Uma das salas da exposição “Pandemia nas Roças” (Foto: Moisés Sedo)

Mostra reúne memórias, saberes tradicionais e estratégias dos povos indígenas do Oiapoque diante da crise que atingiu as roças de mandioca

Texto: Marcelo Domingues

No extremo norte do Amapá, a mandioca está presente na alimentação, na geração de renda, nas relações de parentesco, nos mutirões, nas festas e nos conhecimentos transmitidos entre gerações. É a partir dessa relação que o Museu Kuahí dos Povos Indígenas do Oiapoque apresenta a exposição “Pandemia das Roças: conhecimentos, vivências e práticas indígenas associadas ao cultivo da mandioca”, que está aberta ao público até o dia 20 de setembro. A entrada é gratuita. 

Idealizada pela Associação das Mulheres Indígenas em Mutirão (AMIM), a exposição reúne conhecimentos e experiências dos povos Galibi-Marworno, Galibi Kali’na, Karipuna e Palikur-Arukwayene diante da crise provocada pela praga que atingiu as plantações de mandioca a partir de 2022. A mostra também destaca as estratégias construídas pelas comunidades para preservar variedades de maniva, recuperar as roças e fortalecer os conhecimentos tradicionais.

Lançada em julho de 2025, durante a reinauguração do Museu Kuahí, a mostra já recebeu mais de 2 mil visitantes, consolidando-se como uma importante iniciativa de valorização e difusão dos conhecimentos e das práticas tradicionais dos povos indígenas do Oiapoque. Após o encerramento da temporada no Museu Kuahí, a exposição deve ir para outros espaços e instituições no Brasil. A iniciativa busca ampliar o alcance da mostra e possibilitar que mais públicos conheçam as experiências, os conhecimentos e as estratégias desenvolvidas pelos povos indígenas do Oiapoque em torno do cultivo da mandioca e da proteção das roças. 

A iniciativa foi desenvolvida no âmbito do projeto “Conhecimentos, Autonomia e Enfrentamento às Mudanças Climáticas entre as Mulheres Indígenas do Oiapoque”, aprovado pelo Projeto Floresta+ Amazônia, parceria entre o Ministério do Meio Ambiente, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e o Fundo Verde para o Clima. A exposição contou com o apoio do Instituto Iepé, Museu Kuahí e Secretaria de Cultura do Estado do Amapá (SECULT).

Uma exposição construída a partir das vozes das comunidades

A exposição nasceu de um amplo processo de pesquisa e escuta realizado nas aldeias. Em 2024, a AMIM promoveu oficinas nas aldeias Ariramba, Kunanã, Kumarumã, Kumenê, Estrela e Espírito Santo, reunindo mais de 500 participantes, principalmente mulheres de diferentes gerações.

As oficinas possibilitaram levantar informações sobre os sistemas agrícolas tradicionais, as variedades de manivas cultivadas no passado e no presente, as formas de manejo, os mutirões, as mudanças ambientais e os impactos provocados pela praga.

Esse processo também orientou a construção da narrativa da exposição. Em fevereiro de 2025, uma oficina de elaboração expográfica reuniu integrantes da AMIM, servidores do Museu Kuahí, artistas, lideranças indígenas e parceiros para definir os conteúdos, os objetos, as fotografias, os vídeos, os áudios e as formas de apresentação ao público.

A proposta resultou em uma exposição que combina acervo museológico, memória oral, pesquisa, fotografia, desenho e audiovisual, valorizando as diferentes formas indígenas de produzir e transmitir conhecimento.

Participantes da oficina de elaboração da exposição “Pandemia das Roças”, equipe do Museu Kuahí, AMIM e Instituto Iepé (Foto: Diogo Macial)

Antes e depois da praga

O percurso da mostra é organizado a partir de uma ideia central: o antes e o depois da chegada da praga às roças.

