Indígenas de Goiás e Tocantins cobram demarcação de terras e denunciam violência e precariedade educacional em Brasília. Foto: Adi Spezia / Cimi

Lideranças de dez povos denunciaram invasões, destruição de áreas sagradas, precariedade nas escolas indígenas e dificuldades de permanência no ensino superior durante reuniões com órgãos federais

Por Adi Spezia, da Assessoria de Comunicação do Cimi

Lideranças indígenas de onze povos de Goiás e Tocantins estiveram em Brasília nesta semana, entre os dias 11 e 15 de maio, para cobrar a desintrusão de seus territórios, a demarcação das áreas ainda não regularizadas e o acesso a políticas públicas de seguridade social.

A delegação é composta por representantes dos povos Apinajé, Krahô-Kanela, Krahô Takaywrá, Ãwa Canoeiro, Karajá de Xambioá, Kanela do Tocantins, Karajá da Ilha do Bananal, Javaé da Ilha do Bananal e Xerente, do Tocantins; além dos povos Tapuia e Karajá de Aruanã, de Goiás. A maioria enfrenta pendências nos processos de demarcação de seus territórios tradicionais.

Além da regularização fundiária, as lideranças denunciam invasões e conflitos dentro das terras indígenas, resultado das ocupações não indígenas em áreas já homologadas, demarcadas e registradas, além da existência de construções irregulares dentro dos territórios, inclusive ligadas a prefeituras locais.

“Além da regularização fundiária, as lideranças denunciam invasões e conflitos dentro das terras indígenas”

Dihoki Javaé, da Ilha do Bananal, no Tocantins, destaca a preocupação com a proteção territorial diante da atuação de invasores. “Temos também a questão da proteção territorial, que é a proteção contra os fazendeiros e os pescadores ilegais que entram no nosso território para fazer pesca ilegal e retirar peixes da Ilha do Bananal para venda”, denuncia a liderança Javaé.

A delegação também chamou a atenção para os impactos das invasões sobre áreas sagradas para os povos indígenas. “Estamos com invasões até dentro das terras onde eram os nossos cemitérios. Foram tirados os ossos dos nossos antepassados, jogados no rio e feito um guarda barco no lugar”, denuncia Mayalu Ratamaro, do povo Karajá — que se autodenomina Iny — e presidente da Associação das Aldeias Buridina e Bdè-Burè de Aruanã (ABB), em Aruanã (GO).

A demora na conclusão dos processos de demarcação das terras tradicionais, segundo as lideranças, tem incentivado invasores a destruírem espaços sagrados, florestas e rios que banham os territórios. Por isso, “viemos a Brasília atrás dos nossos direitos e da nossa demarcação de terras. Temos três áreas”, explica Mayalu, ao se referir às Terras Indígenas Karajá I, Karajá II e Karajá III, duas delas localizadas em Goiás e outra no Mato Grosso.

“Estamos com invasões até dentro das terras onde eram os nossos cemitérios. Foram tirados os ossos dos nossos antepassados, jogados no rio e feito um guarda barco no lugar”

Segundo Mayalu, os processos de demarcação dos territórios têm sido fragmentados, dificultando o reconhecimento integral das áreas reivindicadas pelos Karajá. “Os processos que eram de uma área toda foram cortados para ficar mais difícil da gente ganhar. Mas tudo está dentro das nossas terras, e estamos atrás dos nossos direitos e da nossa demarcação”, afirma.

A delegação denuncia ainda a atuação de grupos políticos da região, de empreendimentos turísticos, a presença de fazendas dentro das TIs e a exploração do território pelos invasores por meio da plantação de soja, da formação de pastagens para o gado e do uso criminoso do fogo para expulsar os indígenas. Também denunciam a disseminação de fake news com o objetivo de desinformar a população do entorno e discriminar os povos indígenas.

“Os processos de demarcação dos territórios têm sido fragmentados, dificultando o reconhecimento integral das áreas reivindicadas”

Esse conjunto de situações tem provocado o aumento das violências contra as comunidades e a inserção de práticas que não fazem parte da cultura indígena, como o crescimento do consumo de álcool e drogas nas aldeias. “É uma tentativa de apagar nossa cultura e enfraquecer nossas tradições indígenas. A gente tem medo de denunciar os agressores por causa das ameaças e da convivência forçada nas comunidades”, alerta Manoel Messias, do povo Apinajé.

