Apoio de Registros de Informações e Monitoramento Indígena em mais uma etapa de formação na aldeia Matawaré (Foto: acervo Iepé)
Durante mais uma oficina, jovens combinaram diferentes saberes e tecnologias e atualizaram banco de dados com informações sobre locais de interesse
Texto: Angélica Queiroz
Pontos de interesse para caça, pesca, coleta, visitação e lugares sagrados foram mapeados por jovens Wayana, Aparai, Tiriyó, Akuriyó e Katxuyana durante mais uma oficina em registros audiovisuais e georreferenciais, realizada entre os dias 20 e 24 de maio de 2026, na aldeia Matawaré, na região leste das Terras Indígenas Parque do Tumucumaque e Rio Paru D’Este. A atividade dá continuidade ao processo de formação em modelos de monitoramento territorial do grupo de Apoio de Registros de Informações e Monitoramento Indígena (ARIMI), conduzido pela Articulação de Jovens Indígenas Wayana e Aparai (AJIWA), ligada à Associação dos Povos Indígenas Wayana e Aparai (APIWA).
Durante uma semana, a assessoria do Iepé e uma consultora da organização Awana Digital, apoiaram os jovens em diversas atividades, entre elas a revisão do banco de dados que eles começaram a desenvolver em 2025, quando aconteceu a primeira oficina, e que vem alimentando durante suas trilhas de monitoramento local. O aplicativo CoMapeo, desenvolvido pela Awana, foi usado para coleta de informações georreferenciadas e, ao final dessa dinâmica, todos os participantes possuíam em seus celulares uma base de dados de registros compartilhados e atualizados da região.


A elaboração dos planos de trabalho dos ARIMI é feita com base em tomadas de decisões participativas e previamente informadas, conforme seu protocolo de consulta. A metodologia valoriza as ferramentas tecnológicas, mas também os saberes e práticas locais, assim como os modos próprios de transmissão e construção de conhecimentos, fortalecidos na vivência cotidiana e no encontro entre os jovens e os mais velhos, os maiores conhecedores do território e dos locais de interesse da comunidade.
“Os aprendizados e novas informações geradas fortalecem a criação de um sistema de monitoramento participativo e adaptativo, sempre alimentado pelas novas informações colhidas com o auxílio dos aplicativos”, explica o assessor indigenista, Pedro Ribas, que está acompanhando esse processo formativo pelo Iepé. Segundo ele, o objetivo é fortalecer práticas de monitoramento capazes de definir indicadores que consigam gerar informações confiáveis e de baixo custo.
Atividade prática ajuda a construir registro histórico de local de significância histórica e cultural
Fazendo uso de ferramentas georreferenciais, digitais e audiovisuais, os jovens exploraram os arredores da caverna Zehpo Eny ou Yefë Ënï, que nas línguas aparai e tiriyó, respectivamente, significa “caverna dos ossos”. O local possui grande relevância histórica e cultural, podendo ser considerado como um sítio arqueológico de sepultamento.
Ao longo da atividade, os jovens reuniram relatos dos mais velhos de suas aldeias, realizaram registros audiovisuais das conversas e caminhadas e participaram de uma roda de conversa para apresentar os estudos desenvolvidos durante a formação. A partir desse processo, iniciaram a construção de um registro histórico sobre a caverna e sua visitação sob a perspectiva das próprias comunidades indígenas, fortalecendo uma narrativa construída e legitimamente registrada pela população local.


Em breve, os resultados poderão ser acessados por eles no aplicativo Terrastories, onde já estão compartilhados outros registros feitos em atividades anteriores. Trata-se de um aplicativo de geonarrativa, desenvolvido para permitir que comunidades indígenas e outras comunidades locais localizem e mapeiem suas próprias tradições de narrativa oral sobre lugares de grande significado ou valor para elas.
É de interesse da comunidade, como apontaram as lideranças presentes, que haja o registro das histórias e saberes de seus espaços. “Vejam, nós estamos aqui e ainda temos muita coisa viva ainda. O meu avô já faleceu e ele sabia contar muitas histórias, eu mesmo não sei, apenas algumas. Se eu soubesse fazer o que vocês estão aprendendo, teria feito registros”, afirmou o cacique da aldeia Matawaré, Sepuku Tiriyó. O vice-cacique, Sinairi Tiriyó, concorda: “O que aconteceu no passado precisamos relembrar e escrever. Queria algum dia ver um livro para mostrar para meus netos. Nossos mais velhos estão indo embora e, com eles, morrem muitas histórias”, comentou.
Formação foi possível graças a reconhecimento pelo trabalho
A formação foi viabilizada pelo Prêmio Ciência Indígena, do Fundo Indígena Podáali, no qual a APIWA foi contemplada em reconhecimento por suas pesquisas e formações em monitoramento territorial. Desde 2025, o grupo participa de oficinas voltadas ao fortalecimento do monitoramento participativo do território, contribuindo para que os próprios jovens indígenas atuem na linha de frente da proteção territorial, um dos eixos do seu Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA). Eles atuam como apoio técnico às estratégias já conduzidas pelas lideranças, combinando conhecimentos técnicos e saberes locais na defesa do território, sempre em articulação com parceiros governamentais, como a Funai, e não-governamentais,como o Iepé.
Para Paty Paty Bob Marley Waiana Apalai, jovem liderança da AJIWA, que faz parte dos ARIMI, essas informações ajudam a fortalecer a luta pela proteção do território e pela conservação de seus recursos naturais. “Vamos continuar trabalhando para apoiar esse eixo do nosso PGTA, mas sinto que a gente já avançou bastante”, celebrou.
A atividade também contou com apoio da Nia Tero e do Bezos Earth Fund.
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