Realizado pelo Conselho Warao Ojiduna de 4 a 6 de novembro, o encontro terá como destaque o lançamento do documento“Karata Janoko Isia Obonoya kotai Perspectivas Warao sobre Moradia Digna”, além de apresentações culturais, esportes, artesanato.
O III Encontro de Cultura Warao será realizado de 4 a 6 de novembro, em Belém, e reunirá as comunidades indígenas, em contexto de deslocamento, que moram na Região Metropolitana. O evento acontecerá durante três dias e reunirá apresentações culturais, jogos, artesanato, culinária. Organizado pelo Conselho Warao Ojiduna (CWO), o lançamento do documento Karata Janoko Isia Obonoya kotai: Perspectivas Warao sobre Moradia Digna,que busca orientar o poder público para inclusão e/ou adaptação das políticas públicas de moradia existentes, é um dos momentos mais esperados da celebração. “Queremos que reconheçam nossa cultura, nossa história e nossa organização pela luta por direitos”, afirma Freddy Cardona, vice-coordenador do CWO, ao destacar que o encontro é também uma forma de reafirmar a identidade e a presença Warao no Pará.
Para Mary Joyce Rocha, assistente social – Coordenação de Projetos da Diocese Anglicana da Amazônia, uma das apoiadoras do evento, o encontro também é uma oportunidade de ampliar o diálogo sobre os direitos do povo Warao, especialmente o acesso à moradia. “É importante que esse debate não seja construído apenas a partir do olhar das instituições, mas que considere e valorize as vozes, os conhecimentos e as reivindicações dos próprios indígenas”, destaca. Segundo ela, a articulação entre comunidades e instituições parceiras é fundamental para fortalecer o protagonismo Warao e transformar suas demandas em ações concretas.
Moradia digna para além de quatro paredes

Construído a partir das memórias, experiências e propostas de lideranças indígenas, o documento é resultado do projeto Moradia Warao: Refúgio com Dignidade, desenvolvido em parceria entre o CWO, Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), Defensoria Pública do Estado do Pará (DPE-PA), Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB) e Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR).
Ao longo de oficinas e encontros comunitários, os participantes refletiram sobre suas trajetórias desde o território ancestral, no Delta Orinoco, até sua chegada e permanência no Brasil, em Belém. Analisando as mudanças vividas durante o deslocamento forçado, conseguiram definir de forma coletiva o que seria para os Warao, uma “moradia digna”. Como mostra o documento, esta ideia se relaciona não apenas com as condições das casas, mas também com a necessidade de manter uma relação com o buriti, a sua árvore da vida, a espiritualidade e a vida em comunidade. A partir dessas experiências, definiram o que significa ter uma moradia digna, considerando não apenas as condições das casas, mas também a relação com a floresta, os rios, a espiritualidade e a vida em comunidade.
Segundo o levantamento, cerca de 835 indígenas Warao, distribuídos em 191 famílias e 14 comunidades, vivem na Região Metropolitana de Belém. Muitas dessas famílias enfrentam dificuldades para pagar aluguel, enquanto outras moram em abrigos, ocupações ou construções improvisadas, algumas sem acesso adequado à água e ao saneamento básico.
Para os Warao, ter uma casa própria significa também poder viver junto aos familiares, cultivar alimentos, confeccionar artesanato e manter a relação com o miriti, oji, em warao, considerado sua árvore da vida. A publicação reúne essas necessidades e apresenta propostas para a regularização de terrenos, a melhoria das condições habitacionais e a participação das comunidades na elaboração, adaptação e na inclusão dos Warao nas políticas habitacionais existentes e.
“Moradia digna não se resume a quatro paredes e um teto. Significa ter uma casa segura, acesso à terra, água, saneamento e energia, mas também poder viver em comunidade, preservar a língua, a espiritualidade, os vínculos familiares, a relação com a natureza e as condições de produzir seu próprio sustento”, explica Raimundo de Jesus Coelho de Moraes, promotor de Justiça do MPPA.
Para o promotor, um dos principais avanços está no protagonismo das próprias comunidades na definição das soluções. “A publicação transforma essas aspirações em uma declaração pública, uma referência concreta para o diálogo com o Estado e com a sociedade”, afirma. Ele ressalta, entretanto, que o desafio agora é transformar as propostas em decisões, recursos e moradias efetivamente adequadas às necessidades das famílias.
Acesse aqui o documento Karata Janoko Isia Obonoya kotai: Perspectivas Warao sobre Moradia Digna.
