- Feminismo muitas vezes fala por nós, mas não nos inclui
- Erika Hilton me representa porque sua voz ecoa as nossas dores e urgências
Txai Suruí
Coordenadora da Associação de Defesa Etnoambiental – Kanindé
A filósofa Simone de Beauvoir nos entregou uma das chaves mais poderosas para entender a opressão de gênero: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”. Com essa frase, ela desmonta a ideia de que ser mulher é um mero dado biológico. A mulher não é definida apenas pela biologia; é a cultura, a história e a sociedade que constroem os comportamentos, as funções e os pensamentos que nos são impostos ao longo da vida.
Se ser mulher é um “tornar-se” constante, uma construção social, como podemos aceitar um feminismo que exclui justamente aquelas que lutam para existir? A transfobia é a prova brutal de que a sociedade tenta negar a algumas o direito de se tornarem o que são.
No Brasil, país que mais mata pessoas trans no mundo, as mulheres trans são as que mais sofrem com a violência. Dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) mostram que, ano após ano, o Brasil lidera os rankings de assassinatos dessa população. São corpos que não suportam a rejeição familiar, a expulsão das escolas e a falta de oportunidades, vítimas de um ódio que tenta anular sua existência.
Por tudo isso, um feminismo que exclui nunca nos interessou. Como mulheres indígenas, sabemos o que é ser invisibilizadas por um movimento que muitas vezes fala por nós, mas não nos inclui. Não aceitamos que nossas dores sejam diferentes ou menores. Quando tentam desqualificar a deputada Erika Hilton, questionando sua legitimidade para presidir a comissão de mulheres, é a nossa própria luta que está sendo atacada.
Enquanto perdem tempo tentando deslegitimar uma mulher trans, as mulheres indígenas enfrentam a falta de políticas públicas que afetam o futuro de nossos filhos. Na Terra Indígena Jaraguá, a escola está interditada por problemas estruturais graves. A promessa de uma nova escola, que já deveria estar pronta, transformou-se em um elefante branco de mais de R$ 3 milhões, deixando nossas crianças sem aula e sem perspectiva.
Ao mesmo tempo, a luta se estende à defesa do nosso território, que é o nosso corpo.
Há duas semanas mulheres indígenas do Xingu, de várias etnias, ocupam a sede da Funai em Altamira, no Pará. Resistem bravamente contra a instalação de uma enorme mina de ouro na Volta Grande do Xingu. O projeto dessa gigantesca mineradora canadense recebeu licença sem a realização do consentimento livre, prévio e informado, um direito fundamental garantido pela Constituição e por tratados internacionais.
Lutamos para que nosso rio, nosso sustento e nossa vida não sejam destruídos pelo garimpo e pela mineração.
É por tudo isso que Erika Hilton nos representa. Ela me representa porque sua voz no Parlamento ecoa as nossas dores e as nossas urgências. Ela luta contra a violência que mata mulheres trans, contra o abandono das periferias e pela demarcação dos territórios indígenas. Enquanto tentam reduzi-la a um debate biológico, ela está na linha de frente defendendo causas que são vitais para todas nós.
Erika Hilton sempre será mulher, como ela mesmo afirmou. E, como mulher, ela carrega conosco a luta por um país onde todas possam, de fato, “tornar-se” quem são, com dignidade, terra e educação.
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/txai-surui/2026/03/sempre-sera-mulher.shtml
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