Vista aérea da aldeia Boiador, Terra Indígena Deni, no Amazonas, durante a celebração do Bani Vadanaha. Foto: Bruno Kelly/OPAN
Celebração tradicional é retomada pelo povo Deni do Xeruã após mais de duas décadas
Por Talita Oliveira | OPAN, a partir do relato dos indigenistas Raimundo Francisco, Karina Nymara e Alessandra Souza
Quando a caça chega, não chega sozinha. Com ela vêm a fartura do território, os cantos, as histórias, as saudades e, sobretudo, a oportunidade de criar e fortalecer vínculos afetivos perenes que atravessam gerações. É assim que o povo Deni do rio Xeruã retoma o Bani Vadanaha — “festa da caça”, em tradução literal —, uma das mais importantes expressões de sua cultura. Depois de mais de duas décadas sem ser realizada, a celebração voltou a reunir o povo entre os meses de junho e julho, na Terra Indígena Deni, no Amazonas.
O desejo de retomar a festa partiu dos mais velhos, que perceberam que muitos jovens, já com suas próprias famílias e assumindo responsabilidades comunitárias, ainda não haviam vivenciado o Bani Vadanaha. Era uma geração que não conhecia os cantos, os rituais e outros saberes que compõem a celebração, conhecimentos fundamentais para a continuidade da cultura Deni, para o fortalecimento dos vínculos comunitários e para a conexão com o território.
A decisão foi tomada coletivamente durante uma grande reunião, realizada em abril de 2025, na Aldeia Itaúba, com a participação de lideranças de todas as aldeias do território. Após as discussões, a proposta de retomada da festa foi aprovada por unanimidade. O encontro também definiu os rituais e cantos que fariam parte do Bani Vadanaha, além da divisão de tarefas e do calendário de preparação e realização da festa.
Vabishi Deni, importante liderança do povo Deni, conta que o Bani Vadanaha fazia parte da vida das comunidades e era realizado todos os anos no tempo de seus avós. Com o passar do tempo, a celebração passou a acontecer com intervalos maiores: a cada dois e, depois, quatro anos, até deixar de ser realizada. Há cerca de 20 anos, a festa foi retomada uma última vez, memória que Vabishi guarda até hoje.
“Foi quando conheci a carne de caça. Antes, eu só comia matrinxã. Agora fizemos uma grande luta para realizar novamente a festa, porque os mais velhos estão indo embora e, com eles, parte dos conhecimentos. Fizemos esse grande esforço para repassar esse conhecimento para os mais jovens”, explica.
Itavari: vínculos que atravessam gerações

Um dos momentos centrais do Bani Vadanaha é a formação dos itavari, relação equivalente ao compadrio, que estabelece um vínculo profundo entre duas famílias, baseado no companheirismo e no cuidado mútuo por toda a vida.
“Itavari significa a gente unir a nossa família com a do outro para formar uma grande família”, explica Pha’avi Deni, presidente da Associação do Povo Deni do Xeruã (Aspodex).
Para selar essa relação, uma longa caçada é cuidadosamente organizada. Parte dos itavari segue para a floresta em busca dos melhores alimentos, que serão oferecidos às famílias de seus pares. Na aldeia, os demais membros das famílias preparam uma diversidade de alimentos oriundos dos roçados e organizam a estrutura necessária para a celebração.
Ao redor desse vínculo, a festa reúne corridas, rituais, brincadeiras, cantos, pinturas, histórias, bebidas e alimentos, compartilhados dia e noite durante cerca de uma semana. A celebração completa, porém, é muito mais longa: começa com a formação dos itavari e termina com a brincadeira do shiri (abacaxi), estendendo-se por mais de 40 dias.
Na floresta, a grande caçada. Na aldeia, a preparação
Cinco grupos, formados por caçadores e suas famílias e reunindo cerca de 100 pessoas, permaneceram durante 18 dias em diferentes pontos da floresta para realizar a grande caçada e obter os animais que seriam oferecidos como alimento aos seus itavari. Instalados em grandes acampamentos, os grupos tinham uma coordenação e uma divisão de tarefas bem definidas. Enquanto os caçadores percorriam a mata em busca das melhores caças, outros integrantes das famílias permaneciam nos acampamentos, onde as carnes eram preparadas e defumadas continuamente, dia e noite.
O processo exigia atenção permanente. O fogo, mantido em baixa intensidade, não podia ser apagado e precisava ser manejado constantemente para garantir a conservação da carne, preservando sua qualidade e seu sabor. Todo o trabalho seguia as orientações da liderança mais velha, conhecida como Doutor Barros.
Tanto a caça quanto a preparação dos alimentos exigem conhecimentos acumulados ao longo de gerações. Na floresta, é preciso saber interpretar sons, cheiros e rastros, observar os sinais do céu e reconhecer os caminhos dos animais. Nos acampamentos, o domínio do fogo requer experiência e sensibilidade para mantê-lo na intensidade adequada durante todo o processo de defumação.
“É uma relação harmônica entre humanos e não humanos. Uma ecologia plural, uma relação íntima dos Deni com os seres que vivem no território. A vida vai correndo através da floresta e da água, de forma bonita e natural”, observa Karina Nymara, indigenista da Operação Amazônia Nativa (OPAN), que acompanhou a celebração junto aos Deni.

