Indígenas da Amazônia associam governos do PT a pacificação de conflitos por terra e a melhorias na educação

Murilo Pajolla

Brasil de Fato | Lábrea (AM) |

 29 de Outubro de 2022 às 15:31

Não é segredo que bolsonarismo, agronegócio e devastação ambiental andam juntos na Amazônia. Mas um processo igualmente importante corre paralelo. Áreas com forte presença indígena têm formado bolsões lulistas que servem de escudo ao avanço da economia predatória defendida por Jair Bolsonaro (PL). 

Eleitores dos dois municípios com maior população indígena do país – um em números absolutos e outro em proporcionalidade – deram maioria de votos a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no 1º turno de 2022. São eles, respectivamente, São Gabriel da Cachoeira (AM) e Uiramutã (RR). 

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Moradores ouvidos pelo Brasil de Fato explicaram como sentiram na pele os efeitos das políticas de inclusão social dos governos petistas. O impacto maior foi nas áreas de educação, saúde e na demarcação das terras indígenas, que garantiu paz a populações até então perseguidas por invasores fortemente armados. 

Os relatos revelam uma realidade que pode ser considerada improvável para quem a desconhece. Por que, em algumas das regiões mais isoladas da floresta amazônica, as demandas indígenas são canalizadas por um partido criado por trabalhadores da indústria do maior aglomerado urbano da América do Sul?

“Fomos esquecidos durante muitos anos”

O já defasado Censo de 2010 mostrou que São Gabriel da Cachoeira (AM) era o município com maior população indígena do Brasil: 29 mil pessoas. No primeiro turno, 79,1% dos são-gabrielenses escolheram Lula como presidente, contra 17,5% de votos em Bolsonaro. 

“A gente apoia o Lula primeiramente porque nós fomos esquecidos durante muitos anos. E o PT é um dos partidos que nos apoiam”, diz o servente de obras Odinei Noronha Penha do povo Tariana, uma das 23 etnias presentes no município. 

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Odinei tem 38 anos, é filiado ao Partido dos Trabalhadores e exerce o papel de liderança no povoado de Iauareté. Ele relembra com pesar histórias de familiares que não tiveram acesso aos estudos, entre eles seus pais e irmãos mais velhos. “Com esse apoio do PT, tanto federal como no município, nossos filhos puderam entrar na faculdade”.

“Outra coisa são os beneficios [sociais]”, acrescenta Odinei. “A maioria dos nossos parentes agradece por isso. A gente vê que não é muito dinheiro, mas ajuda cada família. Se não existissem essas iniciativas, como um pai poderia comprar um lápis para o filho estudar? Como uma mãe poderia comprar uma borracha?”.

Demarcação pacificou conflitos e levou direitos

Segundo o último Censo, o município brasileiro com maior proporção de população indígena (88%) era Uiramutã (RR). Estima-se que hoje o percentual tenha subido para 97%.  Em Roraima, estado assolado pelo garimpo ilegal, foi o único município a votar majoritariamente em Lula (66,6%) no primeiro turno. Com exceção da pequena zona urbana, os limites municipais se sobrepõem à Terra Indígena (TI) Raposa Serra do Sol, a segunda maior em extensão do Brasil. 

“Passaram vários presidentes, né? [Fernando] Collor, Itamar [Franco], Fernando Henrique [Cardoso]… Mas o Lula foi quem demarcou a nossa terra”, diz Zelandes Alberto Oliveira do povo Patamona, que ocupa o cargo de secretário de Saúde em Uiramutã. 

Ele lembra que antes da demarcação os conflitos entre fazendeiros e indígenas eram intensos. As comunidades gastavam toda sua força na proteção do território. Sobrava pouca energia para lutar por melhorias nas condições de vida nas aldeias. 

