(E-D) A coordenadora da DMIRN/Foirn, Cleocimara Reis Gomes, a assessora do ISA Dulce Morais e a vice-precisente da Foirn, Janete Alves, na conferência ‘Mulheres que movem a Justiça’ 📷 Acervo pessoal
Iniciativa do ISA e da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro promoveu formações e um diagnóstico sobre violência de gênero no noroeste do Amazonas
Oswaldo Braga de Souza – Jornalista do ISA
Com informações da Agência Brasil; texto atualizado em 5/11/2026, às 21:18
O projeto “Promotoras Legais Populares Indígenas do Rio Negro” ganhou uma menção honrosa no prêmio “Antes que Aconteça”, nesta quarta (4), durante a conferência internacional “Mulheres que movem a Justiça”, em Brasília.
A iniciativa promoveu três formações, entre 2021 e setembro deste ano, com mulheres indígenas do Alto e Médio Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira, no noroeste do Amazonas, para prepará-las para atuar como multiplicadoras e referência em suas comunidades, na prevenção e enfrentamento à violência contra as mulheres na região. O projeto ofereceu um espaço de escuta, orientação e apoio às indígenas no reconhecimento de situações de violência e na busca por seus direitos.
Entre os objetivos da iniciativa, também está a construção de uma rede de cuidado entre mulheres baseada nos saberes e práticas indígenas, no conhecimento sobre direitos e na articulação comunitária.
“A gente recebe vários casos, mas a gente ainda tem muita dificuldade de acolher essa mulher, porque a gente não tem uma estrutura própria dentro do nosso departamento. Mas com essas iniciativas, estamos conseguindo ajudar muitas mulheres a sair da situação de violência”, diz Cleocimara Reis Gomes, coordenadora do Departamento de Mulheres da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (DMIRN/Foirn).
Ela relata que um dos maiores desafios do projeto foi apoiar as indígenas a identificar as violências e conseguir falar abertamente sobre o assunto. E lembra que uma das reivindicações identificada nos encontros é a de uma formação para os homens.
“As mulheres sentem medo. Então, o desafio é conscientizar elas, incentivar também, para se abrir para nós, enquanto Departamento de Mulheres, ou para sua companheira, amiga, que possa também conversar, não esconder. Porque esconder, calar as mulheres, faz crescer o sofrimento, a violência”, acrescenta.
“Na formação, a gente teve vários depoimentos que tocam o coração, que dão essa sensação de que a gente está fortalecendo, motivando as mulheres, para que elas possam falar. E também que o departamento, através da Foirn, através das parcerias, possa trazer várias iniciativas para buscar fortalecer a luta das mulheres”, complementa Janete Alves Desana, vice-presidente da Foirn.
Estratégias comunitárias e de Estado
“Além desse entendimento de como elas lidam [com a questão], que são as estratégias comunitárias de enfrentamento às violências, [nas formações] a gente também levou as estratégias do Estado: quais são as instituições que acolhem, que protegem, que cuidam, as leis, os protocolos, os fluxos de atendimento, tanto da saúde, da segurança pública, assistência social”, explica Dulce Meire Mendes Morais, assessora de gênero do Instituto Socioambiental (ISA) no Rio Negro.
“É muito importante ouvir os relatos das mulheres que participam das formações dizendo que, por mais que ainda seja difícil abordar o tema no território, elas estão saindo de situações de violências. Algumas mulheres afirmam que aprenderam a diferenciar os vários tipos de violências e que agora elas têm melhores formas de reivindicar seus direitos nos dispositivos de Justiça”, continua.
Ela adiciona que o trabalho de enfrentamento às violências contra mulheres no Rio Negro permitiu a elaboração de um diagnóstico dos equipamentos e serviços públicos de acolhimento e proteção às mulheres e meninas em situação de violência na região.
O projeto é uma iniciativa do ISA e da Foirn, em parceria com a Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP) e com o Observatório da Violência de Gênero no Amazonas (OVGAM/Ufam).

Reconhecimento
“Eu considero [esse reconhecimento] importante, principalmente, para dar visibilidade a esse movimento das mulheres indígenas do Rio Negro, que não querem mais silenciar a violência que tem contra elas em todo o território, sejam as meninas sejam as mulheres, que hoje têm uma rede de apoio para ajudar a receber essas denúncias e encaminhar para os órgãos competentes”, avaliou Lúcia Alberta Baré, presidenta da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). Ela é indígena nascida na região e conhece o problema da violência de gênero local.
O Rio Negro é uma das regiões de maior diversidade cultural do país, abrigando 23 povos indígenas, falantes de línguas diferentes e distribuídos em 750 comunidades. Localizados na região, Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira são o segundo e o terceiro municípios com maior proporção de indígenas do Brasil, com cerca de 96% e 93% da população composta de indígenas, respectivamente, de acordo com o Censo do IBGE de 2022.
Além de Lúcia Alberta, estiveram na premiação a ex-ministra dos Povos Indígenas e deputada federal (PSOL-SP), Sonia Guajajara, a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, a secretária nacional de Acesso à Justiça do Ministério da Justiça, Sheila Santana de Carvalho, e a senadora Daniela Ribeiro (PSD-PB). As duas últimas lideraram a criação do programa “Antes que Aconteça”.
A iniciativa é coordenada pelo Ministério da Justiça e tem o objetivo de combater a violência contra as mulheres por meio da implementação de políticas públicas específicas. O prêmio “Antes que Aconteça” pretende valorizar ações em todo o país para a prevenção e enfrentamento da violência de gênero. Instituições foram premiadas em oito categorias, recebendo entre R$ 50 mil e R$ 200 mil.
Outros projetos premiados de comunidades tradicionais
Projeto Dandara (RJ)
Outro premiado nesta quarta, na categoria voltada a comunidades tradicionais, foi o projeto Dandara, de defesa de mulheres quilombolas. Promovido pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, atende cerca de 500 mulheres com cursos nos próprios territórios fazendo a escuta cidadã.
A presidente da Associação Estadual das Quilombolas do Rio de Janeiro, Ana Beatriz Bernardes Nunes, da comunidade Maria Conga, no município de Magé, diz que as mulheres são vítimas de violência territorial.
“As mulheres quilombolas, em sua grande maioria, são as maiores e principais administradoras dos territórios, e passam a cuidar da biodiversidade. Por isso, estão muito ameaçadas”, diz a liderança.
Associação de Pescadores e Marisqueiras de São Félix (BA)
O trabalho de conscientização também é o objetivo de outro projeto vencedor, realizado para Associação de Pescadores e Marisqueiras de São Félix (BA). A iniciativa foi escolhida na categoria “Justiça que acolhe mulheres” e presta apoio a cerca de 600 mulheres.
A presidente do projeto é a marisqueira Cátia Chagas, que se formou em Direito e Psicologia. “São pessoas muito humildes, vítimas de violência. Às vezes, elas ficam envergonhadas de falar. Nós buscamos promover atendimentos diversos, inclusive psicológicos e médicos, além de capacitação”, afirma. “A maioria é formada por mães solo. Mães jovens com muitos filhos também”, explica.
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