O seminário foi um espaço de escuta, acolhimento e fortalecimento coletivo, onde histórias de vida, desafios e sonhos foram compartilhados entre gerações.
Em meio às dificuldades enfrentando o período chuvoso, estradas cheias de lama no lavrado da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, jovens de diferentes regiões de Roraima e representantes de outros estados do Brasil e parceiros se reuniram na comunidade indígena Camará, na região Baixo Cotingo, para refletir sobre um tema cada vez mais urgente: a saúde mental da juventude indígena.
Realizado pelo Departamento da Juventude Indígena Gabriel Ferreira Rodrigues, do Conselho Indígena de Roraima (CIR), o II Seminário Estadual sobre Saúde Mental e Bem Viver da Juventude Indígena aconteceu entre os dias 28 de maio a 01 de junho de 2026, reunindo lideranças tradicionais, jovens, crianças, profissionais indígenas, parceiros e apoiadores em torno do tema “Superando Meus Medos, Curando Minhas Dores”.
O encontro reuniu aproximadamente 250 jovens de diferentes povos para fortalecer as redes de cuidado, identidade e bem viver. O seminário foi um espaço de escuta, acolhimento e fortalecimento coletivo, onde histórias de vida, desafios e sonhos foram compartilhados entre gerações.
Destacando a coletividade indígena, o evento iniciou com cantos e danças tradicionais feita por estudantes e comunidades do polo Camará da Região Baixo Cotingo.
A programação contou com as boas-vindas feito pelo coordenador da juventude da região Baixo Cotingo e o Tuxaua da comunidade Camará a todos participantes presentes, com o momento histórico da entrega da chave da casa para a coordenação executiva do CIR e ao departamento da Juventude, que seguiram a pauta com as apresentações das coordenações de juventudes e as regiões presentes.
Participaram do seminário, lideranças tradicionais, jovens e crianças das regiões: Serras, Surumu, Amajarí, Raposa, Tabaio, Itacutú, Serra da Lua, Alto Cauamé, Murupú, Baixo Cotingo, parceiros e convidados presentes: Coordenação executiva do CIR, UNICEF, COIAB, DSEI – Leste RR, Diocese de Roraima, FUNAI, Conselho Regional de Psicologia – 20ª Região/AM, RR (CRP 20) e Fundação José Luiz SETUBAL,













Momentos durante o II Seminário de Saúde Mental na Comunidade Indígena Camará. Fotos: Daniel Matos/comunicador da Rede Wakywaa – Região Itacutú
No painel sobre saúde mental da juventude indígena, e debate sobre desafios enfrentados nos territórios, coordenadores regionais de juventudes e representantes das regiões, relataram as dificuldades e a falta de apoio das lideranças e dos familiares, para um melhor acolhimento da juventude dentro das famílias, comunidades e das regiões.
Participando pela primeira vez do Seminário de Saúde Mental e Bem Viver da Juventude, a jovem Solianny Almeida, da comunidade indígena Canavial, destacou a importância de espaços de acolhimento para os jovens que enfrentam dificuldades emocionais e, muitas vezes, não encontram com quem conversar em suas comunidades.
“Na comunidade onde eu moro existem muitas dificuldades, principalmente em relação ao transporte e ao apoio para que a juventude participe desses encontros. Quando os jovens têm a oportunidade de estar junto com outras juventudes, conhecer outras realidades e trocar experiências, eles se sentem motivados. Mas muitos acabam ficando de fora. Estar aqui é muito importante, porque muitos jovens passam por dificuldades e não conseguem encontrar pessoas para expressar o que estão sentindo. Durante o seminário, vi jovens que conseguiram falar sobre seus problemas e se sentiram acolhidos pelo grupo. Isso me deixou muito feliz. Eu gostaria que mais jovens da minha comunidade estivessem aqui para também se sentirem acolhidos, porque é isso que muitas vezes falta para a nossa juventude”, relatou Solianny Almeida.
