• Caso de indígena torturado nas cercanias de Amambaí (MS) não é fato isolado
  • Não haverá paz social enquanto nos territórios indígenas não forem demarcados

Um vídeo que circula nas redes sociais não é uma ficção distópica nem um filme de terror: é a crueldade de um exílio que se repete.

As imagens mostram um jovem indígena mbya guarani sendo torturado nas cercanias de Amambaí (MS). Seguranças privados o violentam com a frieza de quem não teme ser visto. Eles não escondem o rosto. Vestem roupas táticas. Encurralam a vítima e a destroem com choques elétricos, chutes e golpes de cassetete. Este não é um caso isolado. Nem em Mato Grosso do Sul nem em outro lugar deste país tão vasto quanto cego.

Vivendo em barracos de lona, expulsos da terra, os guarani kaiowá têm a dignidade humana rasgada a cada instante: violações de todo tipo, enquanto lutam pela posse de suas terras ancestrais. Lutam pelo direito à memória, porque os colonizadores atuais ousam dizer que eles nunca estiveram ali. Em nome da sagrada propriedade privada, da “segurança jurídica”, cometem também um genocídio cultural.

Arrancados à força de seus tekohas (aldeias), resistem em reservas minúsculas e superlotadas, ou em acampamentos de beira de estrada. Seu modo de vida, que não se curva ao capital agroexportador, é uma ameaça ao sistema. Talvez por isso são alvo de crimes sucessivos, massivos e silenciados.

Seus atuais algozes, fazendeiros que roubaram terras no decorrer da história, têm propriedades que começam em um município e terminam em outro, possuem um poder econômico maior que o do município, além de carros, jagunços e arsenais mais poderosos que a polícia local. “Deitam e rolam” em uma área de pouca visibilidade e que tem um povo muito sofrido e explorado. Não importa qual o posicionamento político, qualquer um que olhe a realidade lá percebe a extrema injustiça.

A expansão do agronegócio avança como trator sobre territórios tradicionais. Se os indígenas tentam retomar o que lhes foi roubado, a resposta é sempre a mesma: violência letal, executada por pistoleiros e seguranças privados. Órgãos de direitos humanos denunciam: o Estado brasileiro ora é conivente, ora é omisso. Em várias situações, as reintegrações de posse ou incursões policiais nos territórios em disputa resultam em assassinatos, feridos e graves denúncias de abusos.

A grande mídia raramente notícia a violência contra os guaranis ou outros povos indígenas no Brasil. O país é historicamente um dos mais perigosos do mundo para os indígenas e defensores do meio ambiente. Segundo o relatório “Violência contra Povos Indígenas no Brasil 2024”, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), os assassinatos de indígenas vêm registrando altas expressivas, vitimando centenas de pessoas anualmente.

A violência e os assassinatos dos povos indígenas seguem invisíveis, por combinação perversa de interesses econômicos, omissão estatal e falhas crônicas na cobertura midiática. Não haverá paz social enquanto não se demarcarem os territórios indígenas. É uma questão urgente, evidente, inadiável. Adiar essa reparação histórica é prolongar o massacre.

É calçar as botas dos algozes. É escrever, com sangue indígena, mais uma página da nossa vergonha.

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/txai-surui/2026/06/a-permanente-violencia-contra-os-povos-indigenas.shtml