Por Renato Antonio Gavazzi
Ao longo da história, os mapas foram instrumentos de poder político, religioso e social. A cartografia, enquanto forma de produzir e legitimar conhecimentos sobre o território, foi frequentemente utilizada como mecanismo de dominação — inclusive contra os povos indígenas.
No estado do Acre, na Amazônia ocidental brasileira, essa lógica começou a ser questionada a partir de 1983, quando a Comissão Pró-Indígenas do Acre (CPI-Acre) iniciou um projeto de formação de professores indígenas. Participaram dessa experiência os povos Huni Kuĩ, Yawanawa, Jaminawa, Katukina, Puyanawa, Shawãnawa, Shanedawa, Manxineru e Ashaninka. O objetivo era criar novas formas de expressão e fortalecer práticas de autonomia cultural, política e educacional.
Naquele contexto, muitos participantes ainda não dominavam a língua portuguesa. Também não tinham familiaridade com leitura, escrita ou matemática.A cartografia, portanto, não foi simplesmente ensinada como técnica, mas foi adaptada como uma forma de linguagem própria. A Cartografia Indígena passou a ser uma combinação entre conhecimentos tradicionais, símbolos próprios e expressão artística — um meio de comunicar as relações entre território, paisageme memória.
Durante esse processo, form elaboradas convenções cartográficas próprias. Formas, cores e escalas foram discutidas e acordadas coletivamente, resultando em legendas que expressam modos indígenas de ver e representar o espaço. Por exemplo, a água é frequentemente representada em amarelo, tonalidade que se aproxima mais das águas barrentas dos rios e igarapés amazônicos do que do azul usado nos mapas oficiais.
Hoje, no Acre, os mapas produzidos nesse contexto são ferramentas fundamentais para discutir, negociar e resolver conflitos territoriais. São compreendidos por todos, inclusive por aqueles que não dominam a escrita alfabética, poisusam sinais e símbolos visuais ligados às experiências locais. Além disso, desempenham papel central no planejamento, na conservação e no manejo sustentável dos recursos naturais nas terras indígenas.
Após mais de quatro décadas, a Cartografia Indígena consolidou-se como uma ferramenta política e pedagógica de grande relevância. Mais do que representar territórios, esses mapas afirmam direitos, fortalecem identidades e ajudam a construir estratégias coletivas para a gestão e proteção dos territórios indígenas no presente e no futuro.
O que os Agentes Agroflorestais (AAFIs) pensam sobre a cartografia indígena e os mapas
“O mapa é uma ferramenta, um instrumento das comunidades, das aldeias, das terras indígenas como um todo, então pra quem? Pra que? Pra que serve? O que o mapa mostra? O que o mapa conta? Qual o objetivo do mapa? O mapa é um desenho, um levantamento monitorando os tamanhos, a distância o entorno, o lugar que foram construído com a experiência, não é fazer qualquer mapa, o mapa da terra indígena, do entorno, o mapa das aldeias. Isso que queremos entender, como os AAFIs que vem trabalhando com a cartografia, com o mapa mental, a gente trás esse conhecimento, essa sabedoria pra monitorar e conhecer. Acho que o mapa é muito importante, você conhecer.
O mapa é um instrumento de trabalho do próprio pesquisador, pra conhecer como é a realidade, isso que aponta o objetivo do mapa. Qual o uso dos mapas? Só o mapa pendurado, colocado na lousa sem olhar e estudar, monitorar, acho que não dá. O mapa tem que andar, tem que estudar, as pessoas tem que entender. Então, pra fazer pra quem? Então as lideranças, os professores e os demais representantes, participantes, mulheres e alunos, daí que pode entender, são ferramentas importantes; conhecer como é a realidade, como produto, onde é o trabalho, a distância que indica, facilita também para nós entender como é a realidade. Para nossa terra indígena, pra nossa comunidade e pra nós ver e discutir com o entorno.