O reconhecimento oficial do Estado brasileiro abriu caminho para a chegada de políticas públicas gestadas nos governos de Lula. A produção agrícola, antes quase só de subsistência, passou a ser direcionada para programas federais, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que hoje estão enfraquecidos sob Bolsonaro

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“O governo federal compra a produção agrícola e isso gera renda. Os indígenas têm uma melhoria de vida e sabem que isso veio do Partido dos Trabalhadores e do Lula. Esses programas [PAA e PNAE] chegaram no nosso município após a demarcação”, afirma Zelandes. 

Bolsonarismo vem da influência de garimpeiros e empresários

Em Uiramutã (RR), Bolsonaro teve 31,6% dos votos no primeiro turno deste ano. A gestora territorial indígena Juci Carneiro não tem dúvidas de que os 1.709 votos recebidos pelo candidato à reeleição vêm da influência de empresários e garimpeiros. 

“Uiramutã já viveu essa experiência do garimpo até os anos 90. Sofremos com violência, exploração da mão de obra e da terra. O garimpo não deixou nada de positivo. Não existe nada no município que a gente possa dizer que foi construído como um resultado da mineração”, afirma a indígena Macuxi. 

Após um “boom” de mineração ilegal interrompido há 30 anos, o município enfrenta mais uma vez um fluxo migratório relacionado ao garimpo, que voltou a ganhar força durante o mandato de Bolsonaro.

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Juci tem um diploma em Gestão Territorial Indígena da Universidade Federal de Roraima (UFRR). O bacharelado foi criado em 2009 e ajuda lideranças comunitárias a levarem soluções para os territórios. A UFRR oferece ainda cursos de licenciatura intercultural e gestão em saúde coletiva, opções de carreira para jovens que querem se profissionalizar, mas sem abandonar as comunidades de onde vieram. 

“Também foram criadas vagas específicas para indígenas em curso regulares, como Medicina, Engenharia, e Agronomia”, lembra Juci. “Tudo isso através de programas de ampliação de vagas e da estrutura física das universidades, como o Reuni [Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais]. Além da criação de bolsas para estudantes socialmente vulneráveis”, enumera.

Entre as “boas lembranças” que a população de Uiramutã tem do governo Lula, está ainda o fortalecimento das instituições ligadas à questão indígena, como a Polícia Federal, o Ministério Público Federal (MPF) e a Funai. “Tudo isso favorecia muito os trabalhos dentro da Terra Indígena, inclusive de parcerias para monitoramento e fiscalização”, conclui Juci. 

A militância petista indígena em São Gabriel da Cachoeira

Em São Gabriel da Cachoeira (AM), o servente de obras Odinei Noronha Penha, do povo Tariana, concorda que os empresários estão por trás dos 17% dos votos em Bolsonaro. “O Bolsonaro é para aquelas pessoas que têm empresa, para os filhos dos ricos”, resume. 

Segundo Ondinei, a forte presença de militares, a maioria bolsonaristas, também exerce influência na política. “A gente só tem uma universidade que recebe poucos alunos. Muitas vezes a única oportunidade da juventude é entrar no Exército. Só quem tem condições é quem vai para a capital [Manaus] estudar”, conta.  

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Odinei aposta todas as fichas no segundo turno dessas eleições e está esperançoso na vitória de Lula. O governo municipal já é comandado por um prefeito indígena filiado ao PT. Segundo ele, o esforço militante das lideranças comunitárias já rendeu pelo menos 500 filiações ao Partido dos Trabalhadores na última semana. 

Odinei reconhece que o PT não está imune a críticas da população de São Gabriel da Cachoeira (AM). O crescimento da violência urbana, por exemplo, tem gerado insatisfação, e a cobrança por melhorias na saúde é constante.  

“Mas não existe movimento indígena no projeto do Bolsonaro. Vejo o contrário: ele quer nos exterminar, acabar com nós indígenas. Nós não aceitamos isso. Então essa é nossa visão de votar no 13, tanto no federal, como no município”, diz Odinei. 

Edição: Rodrigo Durão Coelho

Fonte: https://www.brasildefato.com.br/2022/10/29/por-que-os-municipios-mais-indigenas-do-brasil-querem-lula-presidente

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