Altar em casa de liderança da Terra Indígena Jaragupa, em São Paulo 12.jun.2023 – Rubens Cavallari/Folhapress

  • Iniciativa marca mudança de perspectiva sobre papel dos povos indígenas na crise climática
  • Prática reconhece povos originários como guardiões tradicionais do território

Txai Suruí

Coordenadora da Associação de Defesa Etnoambiental – Kanindé

A São Paulo Climate Week (SPCW) 2026 está prestes a escrever um capítulo inédito na história dos grandes eventos climáticos globais. Pela primeira vez, uma Climate Week terá sua abertura oficial em um território indígena, com a realização de um Land Acknowledgment e um Hub na Tekoa Yvy Porã, na Terra Indígena Jaraguá.

O Land Acknowledgment é uma prática formal, adotada em países como Austrália, Canadá, Nova Zelândia e Estados Unidos, que reconhece publicamente os povos originários como guardiões tradicionais do território onde um evento acontece.

É um ato que simboliza respeito, memória, responsabilidade e o compromisso com uma relação mais justa entre a sociedade e os povos indígenas. Mas o que torna a iniciativa da SPCW verdadeiramente revolucionária é o lugar onde ela acontece. Não se trata de um reconhecimento feito em um auditório ou centro de convenções. Trata-se de levar o reconhecimento até o território, de sentar no chão onde os Guarani Mbya vivem e resistem há séculos, e ouvir de sua própria voz, o que significa ser guardião da terra.

Se o Land Acknowledgment é o gesto simbólico de abertura, o Hub Jaraguá é sua concretização prática. O Hub reunirá lideranças indígenas, especialistas, pesquisadores, representantes do poder público, empresas, organizações da sociedade civil e comunicadores. A pauta é ampla e urgente: justiça climática, proteção dos territórios, financiamento climático, biodiversidade, direitos dos povos indígenas e saberes ancestrais.

Mas o Hub Jaraguá propõe algo mais profundo: uma mudança de perspectiva. Durante décadas, o discurso ambiental predominante tratou os territórios indígenas como “áreas a serem preservadas”, frequentemente ignorando que são os próprios povos que ali vivem os agentes históricos dessa preservação. O Hub Jaraguá inverte essa lógica: reconhece que esses territórios são centros de produção de conhecimento, cultura, inovação e soluções para a crise climática.

A escolha da Terra Indígena Jaraguá como palco desses eventos carrega um peso histórico e político inegável. Jaraguá é um território Guarani Mbya na maior metrópole da América do Sul. Uma prova viva de que os povos indígenas também resistem e persistem nos centros urbanos, muitas vezes invisibilizados.

Realizar ali o primeiro Land Acknowledgment em território indígena e o Hub Jaraguá é afirmar, de forma inequívoca, que São Paulo é terra indígena. Num momento em que a crise climática se agrava e as respostas convencionais se mostram insuficientes, olhar para os povos indígenas não como símbolos, mas como protagonistas e detentores de soluções, é um passo necessário.

O Hub Jaraguá e o Land Acknowledgment na Tekoa Yvy Porã são marcos de um movimento mais amplo que reconhece que não haverá justiça climática sem justiça territorial, e não haverá futuro para o planeta sem o protagonismo daqueles que sempre cuidaram dele. Que essa seja a primeira de muitas iniciativas, não apenas em São Paulo, mas em todo o Brasil e no mundo. O caminho para um futuro sustentável passa pelo reconhecimento e pela valorização dos povos que nunca deixaram de cuidar da terra.

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/txai-surui/2026/07/climate-week-faz-historia-com-abertura-em-terra-indigena-jaragua-em-sp.shtml