A estilista Day Molina, 36, indígena dos povos Aymará e Fulni-ô, em seu ateliê em São Paulo – Adriano Vizoni/Folhapress
- Bisavó e avó costureiras inspiraram Dayana Molina, que acredita no poder da união da equipe
- Grife Nalimo usa tecidos naturais, como o linho, e reaproveita resíduo têxtil em novas peças e acessórios
São Paulo
Para a niteroiense Dayana Molina, 36, tornar-se estilista foi algo natural. Com bisavó e avó costureiras, ela cresceu perto de máquinas de costura no Recife e aprendeu rapidamente o ofício. Mas ter sido natural não quer dizer que foi fácil.
“Elas eram mulheres que costuravam no sertão de Pernambuco por sobrevivência e não entenderam quando eu decidi que essa seria a minha escolha”, diz Day, como é conhecida. “Foi um chamado ancestral e quis dar continuidade a esse legado, mas sem permanecer sangrando no processo.”
De origem Aymará e Fulni-ô, Day ingressou no design de moda pela Universidade de Buenos Aires e estreou como figurinista aos 17 anos. No entanto, o início da carreira revelou duas barreiras: o mercado rejeitava sua defesa pelas pautas indígenas e ela própria não conseguia se identificar com aquele ambiente.
“A colonização colocou nós, indígenas, como uma sociedade não organizada, mas é o contrário. A selvageria começou na colonização”, afirma ela, que criou o termo #DecolonizeAModa.
Day não sabia exatamente o que iria fazer profissionalmente, mas algo dentro dela dizia “comece”. Comprou alguns metros de tecido e criou, em 2015, a Nalimo, marca que trabalha majoritariamente com mulheres, indígenas, imigrantes e negras. Das cinco pessoas em seu ateliê, apenas o marido de Day é homem, e as 15 associações da qual a marca é parceira são lideradas por mulheres.
Além de promover igualdade de gênero e raça, a Nalimo é comprometida com o ambiente. Usa recursos naturais de forma sustentável, como o linho, e reaproveita todo o resíduo gerado no ateliê, produzindo novas peças e utilitários como embalagens e acessórios.
Day foi uma das entrevistadas para a pesquisa “Imaginário de Poder das Mulheres Brasileiras”, feita pelo Estúdio Clarice, organização de inteligência e criação focada em investigar e fomentar o poder feminino por meio de pesquisas e produções audiovisuais.
Com sua Nalimo, a estilista e empresária é uma amostra de uma das conclusões do levantamento: a de que poder que não transborda não é poder, é acúmulo. Para 27% das 1.059 mulheres que participaram do levantamento, por exemplo, ser poderosa é realizar algo com propósito; e, para 21%, é ajudar alguém.
Day acredita nas duas coisas. “Não gosto de ser chamada de chefe, me identifico mais com a ideia de ser uma liderança, uma diretora criativa”, afirma.
Quando o assunto é ajudar o outro, ela vê isso quase como uma missão. “O capitalismo nos pede tempos muito acelerados, mas eu construo a minha jornada e a de quem está comigo em outro ritmo.”
Para a estilista, é mais importante uma funcionária levar o cachorro ao veterinário do que entregar uma demanda sem atraso. Ou fazer a equipe toda parar para cantar parabéns para uma colega que faz aniversário naquele dia. “A gente precisa ter a compreensão de que aquilo é importante e ponto final.”
Foi trilhando sua trajetória com esse pensamento que Day criou, em 2021, a Aldeia Criativa Design do Futuro, primeira escola de design idealizada e voltada a indígenas, oferece cursos e capacita pessoas para o mercado da moda.
No ano seguinte, outro marco em sua carreira: desenhou um vestido apresentado no Met Gala, evento em prol do Metropolitan Museum of Art, em Nova York, que costuma reunir looks de marcas como Chanel e Louis Vuitton.
De passo em passo, a Nalimo de Day chegou a Paris no ano passado. Em setembro, a marca desfilou no Runway Vision, no primeiro dia da Semana de Moda da capital francesa.
Mas, para a estilista, luxo mesmo foi quando ela voltou e sentou com a equipe para comer pamonha e tomar café. “Quero que a empresa cresça muito e de forma muito especial e saudável. Não quero perder esse sentimento de estar juntas. São coisas que às vezes a gente acha que é besteira, mas é onde mora a grandeza.”
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/05/estilista-indigena-cria-marca-propria-desafia-padroes-e-chega-a-passarela-de-paris.shtml
Comentários