Na primeira parte, o visitante encontra informações sobre a importância da roça, os mutirões, a diversidade das plantas cultivadas e a variedade das manivas. Objetos do acervo do Museu Kuahí, como cestarias, tipitis, peneiras, cuias, remos, raladores e instrumentos utilizados nas casas de farinha, ajudam a apresentar as diferentes etapas do trabalho e as relações sociais construídas em torno da agricultura.

A mandioca aparece como elemento estruturante da vida comunitária.

“A roça é uma grande rede de relações: reúne conhecimentos, plantas, pessoas e territórios. Cada maniva tem seu nome e cada planta tem seu lugar e papel”, afirma a narrativa construída para a exposição.

Essa diversidade também pode ser observada no levantamento apresentado pelo museu. Se em 2011 a quantidade de variedades de maniva chegava a 182, a pesquisa realizada em 2024, com participação das mulheres indígenas e dos Agentes Ambientais Indígenas (Agamin), sistematizou 76 variedades entre os diferentes povos e regiões do Oiapoque.

Os nomes das manivas revelam parte das redes de circulação e das relações entre as comunidades. Algumas variedades recebem nomes associados ao lugar de origem, à pessoa que as entregou, às características da planta ou a outros seres.

Painel sobre a exuberante diversidade das manivas do Oiapoque. Essa exuberância era maior antes da praga (Foto: Moisés Sedo)

A crise que atingiu as roças

A dimensão da perda ocasionada pela praga da mandioca levou muitas comunidades a chamar o período de “pandemia das roças”, estabelecendo uma relação com a crise provocada pela Covid-19.

Os efeitos ultrapassaram a produção agrícola. A redução das roças afetou a alimentação das famílias, a geração de renda e uma série de atividades comunitárias relacionadas ao cultivo e ao processamento da mandioca.

Em 2024, após mais de dois anos de pesquisas, a Embrapa identificou o fungo Ceratobasidium theobromae como agente causador da doença conhecida como vassoura-de-bruxa da mandioca. Em janeiro de 2025, o Ministério da Agricultura e Pecuária declarou estado de emergência fitossanitária nos estados do Amapá e do Pará.

Para as comunidades, entretanto, a crise não pode ser compreendida somente a partir da dimensão fitossanitária. Ela também envolve transformações ambientais, sociais e culturais.

Um depoimento registrado durante as oficinas na Aldeia Kumenê sintetiza a dimensão dessa perda:

“A mandioca é saúde, é alimentação para a família, para toda a comunidade. Ela também era a fonte do nosso dinheiro. Nós estávamos ricos naquela época, não faltava nada em casa para nossos filhos. Hoje falta. Hoje estamos dependendo dos brancos. Estamos passando fome e não sabemos o que vamos fazer, pois a gente planta e depois olha e já está tudo seco.”

Na Aldeia Espírito Santo, outro relato registra o impacto emocional provocado pela perda de uma roça:

“Ela ficou muito triste porque é dessas roças que a gente tira nosso sustento, a nossa farinha. Hoje a gente está comprando farinha na cidade. É uma pena. A gente faz o maior esforço para plantar uma roça, para chegar lá e ser afetada pela praga. É uma tristeza imensa pra gente.”

Os relatos apresentados na exposição mostram que a crise das roças significou também a interrupção de práticas coletivas, como os mutirões, as trocas de manivas e os processos de transmissão de conhecimentos.

https://www.youtube.com/embed/d2UAIY4waZ0?feature=oembedRaimunda Ioiô documenta os impactos da praga nas roças do povo Palikur-Arukwayene, destacando a perda de variedades de manivas da aldeia Kumenê e mostrando o uso das práticas tradicionais, como a defumação para o combate à praga.

Antes da crise, os mutirões reuniam famílias e comunidades em torno do trabalho na roça. As atividades eram distribuídas entre diferentes gerações e o trabalho agrícola acontecia junto com histórias, cantos, alimentação e outras formas de convivência.

