“Os rios da Amazônia não aguentam mais exploração. Tapajós Vivo”, ressalta o cartaz em marcha durante o ATL 2026. Foto: Guilherme Cavalli

Lideranças indígenas e organizações da Amazônia, incluindo representantes indígenas e do Cimi, discutem justiça climática, direitos territoriais e financiamento ambiental

Por Assessoria de Comunicação – Cimi

O Seminário Internacional sobre Justiça Climática e Povos Amazônicos reuniu lideranças indígenas, pesquisadores e representantes de organizações da sociedade civil nos dias 15 e 16 de setembro, na Universidade Nacional da Colômbia, em Bogotá. O encontro discutiu direitos humanos, financiamento climático e governança indígena, com participação de representantes do Brasil, da Colômbia e do Peru.

Realizado no âmbito do programa Amazônia Sustentável: Comunidades Resilientes e da Semana de Pesquisa da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Nacional da Colômbia, o seminário foi convocado pela Pastoral Social Cáritas Colombiana, Cáritas do Peru, Cáritas Brasileira, Comissão Episcopal de Ação Social (CEAS), Rede Latino-Americana e Caribenha por Justiça Econômica, Social e Climática (Latindadd) e pela universidade colombiana.

Antes do seminário, representantes das organizações participantes realizaram um intercâmbio internacional de cinco dias com comunidades indígenas e camponesas do departamento de Guaviare, na Colômbia. A atividade foi organizada pelas Cáritas da Colômbia, Alemanha e Brasil e incluiu visitas a comunidades, projetos de agroecologia e iniciativas de produção sustentável.

Segundo Flávio Vicente Machado, integrante da equipe de incidência internacional do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), o intercâmbio possibilitou a troca de experiências entre indígenas, camponeses e quilombolas. Também participaram da atividade representantes quilombolas do Brasil, incluindo duas mulheres do Nordeste, e uma indígena Kaiowá e Guarani, do Mato Grosso do Sul.

“Foi um momento muito forte de encontro entre povos. E solidariedade de classe entre camponeses, indígenas e quilombolas”, relata Machado

O departamento de Guaviare possui um histórico marcado pela violência relacionada ao conflito armado e aos processos de paz. Durante o intercâmbio, as comunidades apresentaram iniciativas voltadas à diversificação das formas de produção e organização. Entre elas estão cooperativas dedicadas à produção de alimentos e à organização comunitária.

“Foi um momento muito forte de encontro entre povos. E solidariedade de classe entre camponeses, indígenas e quilombolas”, relata Machado. Segundo ele, a atividade também permitiu compartilhar experiências sobre as dificuldades enfrentadas pelas comunidades e as formas de organização construídas diante de diferentes contextos de violência e pressão sobre os territórios.

De volta a Bogotá, a programação do seminário abordou a relação entre a crise climática e os direitos das comunidades que vivem na Bacia Amazônica. Entre os temas estavam a arquitetura do financiamento climático internacional, as condições de acesso a recursos e a participação dos povos indígenas nas decisões sobre políticas ambientais e territoriais.

De acordo com a apresentação do programa Amazônia Sustentável e da Latindadd, 81% dos recursos destinados ao financiamento climático chegam na forma de empréstimos. O estudo também aponta que alguns países comprometem até 20% de seus orçamentos com o pagamento da dívida, enquanto menos de 1% é destinado à proteção ambiental. Os números foram apresentados como parte do debate sobre financiamento climático justo.

Cartaz do Seminário Internacional

Incidência internacional

A programação também tratou da preparação de casos considerados emblemáticos para ações de incidência internacional. A formação reuniu comunidades e organizações integrantes dos programas Global 1 e 1B da Cáritas Alemã e abordou mecanismos de atuação em espaços internacionais.

A equipe de incidência internacional do Cimi conduziu uma atividade formativa sobre os conceitos de incidência e litigância internacional, a construção de casos e os espaços disponíveis para o encaminhamento de informações ou para a abertura de processos. Entre os mecanismos apresentados estavam os comitês das Nações Unidas e o Sistema Interamericano de Direitos Humanos.

Para Machado, a formação ocorreu em um contexto de dificuldades enfrentadas pelas comunidades em diferentes países, incluindo Brasil e Bolívia, e buscou ampliar o conhecimento das organizações sobre os instrumentos internacionais disponíveis para a defesa de direitos.

A articulação entre organizações indígenas e entidades de apoio também esteve presente em atividades recentes do Cimi no Brasil

A presença de indígenas brasileiros e do Cimi integra o contexto regional de articulação dos povos amazônicos em defesa de seus territórios e direitos. O Cimi atua na defesa dos direitos dos povos indígenas no Brasil e participa de iniciativas de formação, articulação e acompanhamento das lutas territoriais.

Em agosto, representantes brasileiros estiveram no XII Fórum Social Pan-Amazônico, realizado em Puyo, no Equador, entre os dias 16 e 21. O encontro reuniu mais de 2,5 mil pessoas dos nove países da Bacia Amazônica e contou com a participação do Cimi. Entre os temas discutidos estavam a autodeterminação dos povos, a proteção dos territórios e a justiça climática.

A articulação entre organizações indígenas e entidades de apoio também esteve presente em atividades recentes do Cimi no Brasil. Em setembro, o Regional Norte I realizou uma oficina de formação com 36 representantes dos povos Mayuruna, Kanamari, Matis, Kulina e Marubo, integrantes da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja). A atividade abordou direitos territoriais, legislação indígena e políticas públicas.

Acampamento Terra Livre 2025. Foto: Hellen Loures/Cimi

Crise climática e autonomia dos povos

O debate sobre justiça climática na Amazônia envolve os efeitos das mudanças no regime de chuvas, das secas, das inundações e da degradação ambiental sobre comunidades que dependem dos rios, das florestas e dos territórios tradicionais. Em agosto, o Cimi publicou uma reportagem sobre os impactos do Super El Niño no Amazonas, destacando as alterações nos ciclos de vazante e suas consequências para o abastecimento de água, a agricultura e a vida das comunidades.

A discussão sobre financiamento climático também se relaciona à autonomia dos povos indígenas e à participação direta das comunidades na definição de políticas e projetos que afetam seus territórios. No Fórum Social Pan-Amazônico, organizações indígenas defenderam o fortalecimento das redes de proteção territorial, a participação dos povos nas decisões e a articulação de respostas ao avanço de atividades extrativistas.

A experiência do intercâmbio realizado em Guaviare também levou ao seminário as experiências locais de organização comunitária, agroecologia e produção de alimentos. Para os participantes, a troca entre comunidades de diferentes países permitiu compartilhar desafios e formas de resistência construídas em contextos marcados por conflitos, mudanças ambientais e pressões sobre os territórios.

O próximo intercâmbio está previsto para outubro de 2027, no Brasil, dando continuidade à articulação entre comunidades e organizações que participaram das atividades na Colômbia.

Fonte: https://cimi.org.br/2026/09/seminario-internacional-amazonia-justica-climatica/