Encontro de indígenas jornalistas em Brasília, em 2025. Foto: Caio Mota / Coletivo Proteja

Em Brasília, indígenas jornalistas lançaram o Poranga Marandúa, manual de redação indígena

Artigo de Helena Corezomaé

Durante muito tempo, me senti sozinha na profissão. Nas redações por onde passei, o cenário se repetia: eu era a única indígena e existia um desconhecimento profundo por parte das pessoas sobre as pautas ligadas aos povos originários, marcado por preconceitos diretos e velados.

Sou indígena do povo Balatiponé, formada em Jornalismo e mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Atuando nessa profissão, já ouvi de colegas de trabalho absurdos como: “você não tem vergonha de dizer que é indígena?”.

Até no meio acadêmico o apagamento esteve presente, como quando ouvi de professores que, a partir do momento em que me tornei mestre, eu já não era mais indígena, uma tentativa absurda de vincular o acesso ao conhecimento formal à perda da nossa identidade cultural.

Foi a partir dessa constatação, e do acúmulo de vivências na vida e na profissão, que nós, da Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas (Abrinjor), construímos uma ferramenta capaz de transformar a cobertura sobre nós, povos originários, no país.

Essa construção coletiva e colaborativa começou a ser traçada a muitas mãos por nós, os 28 participantes do encontro presencial de indígenas jornalistas realizado em 2025. A partir desse marco, foi criado o Grupo de Trabalho do Manual de Redação, integrando os jornalistas Ykaruní Nawa, Andreza Baré e Jamille Mura no aprofundamento e sistematização do conteúdo.

A produção contou com o apoio de organizações parceiras como Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Nia Tero, Fundação Ford, A Proteja, Instituto Kaingáng e Imaginable Futures. Todo esse esforço conjunto culminou no Poranga Marandúa – Manual de Jornalismo Indígena.

Lançamos a obra na última segunda-feira, 10 de agosto, no Auditório Freitas Nobre da Câmara dos Deputados, em Brasília. O material reúne orientações práticas, conceitos e princípios éticos que combinam a técnica jornalística aos saberes tradicionais, trazendo recomendações sobre entrevistas, terminologias, contexto histórico e temas centrais como crise climática, demarcação, saúde e educação.

Foto: Ana Clara Gonçalves

No dia do lançamento eu estava em São Paulo para a aula inaugural do Curso Pública de Jornalismo, da Agência Pública, iniciativa que selecionou 10 profissionais para sua primeira edição de trainee voltada exclusivamente a jornalistas negros, indígenas e trans. O programa oferece etapas presenciais e uma bolsa-auxílio de R$ 2.000 mensais, um suporte financeiro fundamental para garantir a permanência dos participantes.

Iniciativas voltadas especificamente a esses públicos fazem toda a diferença porque enfrentam uma barreira histórica: a dificuldade de acesso aos grandes veículos de comunicação. As redações tradicionais raramente oferecem o apoio financeiro necessário para que indígenas jornalistas, frequentemente vindos de territórios distantes e sem redes de sustentação nos grandes centros, consigam se manter. Estar presente nessa aula de lançamento foi uma oportunidade não apenas para marcar essa urgência, mas também para apresentar o Poranga Marandúa como parte dessa transformação necessária.

Entender mais sobre diferentes culturas para saber como conversar não é fazer um favor. Cada pessoa deve procurar compreender o outro para facilitar diálogos verdadeiramente respeitosos. Mas essa responsabilidade recai com ainda mais força sobre nós, indígenas jornalistas.

Antes do lançamento oficial em Brasília, participei da mesa “Manual de Redação Indígena: o jornalismo a partir dos povos originários” no Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji. Durante a apresentação, a jornalista Bruna Pinheiro, de Mato Grosso, fez uma pergunta fundamental: o que as pessoas presentes não poderiam sair dali sem saber? Respondi sobre o uso inadequado e pejorativo da palavra “bugre”. A minha cidade se chama Barra do Bugres, mas deveria ser Barra do Balatiponé, já que o objetivo original era fazer referência ao meu povo, que sempre viveu na região.

Esse é um exemplo de como ainda existe um caminho longo sobre como nos referir aos povos indígenas. Mas as mudanças acontecem justamente quando nós estamos nesses espaços, propondo uma ruptura com a invisibilização e os estereótipos históricos.

A própria Funai, principal órgão federal voltado às nossas pautas, passou a se chamar Fundação Nacional dos Povos Indígenas (e não mais “do Índio”) apenas em 2023. No mesmo sentido, a Lei 14.402/2022, proposta pela então deputada federal Joenia Wapichana, alterou a denominação do antigo “Dia do Índio” para Dia dos Povos Indígenas, celebrado em 19 de abril.

No entanto, a representatividade na imprensa ainda é pequena: somos apenas 37 jornalistas e 28 estudantes indígenas. Embora o levantamento da Mídia Indígena no Brasil, divulgado em 2025, mostre que existem 1.095 comunicadores indígenas atuando pelo país, os desafios dentro das redações tradicionais continuam imensos. Elas são o reflexo de uma sociedade que desconhece a nossa diversidade e acaba reproduzindo preconceito e desinformação.

O Poranga Marandúa nasce para honrar a memória dos nossos anciãos e reafirmar o nosso direito de contar nossas próprias histórias a partir de nossas perspectivas. Nós já prestamos esse serviço ao criar o manual. Agora, a responsabilidade é de toda a imprensa: leia, absorva o conhecimento e faça uma produção jornalística mais ética, plural e de qualidade. Afinal, nunca mais um jornalismo sem a nossa presença!

Para conhecer o manual, acesse aqui!

Foto: Ana Clara Gonçalves

Fonte: https://amazonianativa.org.br/2026/08/12/um-presente-e-um-recado-a-imprensa-leiam-aprendam-e-facam-um-jornalismo-melhor/