O Formar Sustentabilidade é um projeto construído continuamente pelo Conselho Indígena de Roraima (CIR) e pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), com a participação do Instituto Insikiran de Formação Superior Indígena da Universidade Federal de Roraima (UFRR) e do Centro Indígena de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol (CIFCRSS), que integram o processo de construção pedagógica da formação, reunindo experiências e conhecimentos complementares.

A proposta é formar lideranças, estudantes, produtores e produtoras indígenas para fortalecer as economias nos territórios, articulando produção sustentável, organização, valorização dos conhecimentos e culturas indígenas e caminhos para uma comercialização mais justa. O programa dialoga diretamente com os Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) e com aquilo que os próprios povos indígenas vêm construindo e planejando para seus territórios.

Quando começamos a desenhar o primeiro módulo do Formar Sustentabilidade – Programa de Formação em Economias Indígenas de Roraima, uma questão nos acompanhava: por onde começar uma formação que pretende discutir o fortalecimento das economias indígenas?

Poderíamos começar falando de produção, comercialização, acesso a mercados, beneficiamento, gestão, políticas públicas ou geração de renda. Todos esses temas estarão presentes ao longo da formação. Mas escolhemos outro ponto de partida: a memória.

Essa escolha diz muito sobre o que entendemos por economia indígena. Para pensar o que pode ser fortalecido no presente e construído no futuro, precisamos primeiro compreender o que já existia e o que existe nos territórios; como as gerações anteriores produziam, trocavam, compartilhavam e manejavam seus recursos; quais transformações ocorreram; e como essas mudanças se relacionam com a história de luta, organização e conquista dos direitos territoriais dos povos indígenas de Roraima.

Foi com esse espírito que, entre os dias 14 e 17 de setembro de 2026, cerca de 44 participantes de diferentes regiões, comunidades e terras indígenas se encontraram na comunidade Maturuca, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, para o primeiro módulo da formação, dedicado aos “Modos de Vida e Economias dos Povos Indígenas de Roraima”.

Durante o primeiro módulo, foram colocados em perspectiva os 27 PGTAs trabalhados no processo formativo. Sentados juntos, ouvimos histórias sobre como se produzia antigamente, sobre as roças, a fartura, as trocas, o ajuri, as farinharadas, a criação, a pesca e as relações entre as comunidades. Mas as histórias sobre economia rapidamente se tornaram também histórias sobre território, organização e resistência.

E não poderia ser diferente. Em Roraima, a trajetória das economias indígenas está profundamente ligada à trajetória da luta pelos territórios e à própria organização do movimento indígena. As lembranças dos mais velhos atravessaram momentos importantes dessa história, das primeiras assembleias e da organização das comunidades às experiências de produção construídas coletivamente ao longo das décadas. O próprio CIR registra que os debates do módulo retomaram acontecimentos como a primeira Assembleia Geral dos Tuxauas, em 1971, em Surumu, e iniciativas econômicas e comunitárias desenvolvidas posteriormente.

Ali ficou ainda mais evidente algo que queremos levar para todo o percurso do Formar: não é possível separar economia, território e cultura.
As economias indígenas não começam quando um produto recebe preço ou chega ao mercado, elas estão nas roças, nas sementes, nos conhecimentos sobre os ciclos da chuva, nos tempos de plantar e colher, na pesca, no manejo, na criação, nas relações de troca, nas formas coletivas de trabalho, na alimentação e nas maneiras próprias de compartilhar aquilo que o território oferece.

Isso não significa ignorar o mercado ou romantizar o passado. Ao contrário. As comunidades mudaram, as necessidades mudaram e as formas de circulação econômica também mudaram. Hoje, convivem nos territórios práticas tradicionais de produção e troca, comercialização, salários, aposentadorias, políticas públicas e até novas formas de pagamento, como o Pix. O desafio é compreender essas transformações para entender o que se quer fortalecer e em que condições.

Calendários que contam territórios

Depois de mergulhar nas histórias, os grupos foram convidados a olhar para suas próprias etnorregiões e representar como as economias acontecem ao longo do tempo.

O resultado foi uma das imagens mais bonitas do módulo. Surgiram calendários em forma de canoa e cascavel, além de mapas, cocares, folhas e outras representações criadas pelos próprios participantes. Neles apareceram épocas de plantio e colheita, produtos, atividades produtivas, ciclos naturais, festas, períodos de chuva e seca e diferentes conhecimentos associados à vida econômica das comunidades. Eram lindíssimos. Mas, mais do que isso, eram conhecimento.

Cada desenho mostrava que há muitas maneiras de representar uma economia. O calendário convencional, dividido em doze meses e organizado em uma tabela, é apenas uma delas. Uma canoa também pode organizar o tempo. Uma cascavel pode contar um ciclo produtivo. Um mapa pode mostrar relações que uma planilha dificilmente conseguiria expressar.

Essa experiência reforçou uma opção metodológica importante do Formar Sustentabilidade: as ferramentas da formação precisam dialogar com as formas indígenas de produzir, organizar e transmitir conhecimento, e não simplesmente substituí-las.

O território entra na sala — e a formação volta para o território

O primeiro módulo também foi um momento para que os participantes compreendessem o percurso completo do Formar Sustentabilidade, seus objetivos, etapas e metodologia.

