povos do Cerrado do IEB. Emerson Rubens Almeida, da Secretaria Nacional de Gestão Territorial Indígena do Ministério dos Povos Indígenas, também acompanhou todas as atividades.
Ao longo de cinco dias, o coletivo acompanhou as negociações internacionais, participou de espaços de articulação dos povos indígenas e das comunidades locais e promoveu eventos paralelos sobre conservação da biodiversidade, gestão territorial e ambiental, financiamento direto e experiências de povos e comunidades tradicionais. A participação contribuiu para ampliar a visibilidade das iniciativas desenvolvidas nos territórios e reforçou a importância de assegurar que as vozes de quem conserva a biodiversidade sejam parte influente das decisões deliberadas nesses importantes fóruns de negociação e decisão.
Primeiro dia: acompanhamento das primeiras plenárias
No dia 19/10, acompanhamos a plenária geral da COP 17 e as discussões iniciais na Zona Azul, espaço oficial das negociações da conferência. Entre os temas observados, destacou-se a discussão sobre o SB8J, órgão subsidiário permanente da Convenção sobre Diversidade Biológica dedicado às questões relacionadas aos conhecimentos, às inovações e às práticas dos povos indígenas e das comunidades locais, aos seus direitos à participação equitativa nos benefícios, bem como aos desafios de sua implementação na Convenção.
Acompanhar essas discussões permitiu uma maior compreensão dos avanços e dos desafios relacionados ao reconhecimento dos conhecimentos tradicionais e da contribuição dos povos indígenas e das comunidades locais para o cumprimento das metas globais de biodiversidade. Também reforçou a importância do conhecimento dos processos multilaterais pelas lideranças indígenas e quilombolas, no sentido de conectar as experiências e demandas locais aos compromissos internacionais de conservação.
Segundo dia: intercâmbio de experiências e protagonismo territorial
No segundo dia, 20/10, acompanhamos a reunião do Caucus Indígena e Comunidades Locais, importante espaço de articulação e diálogo relacionado à participação dos povos indígenas e tradicionais de várias partes do mundo na agenda global da biodiversidade.
Na tarde desse mesmo dia, o IEB, o Coletivo Caianás, o CITI e a AQK realizaram conjuntamente um evento paralelo (side event) no pavilhão ‘Nature Positive’, na Zona Azul, promovendo a troca de experiências entre povos indígenas e quilombolas sobre suas estratégias e soluções para a conservação da biodiversidade em três biomas brasileiros: Cerrado, Pantanal e Caatinga.
O encontro destacou experiências de gestão ambiental e territorial construídas nos territórios, demonstrando como os modos de vida e as práticas tradicionais contribuem para a manutenção da sociobiodiversidade. As apresentações evidenciaram que os povos indígenas e quilombolas não são apenas beneficiários de políticas de conservação, mas protagonistas na construção e implementação de soluções que protegem os territórios e seus ecossistemas.
O evento reafirmou a importância de garantir espaços institucionais para que as vozes desses povos sejam escutadas nas esferas públicas internacionais de decisão e suas contribuições sejam aproveitadas. Os compromissos globais de conservação ambiental só se manifestarão em resultados concretos se os direitos desses povos forem respeitados, seus conhecimentos legitimados e suas organizações apoiadas.
Terceiro dia: financiamento direto e fortalecimento dos fundos indígenas
A manhã do terceiro dia, 21/10, foi dedicada ao pavilhão do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), especialmente aos painéis dedicados aos desafios do financiamento direto para os povos indígenas e as comunidades locais. As discussões evidenciaram a necessidade de superar barreiras institucionais, administrativas e operacionais que dificultam o acesso dessas populações aos recursos destinados à conservação da biodiversidade.
Embora os povos indígenas e as comunidades locais estejam desempenhando um papel fundamental na conservação da biodiversidade e na proteção dos ecossistemas, existem desafios importantes para que os recursos financeiros consigam chegar diretamente às suas organizações, respeitando suas formas próprias de organização, suas prioridades e sua autonomia.
