Posicionamento de organizações indigenistas, indígenas e socioambientais sobre o 2º turno das eleições

As eleições do próximo dia 25 de outubro de 2026 definirão os rumos do país nos próximos anos e terão impactos concretos sobre a vida da população brasileira, seus direitos, seus territórios e suas possibilidades de construir projetos de futuro.

Mais do que uma disputa entre dois candidatos, o segundo turno coloca em debate concepções distintas sobre democracia, soberania nacional, participação social, diversidade, direitos humanos e proteção socioambiental. O que nos ameaça no segundo turno do pleito de 2026 é uma visão de mundo que  incentiva a violência política, o autoritarismo, a intolerância à diversidade étnica, religiosa, sexual e cultural, a exploração predatória de recursos naturais, além do descaso com as demandas sociais das populações mais vulnerabilizadas. 

A candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República se apresenta como continuidade do projeto político do governo de Jair Bolsonaro (2019–2022). Por isso, consideramos importante recuperar alguns dos principais acontecimentos daquele período e refletir sobre seus impactos.

Participação social e democracia

No início de seu mandato, o então presidente Jair Bolsonaro excluiu ministérios. Trabalho, Cultura, Esportes, Segurança Pública e outros passaram a não existir ou foram incorporados a outras pastas, reduzindo assim o potencial de planejamento e execução de ações e elaboração de políticas públicas nessas áreas. 

Nesse escopo de mudanças e como um de seus primeiros atos, passou a demarcação de terras dos povos indígenas da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) para o Ministério da Agricultura e Pecuária, configurando um evidente conflito de interesse. A mudança foi posteriormente revertida, mas evidenciou uma concepção equivocada de política indigenista que gerou forte oposição das organizações indígenas e da sociedade civil.

A demarcação das terras indígenas é um direito constitucional e uma medida essencial para prevenir conflitos fundiários e garantir a proteção dos territórios. Sua efetivação, com a participação dos povos indígenas e o respeito à sua autonomia, é indispensável à construção de soluções duradouras para a questão fundiária no Brasil. Defendemos o direito desses povos ao desenvolvimento socioeconômico, conforme seus próprios projetos de futuro e de forma cultural e ambientalmente sustentável.

Além das mudanças na política indigenista, também paralisou conselhos como os de Meio Ambiente (Conama), de Direitos da Pessoa com Deficiência (Conade) e de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), retirando a participação da sociedade civil no controle social dessas frentes de atuação.


Neste sentido, o próprio Flávio Bolsonaro já declarou que pretende revisar o papel do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e criar uma nova política ambiental, além de não demarcar territórios indígenas. 

Povos indígenas, territórios e meio ambiente

Tanto na Funai quanto em outros órgãos de governo, nomeou gestores pouco qualificados para o cumprimento de suas atribuições. Nomeou um anti-ambientalista para o Ministério do Meio Ambiente, que aproveitou uma pandemia para “passar a boiada” e afrouxar a robusta normativa ambiental brasileira. Além disso, nomeou para a presidência da Funai uma figura contrária aos direitos indígenas, posteriormente condenada por denunciação caluniosa, por utilizar o cargo para instaurar inquéritos sem fundamento legal contra servidores e indígenas, com o objetivo de retaliá-los e pressioná-los a viabilizar o licenciamento ambiental das obras do Linhão de Tucuruí. Vale lembrar, inclusive, que foi nesse contexto que os indigenistas Maxciel Pereira dos Santos e Bruno Pereira, além do jornalista Dom Phillips, foram assassinados no Amazonas, em 2019 e 2022, respectivamente.

Isso somado ao sucateamento dos órgãos ambientais, com redução histórica no número de servidores e de recursos disponíveis, resultando no aumento da violência no campo, do desmatamento, que alcançou 31 mil km² até 2022, e da degradação em grandes escalas, como a dos incêndios no Pantanal em 2020. Os incêndios poluíram o ar em diversas regiões do país naquele ano.

Nos territórios indígenas, esse contexto esteve associado ao avanço de invasões, garimpo, desmatamento e outras formas de pressão sobre as terras indígenas. A proteção territorial e o reconhecimento dos direitos constitucionais dos povos indígenas são compromissos que não podem ser tratados como obstáculos ao desenvolvimento, mas como parte fundamental da construção de um país socialmente justo e ambientalmente sustentável.

Educação e cultura

Na Educação, o governo de Jair Bolsonaro teve um revezamento de cinco ministros e total instabilidade. A educação básica teve os menores orçamentos da década. Houve baixa nos indicadores de ensino em todo o país e as universidades ficaram totalmente sucateadas, sem condições mínimas de funcionar.

As artes e a cultura foram impactadas diretamente no governo Bolsonaro por conta da extinção do Ministério da Cultura e do corte de 63% dos recursos, resultando em uma drástica redução de fomento a projetos culturais, e em uma série de censuras protagonizadas pelo governo, somando 192 casos entre 2020 e 2022.  Tais medidas reforçam a máxima de que desestimular a cultura é também um projeto político de incentivo à ignorância, de restrição ao lazer, à economia de pequenos e médios e à expressão de liberdade. 