O mapa é muito importante para conhecer como é a realidade, conhecer o mundo, a terra indígena e o entorno, a população, daí que você conhece como é o levantamento da população, das famílias, das aldeias; mapeando o tamanho da terra indígena, qual o tamanho do entorno, onde tem a nossa caça, o nosso olho d’água. Então, tudo isso que o mapa tem como objetivo. Não pode ser de qualquer jeito. Tem que construir o mapa, tem que ter uma experiência com essa visão e entendimento. O mapa é uma aprendizagem de conhecer as demandas dos territórios, do lugar onde pode descobrir, entender e monitorar. O que eu aprendi o que conheço, estudei bastante, desenhei muito também e tirei minhas dúvidas. Mas não é qualquer tipo de mapa. O mapa é de cada tema e cada mapa tem objetivo, mostrando e representando a sua imagem, o seu desenho. Alguns já fizeram mapa, mas tem que conhecer a realidade, que entende, que fala, mostra e fazer os mapas acho que é aí que você começa entender e aprender.”
AAFIJosias Mana, TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão, 2014
“A importância para mim, eu como AAFI no meu trabalho, os mapas são registros; um documento que mostra ou indica todos os elementos que tem em volta das aldeias ou qualquer outro lugar do mundo. O mapa mostra o passado, futuro, presente. O mapa é um espaço de várias formas, também nunca foi somente um desenho, mas um conjunto de informações visuais. A cada dia, a cada hora que eu, AAFI, estou trabalhando na prática ou na escrita, para mim, o que eu achei é muito bom a importância do mapa, são os saberes que tem”.
AAFI Edivaldo Mateus Kaxinawá, 2014

“Um mapa para mim, como agente agroflorestal, é muito importante porque através do mapa que conheço a própria terra e tudo que tem dentro dela, como igarapé, lagos, limites, lugares. O mapa mostra tudo que tem; e o entorno da terra e também com o mapa discutimos ou planejamos a gestão e vigilância da terra com a comunidade, porque o mapa mostra onde está ocorrendo a invasão e também a importância pra todos os trabalhos do AAFI, por isso é de fundamental importância para todos nós”.
AAFI Valdeci da Silva Piyanko, TI Kampa do Rio Amônia, 2
“Aqui é o mapa da aldeia que eu fiz, que pertence a aldeia que foi trabalhada durante esses anos, Aldeia Vida Nova, que a gente fez o nome, alguns símbolos para fazer. Então através de mapas a gente localiza todas as coisas que tem na aldeia ou na terra indígena. O mapa que eu fiz mostra todas as casas mostrando escola, campo de futebol, poço artesiano…a aldeia tinha criação de animais coloquei, txaxuã, takará; aqui é a cacimba só que a gente não colocou o posto de saúde porque não tinha. Coloquei roçado, o SAF, as praias produtivas e uma colocação que tem caminho de varação, pique de caçada, os animais, porque a gente fala muito na conservação e preservação.
Então fiz o mapa de onde eu moro e tudo em volta e eu moro que eu fiz, esse tudo em volta é sistema agrofloresta, roçado de bananal, outro aqui também, aqui eu fiz mais assim lembrando qual tipo de espécie de animais, que planta, próprio com a natureza, esse mariá (cutia) pega coco e come, no canto e deixa lá, come só a massa e o coco fica lá, e germina, pensei assim e fiz, tucano do mesmo jeito, quando engole alguma semente vai voando, senta no canto e joga, e já vai plantar. Esse eu fiz, um soim (macaco) aqui da de ver, ficou meio escuro, mas na capa
do nosso plano de gestão dá de ver, porque é os macaquinhos que fica mais, quando a pessoa mora, quando a gente tem a plantação eles gostam de vir comer ingá, por exemplo, lá tinha muita, eu fiz esse exemplo. E no outro como esses animais aqui é mambira, irara. Então, fiz pra gente não mexer com esses animais que a gente não come.
