- Relatório estimou 8.350 mortes indígenas, 20 vezes mais que os 434 registros oficiais, mas analisou apenas 10 das mais de 300 etnias do país
- População Waimiri-Atroari foi reduzida de 3.000 para 332 pessoas, entre 1972 e 1983, com a abertura da BR-174
Txai Suruí
Coordenadora da Associação de Defesa Etnoambiental – Kanindé
A CNV (Comissão Nacional da Verdade) foi um marco na justiça de transição brasileira, mas seu tratamento na questão indígena escancara uma ferida que o relatório final apenas arranhou. Romper com essa abordagem insuficiente exige um olhar crítico que expõe as raízes coloniais da violência, os silêncios institucionais e a urgência de uma verdade protagonizada pelos próprios povos.
Um dos pontos pouco explorados é a sub-representação dos indígenas no relatório da CNV, que estimou 8.350 mortes (20 vezes superior aos 434 registrados), mas analisou apenas 10 das mais de 300 etnias do país. A comissão reconhece que o número real é impossível de calcular. No entanto, essa grande diferença escancara que a violência contra os indígenas ficou em segundo plano, em vez de ser o centro da verdade que eles queriam revelar.
Entre os símbolos mais brutais está o Reformatório Krenak. O ancião Oredes Krenak relatou à CNV que eram punidos por “coisas pequenas”, como recusar trabalhos forçados, não executar tarefas ou simplesmente produzir artesanato. Prisões, confinamento, restrição ao uso das línguas maternas e proibição de práticas culturais faziam parte de um sistema que visava não apenas o corpo, mas a alma das comunidades. Esse caso, embora reconhecido posteriormente em anistia coletiva, revela a lógica do Estado tutelar que a CNV tratou como desvio.
Essa perspectiva deve avançar para o conceito de genocídio cultural e epistemicídio. A violência não se limitou a assassinatos e remoções forçadas, atingiu a memória, a língua e a transmissão de saberes.
Os Aikewara (Suruí do Pará), por exemplo, foram coagidos a atuar como guias na repressão à Aikewara, testemunhando torturas e mortes enquanto sofriam ocupação militar e escassez de alimentos. Mesmo com a anistia individual em 2014, seguem reivindicando reparação coletiva e territorial. Já os Waimiri-Atroari viram sua população ser reduzida de 3.000 para 332 pessoas, entre 1972 e 1983, com a abertura da BR-174. Um genocídio que sobreviventes, em relatos da década de 1980, resumiram na pergunta: “Por que os não indígenas mataram nossa gente?”.
O relatório da CNV apontou a falta de demarcação como raiz, mas é preciso criticar a lógica dos povos indígenas como “empecilho ao progresso”, como no exílio forçado dos Katxuyana, Kahyana e Yatxkuryana na Missão Tiriyó, que rompeu desde a organização social, transmissão de conhecimentos, relação com a floresta a espiritualidade. Violências que a verdade oficial mal registra.
Diante dessas lacunas, a reivindicação por uma CNIV (Comissão Nacional Indígena da Verdade), formalizada no requerimento nº 86/2026, apresentado pela deputada Sônia Guajajara (PSOL-SP) é um passo necessário.
A CNV foi marco, mas limitada e contraditória enquanto não romper com essa abordagem insuficiente. Investigar responsabilidades, localizar desaparecidos, registrar impactos territoriais e formular recomendações para reparação integral não é apenas uma dívida histórica, é uma emergência civilizatória que exige que a verdade sirva para transformar e não apenas para registrar a persistente injustiça contra os povos originários.
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/txai-surui/2026/07/comissao-da-verdade-registra-genocidio-indigena-mas-analise-e-insuficiente.shtml
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