Para o vice tuxaua geral do Conselho Indígena de Roraima (CIR), Paulo Justino, o seminário representa um espaço fundamental para construir alternativas diante dos desafios enfrentados pela juventude indígena nos territórios.
“Esse trabalho vem sendo desenvolvido há mais de dois anos, devido a uma grave situação que vem acontecendo dentro das regiões. O desequilíbrio mental e a falta de assistência das políticas públicas têm acarretado graves problemas para a gente, com jovens se suicidando, mulheres e até famílias inteiras sendo afetadas. Por isso, estamos aqui com o objetivo de buscar soluções coletivas, fortalecendo a juventude e o movimento indígena para superar esse processo que estamos enfrentando juntos”, destacou o vice tuxaua geral do CIR, Paulo Justino.
A coordenadora do Departamento da Juventude Indígena Gabriel Ferreira Rodrigues, Raquel Wapichana, ressaltou que o encontro tem como principal objetivo despertar sonhos, fortalecer vidas e formar jovens multiplicadores dentro das comunidades.
“A partir desse seminário, muitos jovens começaram a despertar sonhos. E esse é o objetivo mesmo: alcançar vidas, salvar vidas e despertar sonhos. Queremos que os jovens saiam daqui com uma visão de futuro, que possam se tornar psicólogos, advogados, professores, lideranças e continuar fortalecendo a nossa luta dentro dos territórios. Também queremos que eles sejam multiplicadores desses conhecimentos, levando para suas comunidades informações que ajudem a enfrentar problemas como a depressão, a ansiedade e o suicídio”, afirmou Raquel Wapichana.


















A coletividade da Juventude Indígena. Fotos: Gisele Wapichana/Comunicadora da Rede Wakywaa – Região Itacutú
Durante os debates sobre prevenção ao suicídio, saúde mental e redes de cuidado, jovens puderam dialogar diretamente com psicólogos, pesquisadores e representantes de instituições parceiras.
Saúde mental e espiritualidade caminham juntas
Uma das palestrantes foi a psicóloga indígena Marijane dos Santos, do povo Tumbalalá, da Bahia. Coordenadora da Juventude Indígena da Bahia (COJIBA) e mestre em Antropologia Social, ela compartilhou sua própria trajetória de enfrentamento emocional durante a graduação.
Ao falar sobre os desafios vividos pelos jovens indígenas, Marijane destacou que saúde mental e espiritualidade não podem ser tratadas separadamente.
“A nossa saúde mental, quando ela não está bem, interfere diretamente na nossa saúde espiritual. E a nossa saúde espiritual também, quando a gente não cuida dela, acaba interferindo diretamente na nossa saúde mental”, afirmou.
Ela também relembrou um momento difícil durante a conclusão de seu curso de Psicologia.
“Eu precisava falar sobre saúde mental e espiritualidade, mas percebi que eu mesma não estava cuidando da minha espiritualidade. Foi quando entendi que também precisava buscar ajuda.”
Marijane destacou ainda que os problemas enfrentados pela juventude indígena da Bahia dialogam com as realidades vividas pelos povos de Roraima, especialmente os impactos das violências territoriais, da falta de oportunidades e das mudanças climáticas.
“Antes eram as nossas lideranças que falavam por nós. Hoje somos nós mesmos que falamos por nós. Isso é uma conquista da juventude indígena.”
O protagonismo da juventude
A jornalista indígena Ariene Susui, do povo Wapichana, atualmente residente em Manaus, emocionou os participantes ao lembrar sua própria caminhada dentro do movimento indígena.
Ela contou que participou das primeiras assembleias da juventude quando tinha apenas 15 anos e que encontrou nesses espaços a oportunidade de construir seu caminho profissional e político.
“Eu sou fruto de uma assembleia da juventude. Um dia eu estava sentada onde vocês estão hoje.”
Ariene reforçou a importância da participação das mulheres jovens nos espaços de decisão.
