Ocupação de indígenas venezuelanos da etnia warao, em Betim (MG), região metropolitana de Belo Horizonte – Célia Xakriabá no Instagram
- Ministério diz acompanhar caso e promover articulação por melhoria; prefeitura de Betim não respondeu
- Menina, filha de venezuelanos, é da etnia warao e tinha um 1 ano e 4 meses; outras crianças sofrem de insegurança alimentar na mesma comunidade
São Paulo
Uma bebê indígena de 1 ano e 4 meses morreu no último dia 28 após apresentar um quadro severo de desnutrição em Betim, na Grande Belo Horizonte. Ela chegou a ser internada por três dias no Centro Materno-infantil.
Filha de venezuelanos, a menina da etnia warao vivia em uma ocupação de refugiados, formada em 2023 . Cerca de 280 pessoas acampam no local, segundo o TJ-MG (Tribunal de Justiça de Minas Gerais).
Nesta segunda-feira (1º), a deputada Célia Xakriabá (Psol-MG) solicitou uma reunião com o prefeito de Betim, Heron Guimarães (União). Ela apresentou uma proposta de instalação de um comitê de crise humanitária.
A parlamentar disse em um vídeo que só foi atendida pelo gestor depois insistência em abordar a pauta da morte da criança. Procurada pela Folha por email, a prefeitura Betim não se manifestou sobre o ocorrido nem informou as medidas tomadas pelo município para conter a crise.
O comitê elaborado por Célia propõe o prazo de três meses de atuação e reúne a prefeitura, o Ministério de Ministério do Desenvolvimento Social, Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena) e a Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), além de lideranças warao.
“É um comitê intersetorial diante do Poder Municipal, diante também da escuta por consulta livre, prévia e informada nos territórios, o Poder de Justiça e também a instância federal, que é pensando em diálogo com os ministérios”, disse a deputada, em vídeo.
Na ocupação, outras crianças sofrem com insegurança alimentar e apresentam quadros de desnutrição considerados graves. Em julho de 2025, uma menina de 12 anos, grávida de oito meses, que também morava no local, morreu após parto de emergência no Centro Materno-infantil.
O desembargador Leopoldo Mameluque, coordenador-executivo da Comissão de Solução de Conflitos Fundiários do TJ-MG, disse que busca resolver, junto a órgãos estaduais e federais, a situação de vulnerabilidade da ocupação, que teve ordem de reintegração de posse suspensa.
“Lá é um local onde os povos indígenas requerem um acompanhamento especializado, a participação da Funai é obrigatória. A jurisdição é federal. Nós convidamos a comissão do TRF-6 [6º Tribunal Regional Federal] para atuar conjuntamente conosco”, afirmou.
O Ministério dos Povos Indígenas disse, em nota, que acompanha com preocupação a situação do povo warao, tendo como papel institucional promover articulações intersetoriais que possam colaborar para a melhoria das condições de vida e acolhimento dessas famílias.
Mameluque disse que, além de insegurança alimentar, principalmente em crianças, o acampamento formado por tendas de lona improvisadas sofre com falta de rede hidráulica e de esgoto. Segundo o magistrado, as famílias se recusam a mudar de local.
“Nós tentamos durante dois anos resolver o problema [fundiário]. Fizemos várias visitas ao local, visitamos vários possíveis locais para acomodar os indígenas do povo warao. Visitamos uma fazenda em Santa Luzia [MG], mas não deu certo”, acrescentou o desembargador.
A Funai afirmou que a saúde indígena integra o SUS (Sistema Único de Saúde) e “exige atuação articulada entre União, estados e municípios”. A entidade diz ainda integrar o Grupo de Trabalho Intersetorial de Saúde Indígena da Grande Belo Horizonte, com atividades previstas entre abril e dezembro de 2026.
“A Funai, no âmbito de suas competências institucionais, atua de forma articulada e complementar, especialmente na promoção e defesa dos direitos dos povos indígenas, no apoio à interlocução interinstitucional e no acompanhamento de situações que demandem articulação entre diferentes políticas públicas.”
O Ministério Público de Minas Gerais disse, por meio de nota, que se reuniu com a prefeitura de Betim, na segunda, para discutir a situação da comunidade indígena venezuelana. Na ocasião, foram debatidas as dificuldades de acesso aos serviços públicos de saúde e assistência social, especialmente em razão de barreiras culturais, resistência ao acompanhamento pelas equipes técnicas e outras vulnerabilidades que afetam, de modo particular, as crianças.
O Ministério de Justiça de Segurança Pública e o Governo do Estado não responderam ao contato da reportagem por email sobre suas atuações no caso.
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/06/bebe-indigena-de-ocupacao-de-refugiados-morre-por-desnutricao-em-minas-gerais.shtml
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