Preparativos para a grande festa Bani Vadanaha. Foto: Bruno Kelly/OPAN
Dafne Spolti/OPAN
Relato do indigenista da OPAN, Felipe Rios, sobre o ritual Bani Vadanaha, realizado na Terra Indígena Deni (AM) após 20 anos
Os Deni realizaram entre 7 e 11 de julho a festa Bani Vadanaha, na Terra Indígena Deni, aldeia Boiador, no rio Xeruã, após 20 anos desde que ocorreu a última vez. O acontecimento, que envolveu um longo período de preparativos, tem importância política relevante para o povo, pois é quando as pessoas fortalecem e formalizam amizade e compromisso de companheirismo entre si até o resto da vida. Leia abaixo o registro da festa nas palavras do indigenista Felipe Rios.
Salve, salve companheir@s!
Confesso que ainda tenho certa dificuldade em registrar a mim mesmo em fotografias. Talvez por me sentir um caipira nas redes sociais. Mas tenho um hábito incansável de registrar muitas lembranças na memória, no corpo e no afeto.
Os últimos dias me proporcionaram uma das experiências mais profundas que vivenciei nos últimos tempos. Ter a oportunidade de participar de um ritual que há tantos anos não era realizado, pertencente a uma cultura ancestral que resiste ao tempo, é um privilégio impossível de medir em palavras. Fui acolhido, cuidado, presenteado, e acima de tudo, recebido como alguém que podia compartilhar, ainda que por um breve instante, um pedaço de história.

O povo Deni transborda alegria, acolhimento, generosidade e não consigo descrever mais adjetivos, porque ainda está sendo decantada a força da pressão em que ventila muita coisa em minha mente. Há humor nos encontros, delicadeza nos gestos e uma dedicação admirável em cada detalhe dos colares e das celebrações. As mulheres cantam de uma forma que várias vezes arrepiava a alma e os olhos lacrimejavam. Nos mais velhos, a disciplina caminha ao lado da sabedoria (máximo respeito ao Dr. Barros). Em alguns jovens, ela vai florescendo como continuidade de um legado.
O espírito de solidariedade que testemunhei, encheu meu peito de esperança, que, confesso, às vezes me sentir tão distante dela.
Ali, o coletivo é prática cotidiana. É forma de existir. Abro um parêntese aqui para citar apenas um de vários exemplos: saí para pescar com Manu e outros Deni. Não pesquei nem um galho ou pedaço de pau sequer, nem os lambaris me fizeram a caridade, rsrs. Quando retornamos para a aldeia, cada Deni com o seus paneiros cheios de peixes repartiram tudo igual. Sem querer saber quem pegou o que, quantos, e para quem estava doando. Voltei para o alojamento cheio de peixes e anestesiado com o registro. Essa cena eu jamais irei esquecer.

Celebrar junto deles aquilo que lhes pertence, respeitando seus tempos, seus símbolos e sua tradição, foi uma honra que levarei comigo para sempre.
Em retorno para casa lento, levo muito mais do que lembranças: levo um nome Deni, presentes Deni, sorrisos e abraços sinceros, algumas palavras da língua Deni e, principalmente, um respeito imenso por um povo que atravessou tantas tentativas de apagamento, mas que segue, preservando sua cultura, sua dignidade e seu profundo respeito pela vida.
Meu agradecimento especial ao Renatinho, por abrir esse caminho e me permitir viver o Bani Vadanaha. Agradeço também a Karina, o Pé Embaixo, a Alessandra e o Manoel, por me temperarem com tantos acolhimentos, ensinamentos, tanto carinho e muitas gargalhadas. A minha gratidão ao povo Deni, por confiar e compartilhar um pouco de suas histórias comigo.

Espero, por desejo meu e convite deles, voltar ao território outras vezes, não apenas para rever pessoas, mas para reencontrar um lugar que agora também mora em mim.
E, como diz a Márcia: que sigamos com a força e a teimosia necessária para fortalecer, encorajar e contribuir com a dignidade dos povos indígenas!
Sequimos 🏹
Fonte: https://amazonianativa.org.br/2026/07/31/a-festa-bani-vadanaha-do-povo-deni/
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