A formação combina momentos presenciais com o Tempo Comunidade. A alternância é fundamental porque não queremos que o conhecimento produzido durante os módulos fique restrito ao grupo que participa do curso. Entre um encontro e outro, os participantes retornam às suas comunidades, conversam, pesquisam, observam, levantam informações e trazem novos conhecimentos para o processo formativo.

E foi justamente assim que começamos a preparar o primeiro Tempo Comunidade. Em vez de entregar aos participantes um questionário previamente elaborado por técnicos, fizemos o caminho inverso: perguntamos a eles o que precisamos saber para conhecer, de verdade, o potencial produtivo de uma etnorregião.

A partir da discussão em grupos, da socialização e da escuta coletiva, construímos as bases de um roteiro comum para o diagnóstico que será realizado nas etnorregiões.

Dessa forma podemos conhecer dados reais e concretos: o que se produz, onde, quem produz, em quais períodos, em que quantidade, quais atividades têm potencial de crescimento, quais dificuldades existem, como a produção circula e quais conhecimentos, estruturas, organizações e parceiros já estão presentes nos territórios.

O diagnóstico deixa de ser apenas uma ferramenta técnica aplicada sobre as comunidades e passa a ser também um processo de investigação conduzido pelos próprios participantes a partir das perguntas que eles ajudaram a construir.

Há ainda uma dimensão que nenhuma programação consegue traduzir completamente: a comunidade que recebe uma formação também a transforma. Maturuca não foi apenas o lugar do curso, esteve presente no módulo de muitas maneiras. As lideranças locais participaram ativamente com destaques para o tuxaua, o vice-tuxaua e a coordenação regional das mulheres. Os estudantes da escola indígena da comunidade estiveram conosco em diferentes momentos, aproximando ainda mais o curso da vida cotidiana de Maturuca.

E houve espaço para celebrar. Na noite cultural não foi só um intervalo entre os conteúdos, o parixara reuniu participantes, comunidade e estudantes. Cultura, território, organização comunitária e economia não vivem em gavetas separadas.
Contamos, também, com a presença e a contribuição fundamental da professora e mestra Sineia do Vale Wapichana, coordenadora do Departamento de Gestão Territorial, Ambiental e Mudanças Climáticas do CIR e uma das pessoas que vêm conduzindo a construção do Formar Sustentabilidade dentro da organização indígena. Sinéia destacou durante o módulo, que o Formar Sustentabilidade vem sendo pensada e estruturada pelo CIR em parceria com o IEB e agora se consolida como um processo de longo prazo envolvendo produtores e participantes de diferentes regiões e terras indígenas de Roraima.

Existe hoje um debate crescente sobre bioeconomia, sociobioeconomia, negócios indígenas, cadeias da sociobiodiversidade e novas economias da floresta. São debates importantes e que podem abrir oportunidades relevantes para os povos indígenas. Mas é preciso cuidado para não tratar os territórios como se suas economias estivessem começando agora, elas têm história.

Muito antes de esses conceitos entrarem nos projetos, nas políticas públicas e nos debates sobre desenvolvimento sustentável, os povos indígenas já produziam, manejavam, trocavam, experimentavam, adaptavam tecnologias e organizavam sistemas econômicos profundamente relacionados aos seus territórios.

Isso não significa que tudo deva permanecer como antes. Os próprios relatos dos anciãos mostraram quantas transformações ocorreram. Há novas necessidades, novas tecnologias, mudanças climáticas, demandas dos jovens, relações cada vez mais intensas com as cidades e oportunidades de comercialização que podem e devem ser discutidas. O desafio está justamente aí: como fortalecer as economias indígenas sem enfraquecer aquilo que as sustenta? Como gerar renda sem transformar o território apenas em mercadoria? Como ampliar mercados sem perder autonomia? Como incorporar tecnologias sem abandonar conhecimentos construídos durante gerações? Como criar oportunidades para os jovens para que permanecer no território seja também uma escolha economicamente possível? E como fazer tudo isso diante das mudanças climáticas, que já alteram calendários, ciclos produtivos e modos de vida?

O Formar Sustentabilidade não pretende chegar com essas respostas prontas. Queremos construir condições para que elas sejam buscadas coletivamente, combinando conhecimentos indígenas, dados concretos dos territórios, ferramentas de planejamento e gestão, experiências de outras comunidades e novas possibilidades de produção e comercialização.

A formação segue para o Tempo Comunidade. Os participantes voltarão às suas etnorregiões para olhar o presente, conversar com suas comunidades e levantar o potencial produtivo existente nos territórios. Voltaremos a nos encontrar para colocar esses conhecimentos em diálogo e seguir construindo os próximos passos.

O primeiro modulo ficou marcado pela oralidade ancestral de quem já esta cuidando e protegendo o território há anos.

O futuro não começa do zero!

Andréia Bavaresco e Sara Gaia
Programa Povos Indígenas – PPI
Instituto Internacional de Educação do Brasil – IEB

Fotos: Maciel Makuxi

Fonte: https://iieb.org.br/noticias/economia-tambem-e-memoria-para-falar-de-futuro-comecamos-pela-memoria-economias-indigenas-territorio-e-formacao-em-roraima/