Por Ageu Puyanawa
Brasília (DF) – Meu nome é Ageu Puyanawa, tenho 26 anos, sou do povo Puyanawa, do estado do Acre, do município de Mâncio Lima. Hoje eu falo como jovem indígena que carrega no peito a responsabilidade de defender o nosso território, a nossa cultura e a nossa floresta.
A juventude indígena tem um papel fundamental nas pautas ambientais. Somos nós que estamos vivendo na linha de frente dos impactos das mudanças climáticas, do desmatamento, das queimadas e da invasão dos nossos territórios. Ao mesmo tempo, somos também a continuidade do conhecimento dos nossos ancestrais, aqueles que sempre cuidaram da terra com respeito, entendendo que a floresta não é um recurso, mas sim vida.
Estar na luta ambiental, pra nós, não é escolha, é necessidade. A gente luta porque sabe que proteger o território é proteger o futuro. E a juventude tem força, tem voz e tem coragem pra ocupar esses espaços, dialogar, denunciar e propor caminhos.
Estou participando pela terceira vez do Acampamento Terra Livre (ATL), e cada vez que chego aqui, sinto que esse movimento é ainda mais importante. O ATL não é só um encontro, é um espaço de resistência, de união e de fortalecimento dos povos indígenas de todo o Brasil. Aqui a gente troca experiências, fortalece nossas pautas e mostra que seguimos vivos, organizados e lutando pelos nossos direitos.
Para a juventude, o ATL é um espaço de aprendizado e também de protagonismo. É onde a gente entende a força da nossa voz coletiva, onde a gente se reconhece como parte de uma luta maior. Para os povos da floresta, esse movimento é essencial, porque é aqui que a gente denuncia as violações, cobra políticas públicas e defende nossos territórios contra todas as ameaças.
Eu vim para este ATL com a expectativa de fortalecer minhas pautas ainda mais. Quero sair daqui mais preparado, mais consciente e mais conectado com outros jovens indígenas que também estão nessa caminhada. Quero levar de volta para o meu território mais conhecimento, mais articulação e mais força para continuar lutando.
Além disso, a marcha no Acampamento Terra Livre é um dos momentos mais fortes que eu vivo. É quando a gente ocupa as ruas com nossos corpos, nossas vozes, nossos cantos e nossas pinturas, mostrando que seguimos vivos, resistentes e em luta. Caminhar ao lado do meu povo e de tantos outros povos indígenas me dá ainda mais força e orgulho de quem eu sou. Cada passo que a gente dá ali carrega a memória dos nossos ancestrais e a responsabilidade com as futuras gerações.
Estar longe da minha comunidade também não é fácil. A saudade da família, do território e do nosso modo de vida aperta, mas ao mesmo tempo me fortalece. Porque é fora do território que a gente também aprende a se posicionar, a dialogar e a enfrentar os desafios que ameaçam nossos direitos. Essas vivências ampliam minha consciência e reforçam ainda mais meu compromisso de voltar mais preparado, mais forte e mais conectado com a luta do meu povo.
Porque enquanto existir juventude indígena resistindo, existirá esperança. E enquanto a gente estiver de pé, defendendo a floresta, estaremos defendendo a vida de todos.
O Acampamento Terra Livre começou no domingo (5 de abril) e segue até o dia 11 de abril, em Brasília. Em sua 22ª edição, traz o tema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”. Ageu Puyanawa está presente no ATL junto da delegação de jovens indígenas do Engajamundo, organização de liderança jovem e feita para jovens, que acredita na importância da atuação da juventude para enfrentar os maiores problemas ambientais e sociais do Brasil e do mundo.
A imagem que abre este artigo mostra mulheres Kayapó durante a primeira Marcha do ATL 2026 (Foto: BepmoroI Metuktire/Engajamundo).
A produção do artigo do jovem Ageu Puyanawa, sobre a cobertura do ATL 2026, faz parte de uma parceria entre o Engajamundo e a agência Amazônia Real.
Acompanhe a série de artigos:
A Voz de Janiely Truká no ATL 2026: Luta pela Terra, Memória e Futuro
ATL 2026: Juventude Indígena e a Defesa dos Territórios, por Breno Amajunepá
ATL 2026: A força da comunicação da juventude Kayapó, por Bepmoroi Metuktire
O protagonismo indígena LGBTQIAPN+ no ATL 2026, por Val Munduruku
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