Metade dos indivíduos analisados apresentam nível alto de contaminação, que se dá por meio da ingestão de peixes contaminados pelo mercúrio dos garimpos ilegais

Texto: Comunicação Iepé

Amostras de cabelo dos indígenas foram coletadas para testar níveis de mercúrio (Foto: acervo Iepé)

O mercúrio proveniente de garimpos ilegais está contaminando povos indígenas do município de Oiapoque (AP). É o que revela um levantamento conduzido pelo Iepé, em parceria com o Distrito Sanitário Especial Indígena do Amapá e Norte do Pará (DSEI), que analisa os níveis de exposição ao mercúrio em amostras de cabelo de pacientes indígenas da região.

Atendendo à demanda das organizações indígenas do Oiapoque, o levantamento coletou 192 amostras, e o resultado das análises mostrou que metade dos indivíduos apresentou níveis de mercúrio iguais ou superiores a 6,0 mg/kg — índice considerado elevado pela Organização Mundial da Saúde. Valores acima desse patamar estão associados a um maior risco de desenvolvimento de problemas de saúde relacionados à contaminação por mercúrio.
Entre os problemas graves estão danos neurológicos e complicações na gestação no caso de mulheres grávidas. Outros sintomas de intoxicação incluem tremores, insônia, perda de memória, alterações neuromusculares, dores de cabeça e disfunções cognitivas e motoras.  

Segundo Mariana Maleronka Ferron, doutora em medicina preventiva e médica, os dados são alarmantes. “A contaminação ocorre principalmente pelo consumo de peixes, que são a base da dieta de muitos desses povos. Então, essas pessoas estão mais vulneráveis a essa contaminação. Todos os povos que vivem nessa região podem estar sujeitos a essa contaminação”, explica.

Nível de mercúrio tende a aumentar com a idade 

A análise dos dados revela que a exposição ao mercúrio tende a aumentar com a idade. A faixa etária entre 51 e 60 anos apresenta a maior proporção de indivíduos com níveis elevados de mercúrio (75%), enquanto a faixa de 10 a 20 anos registra a menor proporção, com apenas 7% dos indivíduos afetados. Isso se dá devido ao efeito cumulativo que a substância tem no corpo ao longo dos anos.

Faixa EtáriaTotal de coletas realizadasResultados ≥ 6,0mg/Kg%
10 – 20 anos1417%
21-30 anos462554%
31-40 anos552342%
41-50 anos432660%
51-60 anos241875%
≥ 61 anos10440%
Total1929750,5%

Em relação ao gênero, homens apresentam níveis elevados de mercúrio em 60,38% dos casos, em comparação com 38,37% entre as mulheres. Contudo, a situação das mulheres em idade fértil é de particular preocupação: 31,37% delas apresentam níveis de mercúrio superiores ao limite seguro, o que pode representar sérios riscos ao desenvolvimento fetal em caso de gravidez.

SexoTotal de coletas realizadasResultados ≥ 6,0mg/Kg%
Feminino863338%
Masculino1066460%

Os resultados do levantamento no Oiapoque foram apresentados às comunidades durante a Assembleia da Assembleia da Associação das Mulheres Indígenas em Mutirão (AMIM). A presidente da organização indígena, Janina Karipuna, demonstrou sua preocupação: “As consequências da contaminação pelo mercúrio atingem a todos, não só aqueles que estão no garimpo. Todos saímos prejudicados. Por isso é importante ainda fazer novos testes e ampliar a discussão sobre isso nas nossas terras”.

Ações de Saúde Pública

Os dados jogam luz sobre a necessidade urgente de ações de saúde pública para mitigar os efeitos da exposição ao mercúrio. O elevado nível de contaminação é uma ameaça à saúde dos indígenas do Oiapoque, especialmente entre os grupos mais vulneráveis, como idosos e mulheres em idade fértil.

A contaminação do mercúrio não atinge somente os indígenas, mas também todas as pessoas que consomem peixes carnívoros da bacia amazônica. Um estudo realizado em 2023 revelou que peixes comercializados em feiras e mercados na região norte estão contaminados por mercúrio. Já em 2020, outro estudo revelou que os peixes comercializados  nos centros urbanos da Amazônia também estão contaminados por mercúrio. Em 2021 um estudo revela altos níveis de contaminação por mercúrio em mulheres.

Para mais informações, acesse o relatório completo na Infoteca do site do Iepé.

Fonte: https://institutoiepe.org.br/2026/05/levantamento-revela-altos-niveis-de-contaminacao-por-mercurio-entre-indigenas-do-oiapoque/