Foto: Michel de Andrade / OPAN

Ferramenta desenvolvida por comunidades indígenas de Mato Grosso registra mudanças nos ciclos da natureza e orienta a segurança alimentar do território

Quando a siriema canta no Cerrado ou o inseto encapadinho faz sua revoada na mata, os antigos já sabiam: era hora de preparar a terra. Tradicionalmente, esses marcadores naturais orientam o ritmo da vida dos povos povos Apiaká, Kawaiwete e Munduruku, que hoje vivem na Terra Indígena (TI) Apiaká/Kayabi, no norte de Mato Grosso. No entanto, o avanço das mudanças climáticas, a pressão das queimadas e do desmatamento no entorno têm desregulado os ciclos da natureza. Para responder a essa crise, os três povos construíram calendários ecológicos e definiram suas próprias estratégias de adaptação.

A iniciativa, feita em parceria com a Operação Amazônia Nativa (OPAN), com apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS) e Fastenaktion, nasceu da demanda da juventude durante oficinas de justiça climática. Entre o final de julho e o início de agosto, foram realizadas atividades nas aldeias Mayrob (Apiaká), Tatuí (Kawaiwete) e Nova Munduruku (Munduruku) para promover diálogos entre anciãos, mulheres e jovens.

Para traduzir conceitos científicos globais em realidades comunitárias, os encontros adotaram metodologias ativas, como a “Árvore do Conhecimento”, e rodas de conversa intergeracionais. Ao confrontarem as memórias dos mais velhos com as observações dos últimos cinco anos, os três povos registraram transformações severas na dinâmica territorial, evidenciando como a desregulação do clima afeta cada comunidade de forma específica.

Foto: Michel de Andrade / OPAN

Na Aldeia Mayrob, o povo Apiaká diagnosticou que o aumento extremo das temperaturas, as secas severas e as queimadas recorrentes têm alterado profundamente a rotina comunitária. Entre os impactos práticos, relataram a perda frequente de roças de mandioca devido ao calor no solo, a diminuição de peixes de grande porte como o pacu e o jaú, e da produção de castanhas nos últimos anos.

Diante da baixa presença de anciãos na aldeia, os jovens dividiram-se em grupos de pesquisa para entrevistar os mais velhos sobre festas, caça, coleta e roça, revelando que a escassez do tracajá e do açaí compromete diretamente a realização de rituais e celebrações.

Já na Aldeia Tatuí, os Kawaiwete destacaram o temor diante de tempestades fora de época, ventos destrutivos e um calor intenso que seca a umidade da floresta e reduz a sombra das árvores. Na prática, a comunidade enfrenta o ataque de pragas e animais como catetos às roças, a perda de variedades tradicionais de sementes de milho, amendoim, batata e cará, e o afastamento da caça para áreas fora do território.

A desordem temporal afetou também os marcadores biológicos: a floração de espécies e o canto de aves, que antes guiavam os momentos exatos de plantio e colheita, já não coincidem com o ritmo das chuvas.

Por sua vez, o povo Munduruku, reunido na Aldeia Nova Munduruku, associou o desequilíbrio climático ao desmatamento sistemático e à emissão de fumaça e gases por indústrias fora do território. As observações em campo apontam para o atraso nas grandes cheias do rio, a redução drástica de frutos como o açaí e o caju-açú em decorrência dos incêndios florestais, e a seca de igarapés. Esse cenário de escassez alimentar gerou o esvaziamento de celebrações tradicionais, a exemplo da Manikwera, ritual que exige a fartura combinada de mandioca-doce, cará-roxo e milho-fofo para a fabricação da xixá.

Foto: Mariana Lacerda / OPAN

Para Cezarina Kre,y Leite Tukumã, do povo Kawaiwete, a dimensão pedagógica e cultural desse processo vai muito além do diagnóstico ambiental, consolidando uma ponte fundamental entre as gerações.

“A construção do calendário tradicional representa um momento de profundo diálogo, aprendizagem e troca de conhecimentos entre diferentes gerações. Durante esse processo, os anciãos e as anciãs compartilham com os mais jovens os saberes ancestrais ao longo de suas vidas, transmitindo conhecimentos sobre os ciclos da natureza, os sinais do clima, os períodos de plantio e colheita, a observação das estrelas, o comportamento dos animais, o canto dos pássaros, a chegada das chuvas, a vazante e a cheia dos rios, bem como as práticas culturais que orientam a vida do povo Kawaiwete em harmonia com o território”.

Soluções que nascem do território

Apesar das pressões externas, as oficinas demonstraram que os povos da TI Apiaká-Kayabi não são apenas espectadores da crise climática, mas formuladores de soluções sustentáveis. Durante os trabalhos, cada povo detalhou os problemas e apresentou propostas de adaptação.

Entre as ações prioritárias está a criação de casas comunitárias de sementes para recuperar variedades perdidas de milho e feijão-fava, por meio de intercâmbios com os povos do Xingu, Rikbaktsa e Myky, a implantação de roças consorciadas com a floresta e a proteção física das plantações contra o ataque de animais. Paralelamente, também foi proposto a construção de viveiros comunitários para a produção de mudas de açaí, buriti, patuá, cumaru e plantas medicinais, gerando renda e recompondo áreas atingidas pelo fogo.

No âmbito do manejo e da segurança alimentar, ressaltaram a importância de estudos de viabilidade para a implantação de piscicultura em tanques e criadouros comunitários de espécies como paca e tracajá, reduzindo a pressão sobre a fauna silvestre debilitada. O plano contempla ainda o fortalecimento das brigadas indígenas de incêndio com formação continuada, equipamentos apropriados, remuneração e apoio logístico para o combate ao fogo durante o período de estiagem.

De acordo com a indigenista Liliane Xavier, que acompanhou as atividades, o trabalho de campo reforçou que, embora a crise ambiental tenha causas externas, a gestão territorial em espaços multiétnicos só se consolida quando respeita os saberes e as visões de mundo de cada povo.

“A imersão no território permitiu constatar que os povos Apiaká, Kawaiwete e Munduruku possuem uma percepção aguçada das transformações climáticas e temporais em curso, percepção que se torna ainda mais evidente quando comparada ao longo do tempo. Com os diálogos, tornou-se claro que, embora muitos dos problemas enfrentados não tenham origem interna, as soluções só se tornam sustentáveis quando emergem do próprio território, de quem o conhece, o vive e com ele se relaciona diariamente”, declarou.

As matrizes de adaptação geradas servirão agora como instrumentos de incidência política junto ao poder público, órgãos indigenistas e parceiros ambientais, integrando-se à construção do Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da Terra Indígena Apiaká-Kayabi.

Fonte: https://amazonianativa.org.br/2026/09/22/frente-a-crise-climatica-povos-apiaka-kawaiwete-e-munduruku-unem-saberes-para-criar-calendarios-ecologicos/