O Conselho Indígena de Roraima (CIR), por meio do Departamento Jurídico, realizou durante os dias 30 e 31 de março de 2026, a 1ª Oficina de Cooperativismo e Associativismo com o tema, “Fortalecendo a sustentabilidade das comunidades indígenas”, no auditório Lindalva Macuxi, reunindo operadores e operadoras indígenas de direito e coordenadores regionais de diversas regiões do estado, como Serra da Lua, Amajari, Baixo Cotingo, Surumu, Murupu, Itacutu, Wai Wai, Raposa e Tabaio.
A oficina teve como objetivo principal promover o entendimento sobre cooperativismo e associativismo como ferramentas estratégicas para fortalecer a autonomia econômica das comunidades indígenas. A formação foi conduzida pela professora da Universidade Federal de Roraima (UFRR), Meire Joisy. E contou com o apoio da Ford Foundation e da Nia Tero, instituições que atuam no incentivo a projetos voltados à promoção de direitos e ao fortalecimento dos povos indígenas.

De acordo com o advogado Dr. Júnior Nicacio, do Departamento Jurídico do CIR, a iniciativa faz parte de um conjunto de ações planejadas para ampliar o conhecimento das lideranças indígenas sobre modelos de organização econômica.
“Essa primeira oficina tem um caráter mais conceitual. A ideia é apresentar o que é uma associação, o que é uma cooperativa e como funcionam esses modelos, inclusive na parte mais burocrática, que muitas vezes não é clara. A partir desse primeiro momento, vamos avançar para um segundo módulo, com foco no aperfeiçoamento e planejamento”, explicou.
Ele destacou ainda que os operadores indígenas de direito foram escolhidos como público inicial por atuarem como lideranças em suas comunidades. A proposta é que, posteriormente, o conhecimento seja levado também aos agricultores indígenas. “Queremos que as próprias comunidades decidam se o cooperativismo ou associativismo é o melhor caminho para fortalecer a economia local. Nosso papel é oferecer as ferramentas e o conhecimento”, completou.



Momentos de apresentação das atividades passada pela professora Meire. Fotos: ASCOM/CIR
A liderança indígena Francinete Macuxi, da comunidade Novo Paraíso, Região Surumu na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, destacou a importância da oficina.
“Foi muito interessante. Vamos levar muitas informações para nossas lideranças. Já recebemos várias formações, agora, é a primeira vez que participamos de uma oficina específica sobre cooperativismo, apesar de já vivermos isso nas comunidades, na troca e organização dos nossos produtos”, afirmou. Para ela, o aprendizado pode ajudar na organização formal das atividades econômicas. “Agora precisamos entender melhor como iniciar e como construir uma cooperativa de forma estruturada”, acrescentou.
Já o coordenador regional dos operadores de direito da região do Amajari, Raildo Sapará, ressaltou que a formação atende a uma demanda antiga das comunidades. “Temos produção na agricultura familiar e na pecuária, mas ainda não conseguimos comercializar como pessoa jurídica. Muitas vezes dependemos de atravessadores. Essa oficina nos ajuda a pensar caminhos para fortalecer nossa autonomia e gerar renda para as famílias”, disse.



Operadores e Operadoras indígenas de direito e coordenadores regionais de diversas regiões do estado participaram. Fotos: ASCOM/CIR
A professora e docente da Universidade Federal de Roraima (UFRR) Meire Joisy, do povo Wapichana, da comunidade indígena Malacacheta, que ministrou a oficina, explicou a proposta da oficina realizada ao longo de dois dias. Segundo ela, “o formato foi escolhido por priorizar a aprendizagem prática, especialmente adequada para o público adulto.”
Durante a atividade, os participantes iniciaram com uma apresentação sobre sua própria realidade, quem são, quais lideranças representam, em que regiões estão situados e quais são as principais produções desenvolvidas nas comunidades ao longo do ano. A partir disso, foi construído um inventário produtivo, dentro da metodologia do “aprender fazendo”.
Além de mapear a produção, a oficina também analisou o consumo interno das comunidades, identificando quais produtos são adquiridos localmente e como a renda circula nesses territórios. Esse levantamento permitiu avaliar se há excedentes produtivos, elemento fundamental para pensar estratégias de comercialização, como a criação de cooperativas.

A professora destacou, no entanto, que “nem todas as comunidades estão preparadas para esse modelo mais estruturado.” Por isso, segundo ela, “o processo deve ser gradual, começando por formas mais simples de organização, como grupos informais ou associações, até alcançar maior maturidade e escala produtiva.”
Para Meire, a temática trabalhada não é apenas pertinente, mas necessária. Ela reforçou que “muitas comunidades já possuem uma produção significativa e precisam de apoio para ampliar sua renda por meio da comercialização dos próprios produtos.”
Ao final da oficina, os participantes receberam certificados.
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