Saúde e o impacto da pandemia

Durante o governo Jair Bolsonaro, houve grande instabilidade no Ministério da Saúde, inclusive com a saída de dois ministros em meio a divergências relacionadas à condução da resposta à pandemia. O governo também adotou posições contrárias a medidas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), demorando a viabilizar a vacinação e propagando ainda a desinformação, inclusive lidando de maneira jocosa com os enfermos. Até 2021 pelo menos 120 mil mortes poderiam ter sido evitadas. De 2020 até o final de 2022 foram 693.853 óbitos.

Os efeitos da crise sanitária e da má gestão também ultrapassaram a própria pandemia. A mortalidade materna aumentou 77,38% em 2021 (comparado a 2018). No mesmo ano, também cresciam em 16,24% as internações de crianças por desnutrição. A insegurança alimentar atingiu, em algum grau, 61,3 milhões de pessoas no Brasil. Em 2022, o país voltou ao Mapa da Fome, após ter saído dessa condição em 2014, durante o governo da ex-presidenta Dilma Rousseff. A superação desse cenário foi novamente alcançada em 2025, no terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Direitos das mulheres e violência

A avalanche de violências foi incentivada de diversas maneiras no governo de Jair Bolsonaro, que não apenas cometeu graves ofensas a mulheres, mas cortou 90% dos recursos de combate à violência contra a mulher em seu governo. Sob sua gestão, os casos de feminicídio cresceram e chegaram à média de quatro mulheres mortas por dia.

Em paralelo com todas essas ações que causam escassez e que contrariam o direito à vida, o governo de Jair Bolsonaro atuou paulatinamente pela flexibilização da política de armas, pauta também defendida pelo filho Flávio. A defesa das armas se tornou símbolo e incentivo explícito à violência. 

Que país queremos construir?

A democracia significa também garantir a participação da sociedade nas decisões públicas, respeitar a diversidade dos povos e comunidades, proteger defensoras e defensores de direitos humanos, evitar ameaças a comunicadores e jornalistas, assegurar os direitos territoriais dos povos indígenas, extrativistas e quilombolas e manter políticas públicas capazes de enfrentar as desigualdades sociais e ambientais.

O segundo turno é, portanto, um momento de reflexão sobre os caminhos que queremos para o Brasil. É fundamental que cada eleitora e cada eleitor conheça as propostas e o histórico dos dois candidatos em disputa e considere seus impactos sobre a democracia, os direitos humanos, os povos e territórios e a proteção da vida.

Diante do risco de voltarmos a sofrer tantas consequências em diversas esferas, lembramos que o dia 25 de outubro é o momento também de participar da construção do país que queremos para o presente e para as próximas gerações. Faça a escolha que possibilite a prosperidade e bem viver do coletivo. Seja você também um agente de mudança para o futuro do país. Vá às urnas! 

Assinam esta carta:

  1. Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas (Abrinjor)
  2. Associação Agroextrativista de Auati-Paraná (AAPA)
  3. Associação dos Comunitários e Indígenas que Trabalham com o Desenvolvimento Sustentável do Município de Jutaí (ACJ)
  4. Associação Indígena do Povo das Águas (AIPA)
  5. Associação do Povo Tâkuna do Rio Xeruã (Aspotax)
  6. Associação do Povo Deni do Rio Xeruã (Aspodex)
  7. Associação do Povo Indígena Mura (APIM)
  8. Associação dos Produtores da Reserva Extrativista do Rio Jutaí (Asproju)
  9. Associação Thutalinãnsu
  10. Associação do Povo Indígena Apurinã da Terra Indígena ITIXI MITARI (APIATI)
  11. Associação dos Trabalhadores Rurais de Juruá (Astruj)
  12. Associação Terra Indígena Xingu (ATIX)
  13. Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab)
  14. Conselho Indigenista Missionário (CIMI)
  15. Conselho dos Povos Indígenas de Jutaí (Copiju)
  16. Coletivo do Pirarucu
  17. Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso (Fepoimt)
  18. Federação das Organizações e Comunidades Indígenas do Médio Purus (Focimp)
  19. Federação dos Manejadores e Manejadoras de Pirarucu de Mamirauá (Femapam) 
  20. Fórum Popular Socioambiental de Mato Grosso (Formad) 
  21. Katahirine – Rede Audiovisual das Mulheres Indígenas 
  22. Instituto Indígena Força Fé e Esperança 
  23. Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)
  24. Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (Opi)
  25. Observatório Socioambiental de Mato Grosso (Observa-MT)
  26. Operação Amazônia Nativa (OPAN)
  27. Organização Geral dos Mayuruna (OGM)
  28. Rede Juruena Vivo

Brasil, 20 de outubro de 2026.

Fonte: https://amazonianativa.org.br/2026/10/20/2o-turno-uma-escolha-sobre-democracia-direitos-e-politicas-socioambientais/