Às vezes tem um cara que chega e mata a caça, isso não é bom pra gente fazer; para que os animais não fiquem em extinção… fiz a mata ciliar, só que não fiz a própria floresta mesmo, só com verde, pra que a gente quiser fazer algumas clareiras na beira do rio, ou na aldeia ou colocação, mas algumas que foi mostrando pra gente fazer a mata ciliar. Aqui a gente fez o homem e a mulher. O roçado de bananal, o céu, as nuvens… Pra gente aprender, a gente faz esse que chama mapa mental, a gente conhece e desenha… eu fiz desse tipo que vocês tão vendo, fui pensando na minha ideia na minha cabeça e fiz o mapa mental. ”
AAFI Aldemir Luiz Bina, TI Kaxinawá Ashaninka do Rio Breu, 2014
“Eu entendi do mapa mental que ao desenhar a aldeia, diagnosticamos tudo o que tem nela, como a privada, cacimba, barreiro, tudo que tiver na aldeia colocar no mapa mental. Então pra mim o mapa mental é a identificação dos espaços da aldeia. Mapeamento participativo eu entendi que são várias pessoas te ajudando a construir o mapa, tendo a participação de todos. Sobre a qualidade da água na minha aldeia, eu acho que pode melhorar, porque nem todos tem cacimba, seria importante ter cacimbas nas aldeias para poder ter água com qualidade, não temos condições de ter cacimba porque é muito caro. Se tivéssemos cacimba em nossas aldeias melhoraria a qualidade de vida da comunidade. E eu aprendi que tudo isso a gente identifica no mapa mental também.”
AAFI Jackson Sales Kaxinawá, TI Kaxinawá do Rio Jordão, 2018
“A cartografia é importante! O fato de registrar a história ela serve pra gente fazer uma avaliação do que está avançando dentro da nossa terra e do que não teve avanço, quais as percas e como a gente vai alinhar tudo isso, dentro da gestão territorial. A cartografia e o mapa, são ferramentas que nos auxiliam nessa gestão. Nós AAFIS temos o compromisso de passar essas informações para a juventude, professores, lideranças e demais, explicar da importância de reflorestar as nascentes das águas, porque somos nós que fazemos o monitoramento.
É importante essa cartografia social, lá na nossa comunidade já estamos precisando fazer uma revisão. Porque muita coisa já mudou, teremos que fazer um novo mapa, de coisas que avançou e quais as estratégias que arrumamos daquele tempo pra cá. A cartografia é uma ferramenta principal. É um instrumento participativo com várias pessoas dando ideias em como podemos melhorar nossa gestão territorial e ambiental. É nos mapas que podemos visualizar melhor nossa terra e assim poder organizar nosso plano de gestão.”
AAFI Osmildo Kuntanawa, Reserva Estrativista Alto Juruá, 2018
“A cartografia é uma ferramenta que elabora dados sobre fumaça e outros perigos no mundo e também visualizam o que existe no entorno da terra indígena. Os mapas ajudam os indígenas com mais facilidade para ver onde estão os sítios e vestígios arqueológicos existentes no Acre e nas TIs.”
AAFI Osmildo Silva Kuntanawa, Curso AAFIs 2019
“O mapa mental mostra nossa realidade, nosso dia a dia nas aldeias, nós que construímos da nossa própria mente. Aqui colocamos tudo que tem no nosso quintal e ao redor das aldeias. Nossa água pra beber, as privadas, o rio, igarapé, nossos açudes e lagos. A gente coloca também os animais que ainda tem, e as fruteiras que os meninos comem. O mapa mental, já diz, é da nossa mente, é o que os Huni Kuĩ veem quando está lá e mostra pra vocês nesse papel quando chega aqui na cidade.”
AAFI Antônio Carvalho Banê – TI Kaxinawá Nova Olinda, 2018
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