“Muitas vezes dizem que as meninas não podem estar no movimento, mas nós também temos capacidade de liderar, de coordenar e de construir mudanças.”
Ao incentivar os participantes a acreditarem em seus sonhos, ela destacou:
“Nós, juventude indígena, não somos o amanhã. Nós somos o hoje.”
Para ela, cada jovem presente já representa uma liderança em formação.
“Quem sabe aqui não está a próxima deputada, o próximo professor, a próxima advogada ou até o primeiro senador indígena de Roraima?”
Arte, cultura e bem viver
Representando o Amazonas, o estilista indígena Maurício Duarte, do povo Kaixana, trouxe uma reflexão sobre a relação entre arte, cultura e saúde mental.
Segundo ele, atividades como artesanato, grafismo e moda também são ferramentas de cuidado e fortalecimento emocional.
“Fazer arte é uma terapia ocupacional. Muitas vezes a gente não percebe por que isso faz parte da nossa rotina, mas é uma forma de cuidar da mente e do espírito.”
Maurício lembrou das experiências vividas ao lado de sua mãe em feiras de artesanato e destacou como essas vivências moldaram sua trajetória profissional.
“A moda foi um lugar que me salvou. Quando eu ensino o que sei fazer e percebo que aquilo pode transformar a vida de alguém, eu me entendo como um agente transformador.”
Para ele, o diálogo continua sendo uma das principais ferramentas para enfrentar os desafios da juventude.
“Quanto mais a gente se abre e busca apoio, menos espaço a gente deixa para o sofrimento ocupar sozinho a nossa vida.”

























Momentos de diálogo sobre o caderno de recomendações da juventude e a saúde mental. Fotos: Gisele Wapichana e Daniel Matos – Comunicadores da Rede Wakywaa
Escutar para transformar
Durante o painel sobre prevenção ao suicídio e redes de cuidado, representantes de organizações parceiras reforçaram a necessidade de ouvir os jovens antes de construir políticas públicas.
A antropóloga indígena Arancha Wapichana, integrante da organização Vida e Juventude, destacou que os registros das experiências compartilhadas durante o seminário serão transformados em documentos que poderão subsidiar futuras ações voltadas aos povos indígenas.
“O que vocês falam também são dados importantes. A gente leva essas informações para garantir que vocês sejam ouvidos.”
Ela lembrou ainda que muitos jovens reivindicam metodologias mais participativas.
“Os jovens disseram para nós: estamos cansados de palestras. Queremos prática, queremos participar da construção das soluções.”
Segundo ela, a escuta ativa pode salvar vidas.
“Às vezes a gente não tem o que dizer. Mas só de ouvir alguém já é uma forma de cuidado.”
Construindo caminhos coletivos
Ao longo dos três dias de programação, os participantes também realizaram rodas de conversa, oficinas temáticas, apresentações de grupos de trabalho voltados à construção de propostas para fortalecer as políticas públicas de saúde mental e bem viver da juventude indígena.
Entre a comunicação indígena, grafismos, cantos e danças, artesanatos, o protagonismo da juventude e relatos de vida, os jovens reafirmaram que o cuidado com a saúde mental passa pelo fortalecimento da cultura, da espiritualidade, da identidade e dos territórios.
O seminário encerrou com a construção coletiva do caderno de recomendações e da carta final do encontro, documento que deverá orientar futuras ações do movimento da juventude indígena e de instituições parceiras.
Ao final, ficou claro que a juventude indígena não está apenas discutindo saúde mental. Está construindo caminhos para continuar existindo, resistindo e sonhando.
Porque, como repetiu uma das palestrantes durante o encontro:
“Hoje somos nós que falamos por nós mesmos.”
A realização do II Seminário de Saúde Mental e Bem Viver da Juventude teve apoio dos parceiros Nia tero, UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), Fundação José Luiz Setúbal e Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB).
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