Enquanto os caçadores estavam na floresta, na aldeia Boiador a comunidade também se mobilizava. As tarefas incluíam o preparo de alimentos e bebidas, a construção de pontes e a abertura dos caminhos por onde os caçadores passariam ao retornar. A data da chegada, porém, não era anunciada: o retorno surpresa faz parte da própria celebração e marca um dos momentos de maior expectativa do Bani Vadanaha.
No encontro dos itavari, a grande festa
Já passava da meia-noite quando pequenos e distantes pontos de luz começaram a surgir na floresta. O silêncio que tomava a aldeia Boiador foi rompido pela voz de Doutor Barros, que, na língua Deni, narrava a jornada na mata e a chegada dos caçadores. Aos poucos, as luzes das lanternas nas dezenas de casas começaram a brilhar, e as pessoas vibravam, repetindo:
“Itavari! Itavari! Chegou meu itavari!”.

Ao redor da liderança, formou-se uma roda de pessoas que escutavam o relato com atenção. Nas cozinhas, um movimento intenso também começava: alimentos e bebidas eram preparados para serem oferecidos aos caçadores recém-chegados, que ainda permaneciam na margem da aldeia, aguardando o amanhecer. A partir daquele momento, a aldeia estava em festa.
Pela manhã, o primeiro movimento é a pintura corporal e a preparação dos adornos que acompanham os Deni na corrida que marca oficialmente o reencontro dos itavari. Crianças, homens e mulheres disputam uma corrida com seus itavari. O objetivo é que os itavari que estavam na floresta alcancem aqueles que permaneceram na aldeia e tomem para si o objeto que carregam nas mãos — um pequeno cocar ou uma flecha adornada, que representa o troféu.

Finalizada a corrida, todos se reúnem no terreiro da aldeia para celebrar a chegada das caças. Primeiro, os caçadores entregam às mulheres os kasinava, delicados pedaços de caça enfeitados com folhas. Na sequência, as caças, cuidadosamente armazenadas em belos cestos de folhas, chegam ao centro da aldeia e são recebidas por uma grande roda, que entoa o canto Bani Tamidi (canto da caça).

Depois de celebradas, cada caça é destinada à casa de seus itavari e, mais tarde, compartilhada no terreiro da aldeia, junto a outros alimentos, como banana, macaxeira, abacaxi, cará e farinha, além do kirihá, bebida fermentada feita com patauá e goma de farinha de tapioca. Noite adentro, o canto do Zazaha (madrugada) ecoa pela aldeia.

Nos quatro dias seguintes, a festa continua com brincadeiras como Manu (macaco cairara), Hizama (queixada) e Hava Pashu (cobra d’água), envolvendo crianças e adultos. À noite, a cantoria segue entoada na aldeia, alternando entre os cantos Zazaha e os Mishe Biriharu (cantos menores).
A hora do hehe (saudades)
Antes de retornar para suas aldeias, os Deni compartilham ainda a brincadeira do Shiri, que envolve uma intensa e divertida disputa por pedaços de cana-de-açúcar e abacaxi. Depois de muitas risadas e dias de celebração, chega a hora de voltar para casa.

Aos poucos, a quantidade de canoas atracadas na aldeia Boiador diminui. O movimento intenso de pessoas vai cessando, e o som dos motores das embarcações já se ouve de longe, nas curvas do Xeruã. É o hehe, a saudade que chega junto com a despedida.
Raízes do Purus
A retomada do Bani Vadanaha foi apoiada pelo projeto Raízes do Purus, realizado pela OPAN em parceria com a Petrobras. A equipe de indigenistas do projeto esteve presente durante toda a celebração, acompanhando os diferentes momentos da festa e fortalecendo, a partir dessa experiência, sua relação com o povo Deni e o entendimento sobre sua cultura.
Raimundo Francisco, indigenista da OPAN, destaca a importância da participação da equipe na retomada da celebração.
“Presenciando todo esse processo da festa e observando a relação do povo com a natureza e com as suas tradições, percebemos o quão forte a cultura Deni é”, reflete.
Fonte: https://amazonianativa.org.br/2026/09/24/bani-vadanaha-a-festa-da-caca-e-dos-vinculos-de-afeto/
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