Nesse terceiro dia, a delegação também acompanhou um evento promovido por organizações indígenas da América Latina, entre elas a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), no qual foram apresentadas as experiências dos fundos indígenas e a importância de fortalecer essas iniciativas e os mecanismos de apoio direto aos povos indígenas.
Entre as iniciativas brasileiras apresentadas, destacaram-se o Fundo Podáali, da COIAB, uma referência na mobilização e no direcionamento de recursos para os povos indígenas da Amazônia Brasileira, e também as experiências do Fundo Jaguatá, da APIB, e do Fundo Maracá, da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME).
Todas essas iniciativas demonstraram o potencial dos fundos indígenas para fortalecer organizações, apoiar projetos territoriais e ampliar a autonomia dos povos na gestão de recursos. Seus resultados apontam caminhos para que doadores e parceiros possam estabelecer mecanismos de financiamento que reconheçam as capacidades de execução financeira das organizações, como forma de garantir que os recursos destinados à biodiversidade cheguem a quem efetivamente atua em sua conservação.
Ywy Ipuranguete: experiências indígenas de conservação no Pantanal e na Caatinga
Na tarde do terceiro dia, o IEB realizou, em parceria com o Ministério dos Povos Indígenas, um evento paralelo na Zona Azul, dedicado ao projeto Ywy Ipuranguete – Conservação da Biodiversidade em Terras Indígenas.
O evento apresentou experiências de implementação de ações de conservação e proteção ambiental em diferentes biomas brasileiros, evidenciando como as iniciativas conduzidas por organizações indígenas, fundamentadas em conhecimentos tradicionais e articuladas às políticas públicas de conservação, contribuem para a proteção da biodiversidade.
O Ywy Ipuranguete – Conservação da Biodiversidade em Terras Indígenas é uma iniciativa do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), executada pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), com apoio da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI) e implementação da Agência GEF FUNBIO. O projeto conta com financiamento do Fundo do Marco Global para a Biodiversidade (GBFF), mecanismo vinculado ao Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), e tem como objetivo fortalecer a conservação da biodiversidade em terras indígenas, valorizando o protagonismo dos povos indígenas na gestão territorial e ambiental.
Leosmar Terena apresentou a experiência da CAIANÁS na implementação do projeto em quatro terras indígenas no Mato Grosso do Sul. Sua contribuição destacou a importância do protagonismo das organizações indígenas na construção de soluções contextualizadas às realidades territoriais, articulando conhecimentos tradicionais, sustentabilidade e conservação, bem como na execução administrativa e financeira dos recursos.
Fablina Tremembé compartilhou a experiência do Conselho Indígena de Itapipoca (CITI) na Terra Indígena Tremembé da Barra do Mundaú, no Ceará. Sua apresentação evidenciou a contribuição do povo Tremembé para a conservação da biodiversidade na Caatinga, ressaltando as relações entre território, cultura, modos de vida e proteção dos ecossistemas, especialmente o papel das mulheres indígenas na conservação e na manutenção dos ambientes em seus territórios.
As experiências do Pantanal e da Caatinga apresentadas expressaram a conexão entre as diversas formas de conservação da biodiversidade e as realidades socioculturais dos territórios, reforçando a importância de garantir apoio contínuo às organizações indígenas de base para que elas possam desenvolver e ampliar suas iniciativas, tendo suas próprias organizações socioculturais como princípio.
Conservar a biodiversidade exige reconhecer que os povos indígenas tenham seus direitos respeitados, especialmente o direito de viver em territórios protegidos e demarcados e de ter suas organizações reconhecidas e fortalecidas, asseguradas as condições para que seus conhecimentos e práticas continuem contribuindo para a proteção da natureza.
