Entrada da COP31, em Antalya, Turquia. Foto: Helena Corezomaé/OPAN

Em Antalya, grupo brasileiro reúne lideranças de diferentes biomas para conectar saberes ancestrais, formação territorial e articulação diplomática nas mesas de negociação da ONU

Por Helena Corezomaé/OPAN

Em 2026, participo pela primeira vez da reunião do Grupo de Trabalho Facilitador (FWG) da Plataforma de Comunidades Locais e Povos Indígenas (LCIPP), que acontece entre os dias 3 e 5 de novembro em Antalya, na Turquia. Já cobri a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), em Belém, e agora acompanho por dentro este espaço específico, que tem como função garantir que os direitos, a ciência ancestral e os conhecimentos dos povos originários e comunidades tradicionais sejam formalmente escutados e integrados às decisões globais sobre o clima.

Nesse espaço, encontrei outros oito parentes brasileiros, que chegaram aqui por diferentes trajetórias. No primeiro dia, reunidos em roda, o sentimento coletivo foi direto e unânime: “queremos transparência”. Naquele encontro entre nós, organizado em grupos por idioma, cada um colocou suas impressões, angústias, estratégias e visões de futuro.

Grupo de povos indígenas do Brasil na 16ª reunião do FWG/LCIPP. Foto: Helena Corezomaé/OPAN

A Plataforma de Comunidades Locais e Povos Indígenas foi concebida a partir do Acordo de Paris, em 2015, durante a COP21, com a missão de reconhecer, proteger e promover os saberes tradicionais nas ações de mitigação e adaptação climática. Seu Grupo de Trabalho Facilitador (FWG) atua como um dos Órgãos Constituídos (Constituted Bodies) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC), vinculado ao Órgão Subsidiário de Assessoramento Científico e Tecnológico (SBSTA). Na prática, o FWG é a instância implementadora das três funções da Plataforma (valorização do conhecimento, capacidade de engajamento e políticas e ações climáticas). 

Para compreender a relevância dessa atuação, vale observar a engrenagem das Conferências das Partes (COPs), que acontecem anualmente em um país selecionado por rodízio entre continentes. Com milhares de participantes, esses grandes eventos desdobram-se em duas arenas centrais: a Zona Azul, gerida pela ONU e restrita a delegados, negociadores e observadores credenciados, onde ficam os pavilhões, a sala de imprensa e as salas de negociação oficial, e a Zona Verde, um espaço aberto à sociedade civil e organizado pelo país-sede para exposições e debates ambientais e culturais.

Abertura da reunião do FWG/LCIPP em Antalya. Foto: Helena Corezomaé/OPAN

A articulação política, contudo, não se limita às semanas intensas da COP no fim do ano. Todos os anos, no mês de junho, acontece na Alemanha a Conferência de Bonn, sediada no World Conference Center. Vistas como “mini COPs”, as reuniões em Bonn reúnem o SBSTA e o Órgão Subsidiário de Implementação (SBI) para adiantar pontos técnicos e minutas de negociação. É justamente nesse percurso, entre a diplomacia em Bonn e a visibilidade das COPs, que os povos indígenas e as comunidades tradicionais do Brasil têm construído sua incidência política.

A trajetória de Luene Karipuna, do povo Karipuna do Amapá, reflete a complexidade de transitar entre o ativismo de base e as galerias multilaterais da ONU. Tendo começado a acompanhar a Plataforma na COP28, em Dubai, Luene detalha o aprendizado de dialogar com a diplomacia internacional. 

“Em um primeiro momento achei que seria uma coisa mais de movimento, que nem nas ruas, uma coisa mais de pulso, e depois a gente entende que é um espaço mais diplomático. Na maioria das vezes não vai ser como a gente espera, não é aquele pisão na porta que a gente está acostumado a fazer, aquela força política que é muito importante, mas acaba sendo um espaço da ONU em que a gente precisa se adequar a uma diplomacia que é necessária”, avalia.

Apesar da rigidez do formato, Luene enfatiza a necessidade de ocupar esses espaços para que a realidade dos biomas brasileiros guie a tomada de decisão global. “Nós, povos indígenas do Brasil, precisamos estar presentes porque nós temos experiências concretas e que já são realidades no nosso país e que precisam de alguma forma ser incorporadas nesse espaço e levadas para as outras Partes tomarem como experiência. Nossos territórios são os que mais preservam, são os que mais protegem e são a linha de frente. Então, nós estamos aqui para dizer que nossos territórios não podem só ser reconhecidos como soluções; nós queremos estar no centro do debate e nas tomadas de decisões nós mesmos”. 

Discussões no grupo de povos indígenas do Brasil na reunião do FWG/LCIPP, Luene Karipuna com a fala. Foto: Helena Corezomaé/OPAN

Para a jovem Taily Terena, da Terra Indígena Taunay Ipegue, acompanha os encontros do clima desde 2019, o ambiente multilateral pode ser árido e desafiador, exigindo resiliência.

A bancada brasileira presente na 16ª reunião do FWG reflete a diversidade dos biomas e das frentes de luta do país. Além de Luene e Taily, participam Hiparidi Toptiro, do povo A’uwe-Xavante (Terra Indígena Sangradouro), representando a Rede Cerrado; Marcelo Pataxó, da Aldeia Velha, é ativista do Manejo Integrado do Fogo; Maria Hidete Marinho Araújo, do povo Tariana (Rio Negro, Amazonas), é integrante da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e do GT de Clima da Rede de Cooperação Amazônica (RCA) desde a COP29. 

Gasparini Kaingang, do povo Kaingang (Terra Indígena Nonoai), participa como representante governamental pelo Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e atualmente é membro do FWG. Ianukula Kaiabi Suiá, vindo da Terra Indígena do Xingu (MT), do povo Kaiabi, representa a Rede de Cooperação Amazônica (RCA), articulação que reúne 14 organizações indígenas e indigenistas atuantes na Amazônia Legal desde 1996. Ianukula acompanha as agendas climáticas internacionais desde 2019 como integrante do grupo focal de clima da RCA, atuando nas reuniões do FWG/LCIPP e no Fórum Internacional dos Povos Indígenas sobre Mudanças Climáticas (Caucus Indígena / IIPFCC), cujos alinhamentos ocorrem historicamente durante as prévias de Bonn e nas COPs.

Completa a representação, Djalma Aranã Caboclo, comunicador do povo Aranã, que traz a perspectiva dos processos de emergência étnica e da luta dos povos e comunidades tradicionais do Vale do Jequitinhonha, fortalecendo a visibilidade das juventudes territoriais.  

Nas discussões em Antalya, a bancada brasileira tem compartilhado conquistas práticas construídas nos territórios e políticas públicas recém-consolidadas no Brasil. Entre os exemplos destacados estão as oficinas descentralizadas do ciclo COP Parente, promovidas pelo MPI em parceria com organizações originárias, que levaram formação política e climática a lideranças estaduais, e as jornadas de capacitação territorial como os programas Karikatu de comunicação e incidência. Ao conectar essas redes de base ao cenário multilateral, a delegação reafirma que o conhecimento ancestral dos territórios não deve ser mero elemento contemplativo nas Nações Unidas, mas o que move as soluções para o futuro do planeta. 

Fonte: https://amazonianativa.org.br/2026/11/04/da-forca-dos-territorios-as-mesas-da-onu-conheca-a-incidencia-dos-povos-indigenas-do-brasil-na-plataforma-lcipp-da-convencao-do-clima/