A exposição destaca que os mutirões também eram importantes para a circulação das variedades de maniva.

Uma participante da oficina realizada na Aldeia Estrela explica:

“Antigamente, o trabalho na roça era muito coletivo, tudo acontecia nos mutirões. A gente não plantava sozinha; toda a comunidade se reunia para ajudar.”

O relato também descreve como as manivas circulavam entre famílias e comunidades, permitindo a preservação de variedades:

“Assim acontecia a troca de manivas, de sementes de mandioca. E assim, de troca em troca, as manivas iam se espalhando e sendo preservadas.”

Para a exposição, essa memória é importante porque demonstra que a diversidade agrícola não depende apenas da existência de diferentes plantas, mas também das relações sociais que permitem que elas circulem.

Mulheres como guardiãs dos conhecimentos

A participação das mulheres é um dos eixos centrais da mostra.

Nas oficinas realizadas pela AMIM, mulheres de diferentes gerações compartilharam conhecimentos sobre o plantio, o manejo, as variedades de maniva e as transformações observadas nas roças. A pesquisa também evidencia o papel das mulheres na circulação das variedades entre famílias e comunidades.

A exposição mostra que esse conhecimento acumulado se tornou ainda mais importante diante da crise.

“O papel das mulheres é fundamental nesse processo. Elas são as principais responsáveis por coordenar as trocas e garantir que as variedades circulem entre as comunidades”, destaca um dos textos da exposição.

Ao colocar essas experiências no espaço museológico, a mostra reconhece as mulheres como protagonistas na conservação da diversidade agrícola e na construção de respostas para a crise.

Outro núcleo da exposição apresenta o trabalho dos Agentes Ambientais Indígenas (Agamin), que desde 2019 pesquisam as transformações ambientais percebidas pelas comunidades.

Com o avanço da praga, os Agamin passaram a concentrar parte de suas ações nos sistemas agrícolas tradicionais. Um diagnóstico realizado a partir de amostras das próprias roças indicou a perda de aproximadamente 57% das variedades de mandioca.

Ao mesmo tempo, algumas variedades apresentaram maior resistência ou resistência parcial à doença. Entre elas estão as manivas Tere tere e Xingu, além de outras variedades identificadas em diferentes regiões.

Os Agamin passaram a atuar na conservação dessas variedades, promovendo sua circulação entre comunidades que haviam perdido parte de seus plantios.

Manoel Severino dos Santos, Agente Ambiental Indígena da Aldeia Kumarumã, explica uma das formas tradicionais de experimentação:

“A mandioca da pedra não serve para mandioca, mas serve para fazer muda. A gente usa para fazer uma pesquisa para ver se vai dar mandioca boa.”

O trabalho dos Agamin também combina conhecimentos tradicionais e novas estratégias de manejo, incluindo a diversificação das espécies cultivadas, defumações, práticas de cuidado dos antigos, uso de caldas fertiprotetoras, plantas de adubação verde e retirada das partes doentes das plantas.

Exposição “Pandemia das Roças” (Foto: Moisés Sedo)

A exposição estabelece ainda uma relação entre a crise agrícola e as transformações percebidas no clima.

Um dos relatos coletados na Aldeia Ariramba chama atenção para a perda da previsibilidade dos ciclos de chuva:

“Antigamente tinha o tempo certo da chuva. A gente tinha nosso próprio calendário, sabendo a hora de queimar, plantar, capinar. Hoje sabemos que houve essas mudanças climáticas. Antes o clima era previsível e era possível se planejar.”

Para os povos indígenas do Oiapoque, as mudanças no regime de chuvas afetam não apenas as roças, mas também a pesca, a caça, a coleta e outros aspectos da vida comunitária.

A exposição apresenta, assim, os conhecimentos indígenas como parte fundamental da compreensão das transformações ambientais e das estratégias de adaptação.

