Participante do do II Encontro Indígena de Restauração Ecológica – II EIRE 📷 Lia Domingues/Rede de Sementes do Xingu

Reunindo 80 representantes de 38 povos de todos os biomas brasileiros, o encontro consolida uma agenda indígena para a restauração ecológica e amplia sua participação nos espaços de decisão do país

Danielle Celentano – Analista do ISA

Lia Domingues – Rede de Sementes do Xingu

O protagonismo indígena na restauração ecológica ganhou novos contornos durante o II Encontro Indígena de Restauração Ecológica (II EIRE), realizado nos dias 25 e 26 de julho, em Brasília.

Organizado em parceria com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), com apoio do Instituto Socioambiental (ISA), do Redário, da Rede de Sementes do Xingu e de diversos parceiros, o encontro reuniu cerca de 100 participantes, entre eles 80 representantes de 38 povos indígenas de todos os biomas brasileiros. 

A iniciativa respondeu diretamente a uma das principais reivindicações apresentadas no I EIRE, realizado em Juazeiro (BA), em 2024: ampliar a presença e a participação indígena nos espaços nacionais de debate e decisão sobre restauração. Nesse sentido, o II EIRE fortaleceu alianças, promoveu a troca de experiências e construiu estratégias para ampliar a participação dos povos indígenas em todas as etapas da restauração, da concepção dos projetos à gestão dos recursos, das políticas públicas aos espaços de governança.

Ao longo de dois dias, rituais, rodas de conversa, momentos culturais e cirandas de conhecimento reuniram experiências de diferentes territórios, evidenciando que, para os povos indígenas, restaurar vai muito além de recuperar áreas degradadas. Significa fortalecer territórios, revitalizar culturas, proteger a biodiversidade, assegurar a soberania alimentar e manter vivos os conhecimentos ancestrais sobre o cuidado com a terra. 

O encontro também aprofundou debates sobre políticas públicas, governança e a construção do Programa Indígena de Restauração Ecológica (PIRE), além da representação indígena em instâncias nacionais ligadas ao tema. 

Entre os participantes estavam representantes da Rede de Sementes do Xingu (RSX), no Mato Grosso; da Rede de Sementes da Bioeconomia da Amazônia (RESEBA), em Rondônia; e da Rede de Sementes Serra da Lua (RESSEL), em Roraima, todas articuladas ao Redário.

Ritual de abertura do II Encontro Indígena de Restauração Ecológica
Ritual de abertura do II Encontro Indígena de Restauração Ecológica 📷 Lia Domingues/Rede de Sementes do Xingu
Um caminho iniciado em 2024

O encontro deu continuidade ao processo iniciado no I Encontro Indígena de Restauração Ecológica (I EIRE), realizado durante a Conferência da Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE24), em Juazeiro (BA). Na ocasião, representantes de 41 povos elaboraram a Carta dos Povos Indígenas do I Encontro Indígena de Restauração Ecológica – Chamado para restaurar ecossistemas e cabeças com sabedoria ancestral indígena, afirmando que “não há restauração possível sem os povos indígenas”. 

Leia a íntegra da I Carta aqui.

O documento reivindicava participação efetiva em toda a cadeia — ou, como preferem chamar, nos “ninhos da restauração” —, desde a formulação das iniciativas até sua implementação e monitoramento, além de acesso direto ao financiamento, reconhecimento dos conhecimentos tradicionais e maior presença indígena nos espaços de governança da restauração.

Dois anos depois, essas reivindicações continuam orientando a construção coletiva da agenda indígena para a restauração.

Muito além da execução de projetos

As lideranças presentes defenderam que os povos indígenas não querem apenas executar projetos concebidos por terceiros, mas participar das decisões desde o início, definir prioridades para seus territórios e gerir diretamente os recursos destinados à restauração.

Outro tema recorrente foi a necessidade de que os projetos deixem capacidades instaladas e benefícios permanentes nos territórios. Para as lideranças presentes, iniciativas de restauração precisam estar conectadas às economias da sociobiodiversidade, à produção de alimentos, às sementes nativas, ao artesanato e a outras atividades capazes de gerar renda e autonomia após o encerramento dos financiamentos.

Como resumiu uma das participantes durante o encontro, os povos indígenas não querem ser “submissos aos editais”, dependendo continuamente de novos projetos para manter as ações em seus territórios. O desafio é construir processos capazes de fortalecer a autonomia das comunidades e gerar um legado duradouro.

Os debates também reforçaram que os povos indígenas são protagonistas históricos da conservação dos ecossistemas brasileiros. Seus conhecimentos, formas de manejo e modos de vida explicam, em grande medida, a elevada integridade ambiental das Terras Indígenas, reconhecidas entre as áreas mais preservadas do país. Nesse contexto, restaurar significa também fortalecer quem há séculos protege as florestas, as águas e a biodiversidade.

Comunicação do EIRE

A cobertura do II EIRE foi realizada pelos comunicadores da Rede de Sementes do Xingu. Assista ao vídeo produzido por Marewi Juruna e Lia Domingues: 

Oreme Ikpeng e Marewi Juruna da Rede de Sementes do Xingu|Lia Domingues/Rede de Sementes do Xingu
Oreme Ikpeng e Marewi Juruna da Rede de Sementes do Xingu 📷 Lia Domingues/Rede de Sementes do Xingu
Carta do II EIRE

O encontro aconteceu na semana que antecedeu a VI Conferência Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE2026). Muitos participantes permaneceram em Brasília para a conferência, com isenção da inscrição e apoio financeiro de diferentes instituições, o que representa mais um passo para que a restauração ecológica seja construída com maior diversidade de saberes, justiça social e protagonismo indígena.

No dia 31 de julho, durante a plenária de encerramento da SOBRE2026, representantes indígenas subiram ao palco para apresentar a Carta dos Povos Indígenas do II Encontro Indígena de Restauração Ecológica à VI Conferência da Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica – Nós Somos a Regeneração. 

Leia a íntegra da carta aqui.

O documento reafirma que, para os povos indígenas, a restauração ecológica é inseparável da cultura, da espiritualidade e do território. Sob o lema “Nós Somos a Regeneração”, a carta propõe ampliar a compreensão sobre a restauração, defendendo o fortalecimento dos “ninhos da vida” — territórios onde a vida continua sendo cultivada — e o reconhecimento dos conhecimentos indígenas como formas próprias de compreender e regenerar o mundo.

Entre os principais encaminhamentos estão o fortalecimento das políticas ambientais; a criação de mecanismos de financiamento acessíveis diretamente aos povos indígenas; a participação desde a concepção das iniciativas; a construção coletiva do Programa Indígena de Restauração Ecológica (PIRE); a continuidade da formação de Multiplicadores Indígenas em Restauração Ecológica (MIRE); e o reconhecimento dos territórios indígenas como protagonistas no cumprimento das metas nacionais de restauração.

A leitura da carta na plenária da SOBRE2026 marcou a consolidação de uma agenda construída pelos próprios povos indígenas e reafirmou uma mensagem que atravessou todo o encontro: não haverá restauração ecológica justa, duradoura e transformadora sem aqueles que, há milênios, mantêm vivos os territórios, os conhecimentos e as relações que sustentam a vida.

Fonte: https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/ii-encontro-indigena-de-restauracao-ecologica-fortalece-protagonismo