Cultura, organização comunitária e resistência

O Encontro de Cultura Warao nasceu de uma demanda das próprias comunidades, que desejavam manter no Brasil uma tradição de celebração da resistência indígena vivida na Venezuela. Em 2021, quando o IEB começou a atuar junto ao povo Warao na Região Metropolitana de Belém, as lideranças apresentaram a proposta de reunir as famílias para compartilhar cantos, danças, esportes e conhecimentos tradicionais.
A primeira edição aconteceu em 2022, pouco depois da criação do Conselho Warao Ojiduna, fundado em 30 de agosto daquele ano para fortalecer a organização política das comunidades. Em 2023, a segunda edição reuniu mais de 500 pessoas, com recursos conquistados pelo próprio Conselho por meio da obtenção de um Prêmio de Incentivo à Arte e Cultura da Fundação Cultural do Pará Após uma edição reduzida, voltada aos jogos esportivos em 2024, e a interrupção em 2025 por falta de recurso, o encontro retorna este ano com uma programação de três dias.
Para Gardenia Cooper Quiroz, coordenadora do Comitê de Cultura e Esporte do CWO, a iniciativa nasceu do desejo de manter uma tradição que atravessou a fronteira junto com as famílias. “Queríamos fazer um encontro para que todas as comunidades se reunissem, cantássemos, dançássemos, compartilhássemos nossas tradições”, conta. Segundo ela, o objetivo vai além da confraternização: é fazer com que a cultura Warao seja conhecida e reconhecida pela sociedade brasileira.
O IEB acompanha essa trajetória desde 2021, apoiando o fortalecimento das organizações indígenas, a articulação com instituições parceiras e a realização das atividades. Clémentine Maréchal, analista socioambiental do Instituto, destaca que a condução do encontro pertence às próprias lideranças.
“O IEB, como outros parceiros, fica muito mais na retaguarda. A gente assessora, mas são eles que tomam a frente”, explica. Para ela, o evento também fortalece os vínculos entre as comunidades e abre espaço para que o Conselho apresente suas demandas ao poder público e dialogue sobre os próximos passos de sua atuação.
Essa dimensão política estará presente na programação de abertura, com representantes de instituições públicas e parceiras do projeto Moradia Warao. Na tarde do dia 4, o Conselho realizará sua Assembleia Geral, com avaliação da gestão atual e debates sobre a composição e as prioridades da organização para os próximos anos.
Uma luta que também é das próximas gerações
Para Freddy Cardona, o lançamento do documento representa a continuidade de uma luta que começou antes da chegada das famílias ao Brasil. “Esse documento foi construído através dos sonhos de moradia que nós tivemos lá na Venezuela”, afirma. A expectativa, segundo ele, é que as autoridades reconheçam as necessidades do povo Warao e seu direito de viver com segurança, respeito e identidade cultural.
Ao defender a continuidade do encontro, Gardenia também chama atenção para a responsabilidade de manter vivas as tradições e compartilhá-las com outras pessoas, para além das próprias comunidades. Sua expectativa é que a celebração se fortaleça a cada edição, ampliando o reconhecimento da cultura indígena Warao no país.
Essa perspectiva atravessa as páginas do documento, escrito em primeira pessoa pelas lideranças. Em suas considerações finais, as comunidades afirmam: “Ter um janoko digno é poder criar raízes, manter viva nossa cultura e construir, com nossos filhos e netos, um futuro e um território onde possamos viver com dignidade no Brasil.”
Programação e serviço
III Encontro de Cultura Warao — Nossa cultura, nossa identidade, nossos direitos!
4 de novembro — Igreja Episcopal Anglicana do Brasil
Av. Serzedelo Corrêa, 446, Nazaré, Belém.
- A partir das 9h: apresentações culturais, apresentação do Conselho e diálogo com instituições parceiras.
- A partir das 11h: lançamento do documento Perspectivas Warao sobre Moradia Digna e debate com o público.
- Das 14h às 17h: Assembleia Geral do Conselho Warao Ojiduna.
5 e 6 de novembro — Usina da Paz do Benguí
Passagem Primeiro de Julho, 32, Benguí, Belém.
Das 8h às 17h: apresentações culturais, jogos esportivos entre comunidades, artesanato e culinária tradicional Warao.
Realização: Conselho Warao Ojiduna (CWO).
Apoio: ACNUR | LONGI | SEBRAE | SEPI | MPPA | DPE-PA | IEB | IEAB.
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