Primeira edição da formação de Promotoras Legais Populares Indígenas, realizada em 2021 📷 Paulo Dessano

Realizada pelo Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro e ISA, ação fortalece redes de cuidado e acolhimento construídas por mulheres indígenas

Vanessa Fernandes – Jornalista do ISA

Uma rede de cuidado entre mulheres indígenas, construída a partir dos saberes tradicionais, do conhecimento sobre direitos e da articulação comunitária, é a base da formação de Promotoras Legais Populares Indígenas do Rio Negro, realizada em São Gabriel da Cachoeira, no extremo noroeste do Amazonas. A iniciativa é finalista do prêmio “Antes que Aconteça”, do Ministério da Justiça e Segurança Pública e concorre na categoria “Justiça perto de quem precisa”, que busca reconhecer e apoiar projetos que descentralizam e aproximam o acesso ao sistema de Justiça para mulheres e meninas, especialmente aquelas em situação de vulnerabilidade ou isolamento. A cerimônia de premiação está prevista para 04 de novembro, em Brasília (DF).

Desenvolvida pelo Instituto Socioambiental (ISA) e Departamento de Mulheres Indígenas da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Dmirn/Foirn), em parceria com a Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP) e com o Observatório da Violência de Gênero no Amazonas (OVGAM/Ufam), a iniciativa é uma adaptação da experiência das Promotoras Legais Populares, projeto criado no Brasil na década de 1990 para enfrentar as dificuldades de acesso à Justiça, especialmente em situações de violência de gênero. No Rio Negro, a formação foi construída a partir das demandas das próprias mulheres indígenas da região.

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Ao longo de suas três edições, a formação buscou preparar mulheres indígenas para atuar como referências em suas comunidades, oferecendo escuta, orientação e apoio a outras mulheres no reconhecimento de situações de violência e na busca por seus direitos. 

A proposta parte de uma compreensão fundamental: o enfrentamento à violência precisa considerar as realidades dos territórios indígenas, valorizar seus conhecimentos e fortalecer as redes de proteção que as próprias mulheres constroem em suas famílias, comunidades e organizações.

Mapeamento de serviços públicos de atenção e cuidado em São Gabriel da Cachoeira, realizado pelas participantes durante a formação
Formação buscou preparar mulheres indígenas para atuar como referências em suas comunidades 📷 Vanessa Fernandes/ISA
Mapeamento de serviços públicos de atenção e cuidado em São Gabriel da Cachoeira, realizado pelas participantes durante a formação
Mapeamento de serviços públicos de atenção e cuidado em São Gabriel da Cachoeira realizado durante a formação 📷 Vanessa Fernandes/ISA

A formação também aproxima as participantes dos serviços públicos de atendimento e proteção disponíveis no município, como unidades de saúde, Centros de Atenção Psicossocial (Caps), delegacias e órgãos de assistência social. O objetivo é ampliar o conhecimento sobre os direitos das mulheres, os mecanismos legais de proteção e os caminhos para acessar a Justiça, articulando os conhecimentos tradicionais às ferramentas jurídicas e aos serviços oferecidos pelo Estado.

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Programa nacional de prevenção à violência

O prêmio “Antes que Aconteça” está vinculado ao programa nacional de mesmo nome, resultado da atuação conjunta da Bancada Feminina do Congresso Nacional, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, dos conselhos nacionais de Justiça e do Ministério Público, e busca reconhecer e impulsionar ações que ampliem o acesso das mulheres à Justiça e contribuam para a prevenção e o enfrentamento da violência de gênero no Brasil.

Em dezembro de 2024, o Ministério da Justiça e Segurança Pública firmou um termo de execução descentralizada no valor de R$ 27,08 milhões para implementar o programa nacional, com vigência até julho de 2027. O instrumento, relevante diante da dimensão da violência de gênero no país, prevê, entre outras ações, a formação de uma rede de mulheres formadas em direitos por meio do curso Defensoras Populares.

Turma de Promotoras Legais Populares Indígenas de 2024
Turma de Promotoras Legais Populares Indígenas de 2024 📷 Vanessa Fernandes/ISA

Segundo o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (Raseam) 2026, elaborado pelo Ministério das Mulheres a partir de dados da segurança pública, o Brasil registrou 1.548 feminicídios em 2025, uma média de mais de quatro mortes por dia. Foi o maior número da série histórica desde a tipificação do crime, em 2015.

Política Pública para mulheres entre cortes e retomada

O financiamento das políticas públicas para as mulheres é um desafio persistente no Brasil. De acordo com nota técnica do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), que analisou as políticas de enfrentamento à violência contra as mulheres no período de 2019 a 2022, durante o governo Bolsonaro a execução orçamentária das ações oscilou entre a baixa alocação e a baixa execução de recursos.

Em valores corrigidos pela inflação, os gastos com enfrentamento à violência, promoção da igualdade e autonomia das mulheres somaram R$ 56,6 milhões em 2019 e caíram para R$ 38,2 milhões em 2020, uma queda de 33% no ano mais grave da pandemia, quando o ministério utilizou apenas 29% dos recursos autorizados. 

Em 2022, a execução voltou a R$ 56,7 milhões, mas o orçamento autorizado encolheu de R$ 64,1 milhões para R$ 43,8 milhões em relação a 2021. Para 2023, a proposta enviada pelo governo previa apenas R$ 13 milhões para essas ações.

No governo Lula, o Ministério das Mulheres, recriado em 2023, passou a contar, a partir do Plano Plurianual (PPA) 2024–2027, com três programas próprios, voltados à participação das mulheres nos espaços de decisão, à autonomia econômica e ao enfrentamento à violência.

Segundo o Inesc, em 2024, primeiro ano de execução desses programas, apenas 14,29% do orçamento autorizado havia sido efetivamente pago. Em 2025, a execução avançou para R$ 172,38 milhões, o equivalente a cerca de 75% dos R$ 229,51 milhões autorizados. Para 2026, o orçamento autorizado para os três programas chegou a R$ 303,82 milhões, um crescimento de aproximadamente 32% em relação ao ano anterior.

Referências

https://www.gov.br/mulheres/pt-br/central-de-conteudos/publicacoes-1/raseam-2026-relatorio-anual-socioeconomico-da-mulher.pdf

https://inesc.org.br/wp-content/uploads/2026/02/bgu-2024-web.pdf

https://inesc.org.br/wp-content/uploads/2026/04/orcamento_e_direitos-balanco2025-vdigital.pdf

https://inesc.org.br/wp-content/uploads/2024/05/balanco-do-orcamento-da-uniao-2023.pdf

https://inesc.org.br/wp-content/uploads/2023/03/nt-orcamento-de-politicas-para-mulheres-v2_0703.pdf 

Fonte: https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/iniciativa-de-formacao-de-promotoras-legais-populares-indigenas-do-rio