Mairu Hakumi, do povo Iny-Karajá, nos deixou cedo demais. Por onde passou, cultivou amizades e deixou memórias marcadas por sua alegria, generosidade e compromisso com seu povo. Tinha muitos sonhos e projetos, um deles era seguir a carreira diplomática. Em uma troca de mensagens, ao saber da possibilidade de cotas para indígenas no concurso do Itamaraty, escreveu-me: “Oi, profa, bom dia. Vem uma revolução, vamos tentar”.

Em Brasília, trabalhava e estudava, sempre atento ao seu povo, aos projetos de revitalização da língua e aos problemas decorrentes dos arrendamentos em terras indígenas. Conhecia profundamente as contradições presentes nesses processos.
Integrou a equipe do projeto Centro de Referência Virtual Indígena, desenvolvido junto ao IPR (Instituto de Políticas Relacionais), ao Armazém Memória e ao OBIND-UnB (Observatório dos Direitos e Políticas Indigenistas), com apoio da Embaixada da Noruega. Trabalhou ao lado de seus colegas sob a liderança de Marcelo Zelic e compôs a primeira equipe de autores indígenas dos livros publicados pelo projeto, que nos deixa pra leitura e como legado reflexões fundamentais para a continuidade da luta dos povos indígenas, textos como:

  • KARAJÁ, Mairu Hakuwi Kuady. A perspectiva integracionista e o avanço dos direitos constitucionais dos povos indígenas no Brasil. In: GENOCÍDIO indígena e políticas integracionistas: demarcando a escrita no campo da memória. Brasília, DF: Instituto de Políticas Relacionais (IPR); Armazém Memória; OBIND/UnB, 2021. cap. 1. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1NGFJWc9-5U8wpKqhiPhu0S37Y7n3h-qU/view. Acesso em: 15 jun. 2026.
  • ⁠* JÓFEJ KAINGÁNG, Lucia Fernanda; KARAJÁ, Mairu Hakuwi Kuady. Wasureny e o arrendamento: violação do usufruto exclusivo e desterritorialização. In: DEMARCAR é reparar: olhar indígena sobre a justiça de transição no Brasil. Brasília, DF: Instituto de Políticas Relacionais (IPR); Armazém Memória; OBIND/UnB, 2021. cap. 3. Disponível em: https://docs.google.com/document/d/1GAe2HG0TQ_HUnJvAH5J7_pIphdwS8iKXr2mmFgysNTM/edit?tab=t.0. Acesso em: 15 jun. 2026.

Tempos depois, Mairu esteve presencialmente no Relacionais para conversar sobre a importância de ampliar a presença indígena nos quadros das instituições, tecendo redes e fortalecendo o protagonismo dos povos indígenas. Depois, seguiu outros sonhos: levou os livros à ONU, realizou estágio de estudos em Paris, trabalhou na SESAI e atuou em tantas outras frentes. Hoje, ao pensar em sua despedida, gostaríamos de abraçá-lo e ver mais uma vez o seu sorriso. Neste momento, ele merece todos os cuidados de seu povo, de seus amigos, amigas e companheiros e companheiras de caminhada, bem como a certeza de que sua trajetória é merecedora de todo o nosso respeito, admiração e reconhecimento.

E afirmamos, enquanto seus parceiros e parceiras de trabalho e pesquisa, que seguiremos levando adiante seu desejo e seu sonho de encorajar mais jovens indígenas a viverem experiências de pesquisa, formação e publicação. Seguiremos na luta pela justiça e pela reparação integral aos povos indígenas, assim como era o seu sonho: ver os povos indígenas ocupando espaços de protagonismo, exercendo sua autonomia e assumindo papel central na participação efetiva nos espaços deliberativos e nas tomada de decisões nos mais diversos campos da sociedade.

Prof.ª Elaine Moreira
Braulina Baniwa
Daniela Greeb
Vanessa Labigalini
Silvana Cupaiolo
Veridiana Negrini
Ruth Negrini
Iury Tikuna
Danilo Tupinikim
Ayla Tapajos
Ayrumã Tuxá (Luiza Tuxá)
Rafaela Kambeba
Rafael Pacheco
Fêtxawewe Tapuya Guajajara
Manuele Tuyuka