Comunicação indígena ocupa espaço no museu

Outro destaque é a presença da Rede Arawa de Comunicadores Indígenas do Oiapoque, coletivo formado por jovens dos quatro povos da região.

Desde 2021, a Rede Arawa produz conteúdos audiovisuais relacionados à cultura, território, preservação ambiental e circulação de informações nas comunidades. Durante a pandemia de Covid-19, o grupo ganhou destaque com o podcast Maiuhi-Mayuka.

Na exposição, a comunicação indígena ganha um espaço próprio. Fotografias registram a formação dos jovens comunicadores e uma sala audiovisual apresenta o curta-documentário “Praga das Roças”, produzido pela Rede Arawa a partir de relatos dos quatro povos.

A presença dos jovens comunicadores do Oiapoque reforça uma das principais características da mostra: os indígenas não aparecem como objeto da exposição, mas como pesquisadores, produtores de conhecimento, comunicadores e autores de suas próprias narrativas.

A parte final da exposição apresenta experiências de recuperação das roças e de fortalecimento das comunidades.

Entre elas está a experiência da Aldeia Açaizal, que realizou o plantio coletivo de uma roça comunitária com manivas recebidas de fora da comunidade. Também são apresentadas as ações dos Agamin para preservar variedades locais e ampliar a diversidade dos cultivos.

A exposição destaca a retomada de práticas como a defumação, o Turé, os cantos e os mutirões, além do fortalecimento do artesanato e de outras alternativas de geração de renda.

Na Aldeia Kumarumã, um depoimento expressa, ao mesmo tempo, a dimensão da perda e a disposição para continuar:

“Era muito bonita a roça de antes. Hoje em dia as roças são uma tristeza só, com essas coisas que estão acontecendo. Mas não podemos desanimar, Deus está olhando.”

https://www.youtube.com/embed/psoFlkMnqv0?feature=oembedCompartilhando a dor e a saudade de sua antiga roça de mandioca, destruída pela praga que atingiu a região, dona Dalila, do povo Karipuna, moradora da aldeia Curipi, na Terra Indígena Uaçá, fala da quebra de um modo de vida: a roça como fonte de alimentação, sustento, transmissão de conhecimentos e práticas culturais.

Museu como espaço de memória e futuro

Ao reunir objetos do acervo, pesquisas comunitárias, registros audiovisuais e depoimentos, “Pandemia das Roças” amplia a função do museu como espaço de preservação da memória. A mostra também transforma o Museu Kuahí em lugar de debate sobre questões contemporâneas que afetam diretamente os povos indígenas.

As manivas que resistiram à praga, os saberes preservados pelas mulheres, a atuação dos Agamin, a comunicação produzida pelos jovens e a mobilização das organizações indígenas apontam para diferentes caminhos de recuperação.

“Pandemia das Roças” é, portanto, uma exposição sobre perda, mas também sobre memória, presente e futuro. Uma narrativa construída a partir das próprias vozes dos povos indígenas do Oiapoque e de seus esforços para manter vivos os conhecimentos que sustentam seus territórios e modos de vida.

https://www.youtube.com/embed/0cRld3lNz0I?feature=oembedO curta documentário produzido pela Rede Arawa sobre a praga que afetou as roças indígenas em Oiapoque apresenta relatos dos quatro povos do Oiapoque.

Serviço

Exposição: Pandemia das Roças: conhecimentos, vivências e práticas indígenas associadas ao cultivo da mandioca

Local: Museu Kuahí dos Povos Indígenas do Oiapoque – Oiapoque (AP)

Data: até 20 de setembro

Entrada: Gratuita

Realização: Associação das Mulheres Indígenas em Mutirão (AMIM)

Apoio: Instituto Iepé, Museu Kuahí e Secretaria de Cultura do Estado do Amapá (SECULT)

Fonte: https://institutoiepe.org.br/2026/08/pandemia-das-rocas-exposicao-entra-em-suas-ultimas-semanas-no-museu-kuahi/