20º Acampamento Terra Livre. Foto: Tiago Miotto/Cimi

Sheila Brasileiro, antropóloga do MPF, foi alvo de busca e apreensão da Polícia Federal em operação que criminaliza também lideranças Pataxó

Por Assessoria de Comunicação – Cimi

A antropóloga Sheila Brasileiro, perita do Ministério Público Federal (MPF), foi alvo de uma ação da Polícia Federal de busca e apreensão nesta quinta-feira (14). Conforme decisão da Vara Federal de Teixeira de Freitas (BA), a medida faz parte da Operação Sombras da Mata que apura “invasões de propriedades rurais”, no sul da Bahia, pelo povo Pataxó, com as quais a servidora pública teria parte.

O caso é mais um capítulo da criminalização imposta pelo Estado brasileiro às reivindicações territoriais dos Pataxó, e que agora se estende a profissionais e organizações de apoio à causa indígena. Em nota pública, a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), “a medida ocorre em um contexto de extrema tensão e violência no Sul da Bahia, marcado por denúncias de assassinatos de lideranças indígenas e conflitos territoriais agudos”.

A ABA ressalta que Sheila “goza, por parte de seus e suas colegas e desta Associação, da mais alta respeitabilidade acadêmica, funcional e técnica”. O papel da antropologia, segue a nota da entidade, no âmbito das relações estabelecidas com os povos indígenas, é fundamentado na defesa de seus direitos constitucionais e na tradução científica de realidades históricas.

Conforme a entidade, a ação atenta contra a dignidade pessoal da antropóloga, altamente requisitada e com larga experiência profissional, e repercute na autonomia do fazer antropológico no Estado Brasileiro. Para a ABA, há um preocupante precedente sendo aberto: a criminalização do trabalho de antropólogos e antropólogas no contexto de questões territoriais.

Segurança jurídica a servidores

Também por meio de nota, a Ação Nacional de Ação Indigenista (Anaí) ressaltou o fato de que, desde a década de 1970, os povos indígenas se valem das retomadas como forma de recuperar terras tradicionalmente ocupadas. Além de garantir o direito dos povos indígenas, ressalta a Anaí, é dever do Estado garantir aos servidores públicos segurança jurídica e o pleno direito ao exercício do trabalho.

Grupos de pesquisa, instituições e coletivos de movimentos sociais também se manifestaram por nota contra a “tentativa de criminalização do exercício profissional da antropologia” afirmando que “representa grave precedente, ao ameaçar não apenas uma trajetória individual, mas também o conjunto de práticas científicas e institucionais comprometidas com a produção de conhecimento, a garantia de direitos e a mediação qualificada de conflitos territoriais”.

No manifesto, ressaltam que o trabalho desenvolvido por antropólogas e antropólogos, junto aos povos tradicionais, “é pautado por princípios éticos, científicos e legais, contribuindo historicamente para a efetivação de direitos assegurados pela Constituição Federal de 1988 e por tratados internacionais ratificados pelo Brasil”.

Fonte: https://cimi.org.br/2026/05/antropologa-criminalizacao-pataxo-sul-bahia/