Quarto dia: experiências de conservação e valorização dos protocolos bioculturais
No quarto dia, 22/10, visitamos a Zona Verde, espaço aberto ao público que reuniu organizações, iniciativas e experiências relacionadas à biodiversidade. A visita permitiu conhecer ações desenvolvidas na Armênia, incluindo experiências de produção de alimentos e iniciativas de reflorestamento.
O contato com essas experiências ampliou as possibilidades de intercâmbio e reflexão sobre diferentes formas de produção, conservação e uso sustentável da biodiversidade, aproximando realidades locais distintas em torno de desafios comuns.
Quinto dia: vozes dos territórios e imprensa
No quinto e último dia de participação, 23/10, integramos uma atividade de briefing com a imprensa. Leosmar Terena, Fablina Tremembé e Carlos Pereira compartilharam suas histórias e experiências a partir de seus territórios com jornalistas parceiras do GEF, responsável pela produção de conteúdos destinados à imprensa internacional.
A atividade possibilitou dar visibilidade às experiências locais e aproximar os debates globais das histórias concretas de quem atua na proteção da biodiversidade. Ao colocar as próprias lideranças no centro das narrativas, o encontro contribuiu para valorizar suas trajetórias, seus conhecimentos e as soluções construídas coletivamente.
A divulgação internacional dessas experiências é importante para ampliar o reconhecimento do papel dos povos indígenas e quilombolas na conservação da biodiversidade mundial e para demonstrar que as respostas aos desafios socioambientais também são construídas nas comunidades, por meio de iniciativas que articulam organização social, conhecimento tradicional e defesa territorial.
A conservação da biodiversidade se faz coletivamente
A participação do IEB e de seus parceiros indígenas e quilombolas na COP 17 reafirmou a importância de ampliar a presença e o protagonismo dos povos indígenas, quilombolas e comunidades locais nos espaços internacionais de decisão. Sua contribuição é fundamental para a conservação da biodiversidade e para a construção de políticas públicas que reconheçam direitos territoriais, valorizem conhecimentos tradicionais e apoiem iniciativas conduzidas pelas próprias comunidades.
Ao longo da conferência, os debates sobre os fundos indígenas, o financiamento direto, os protocolos bioculturais e as experiências territoriais de gestão territorial e ambiental evidenciaram diferentes dimensões de um mesmo desafio: transformar o reconhecimento internacional da contribuição desses povos em condições concretas para que continuem protegendo seus territórios e modos de vida.
As experiências compartilhadas demonstraram que é possível articular conhecimentos tradicionais, financiamento direto e conservação, fortalecendo organizações indígenas e quilombolas e ampliando as condições para uma gestão territorial e ambiental efetiva. Iniciativas como o projeto Ywy Ipuranguete mostram a importância de contar com mecanismos capazes de apoiar as prioridades definidas pelos próprios povos e fortalecer sua autonomia em direção a esse objetivo.
Em um contexto de crescente mobilização internacional por recursos para a biodiversidade, garantir que o financiamento chegue a quem conserva é uma questão crucial. Isso exige mecanismos acessíveis, assessoria e fortalecimento institucional das organizações locais, respeito à autonomia dos povos e reconhecimento de suas formas próprias de organização e governança.
A participação da delegação do IEB e de seus parceiros na COP 17 também sinalizou que os compromissos internacionais precisam estar conectados às políticas públicas nacionais e às iniciativas desenvolvidas nos territórios. O diálogo entre organizações indígenas e quilombolas, instituições governamentais, mecanismos de financiamento e organizações parceiras da sociedade civil é fundamental para ampliar o alcance dessas experiências e construir respostas duradouras aos desafios da conservação.
Para o IEB, a COP 17 foi um espaço de articulação, aprendizagem e visibilidade, reafirmando a importância de apoiar organizações e lideranças que constroem soluções a partir de seus territórios.
Proteger a biodiversidade é reconhecer direitos, fortalecer os povos e garantir apoio às experiências que tornam a conservação possível.
Gente, caminho para a sustentabilidade!
Comentários