As lideranças também cobram fiscalização contra o desmatamento ilegal e a dragagem de água dos rios Javaé e Formoso para irrigação de monoculturas, o que, segundo denunciam, tem dificultado o acesso das comunidades ao rio, à pesca e ao transporte.

“É uma tentativa de apagar nossa cultura e enfraquecer nossas tradições indígenas. A gente tem medo de denunciar os agressores por causa das ameaças”

Indígenas cobram acesso à educação no MEC

Segundo a Constituição Federal de 1988, o acesso à educação é um direito fundamental. Em busca desse direito — de uma educação escolar específica, diferenciada, intercultural, bilíngue ou multilíngue e comunitária — lideranças indígenas estiveram no Ministério da Educação (MEC), em Brasília.

As demandas apresentadas pelas lideranças estão relacionadas tanto à educação escolar indígena quanto ao ensino superior.

Se, por um lado, há povos que ainda não possuem escola indígena em suas comunidades devido à ausência da demarcação de seus territórios — outro direito fundamental ainda não garantido —, por outro, os povos denunciam a precariedade da infraestrutura das escolas existentes, a falta de reformas e a ausência de bibliotecas, laboratórios de informática, quadras esportivas cobertas, climatização, refeitórios e transporte escolar.

“Ainda há muito povos que ainda não possuem escola indígena em suas comunidades devido à ausência da demarcação de seus territórios”

Dihoki Javaé relata que há “muitas aldeias que precisam de construção mesmo, do zero. Porque estão em situação precária, com banheiro sem porta, pisos quebrados, ou porque precisam ser ampliadas, ou porque simplesmente não têm escola mesmo”.

A estrutura precária e defasada também foi relatada por outras lideranças, que apontaram dificuldades relacionadas à manutenção das escolas, falta de ventiladores, mobiliário inadequado, ausência de internet e risco estrutural em algumas unidades escolares.

A estudante universitária e liderança do povo Karajá de Aruanã, Nelma Raredique, explica:

“Todas as demandas são praticamente sobre a questão da educação escolar indígena, que é precária. Questão da estrutura, questão de formas que não levam em conta os saberes indígenas. Assim, o ambiente acaba se tornando um pouco mais rígido, porque a educação escolar indígena é diferente, como sabemos”, aponta.

“Todas as demandas são praticamente sobre a questão da educação escolar indígena, que é precária”

Waldicleia Krahô-Kanela, da Terra Indígena Krahô-Kanela, no município de Lagoa da Confusão (TO), destacou outro desafio:

“Nós temos uma escola dentro da aldeia indígena, mas não é uma escola indígena. É uma escola estadual, mas funciona como extensão de uma escola não indígena, que fica em Lagoa da Confusão. A gente quer nossa própria escola, uma escola indígena, com prédio próprio”, reivindica a liderança Krahô-Kanela.

Outro ponto apresentado foi a demora no atendimento das reivindicações encaminhadas anteriormente aos órgãos públicos, além da ausência de fiscalização das obras e da má qualidade das construções em algumas escolas. As lideranças cobraram maior acompanhamento do poder público e mais presença institucional nas comunidades.

“Nós temos uma escola dentro da aldeia indígena, mas não é uma escola indígena”

Para os indígenas, superar os desafios da educação escolar indígena básica é apenas uma das etapas. O acesso e a permanência de estudantes indígenas nas instituições de ensino superior representam outra barreira enfrentada.

“Todo ano a nossa aldeia manda muitos estudantes para a universidade, para a UFG [Universidade Federal de Goiás]. Este ano teve gente indo para a UnB [Universidade de Brasília] também, e muitos estudantes estão desistindo do curso porque não conseguem se manter. É uma questão financeira mesmo, porque o valor da bolsa não está sendo suficiente”, denuncia Nelma Raredique, da Terra Indígena Karajá de Aruanã I (GO), que precisou trancar o curso por não conseguir arcar com o conjunto de despesas que representa morar fora da aldeia.

“Todo ano a nossa aldeia manda muitos estudantes para a universidade e muitos estão desistindo do curso porque não conseguem se manter”

Outras lideranças também relataram dificuldades financeiras para custear aluguel, alimentação, transporte, materiais acadêmicos e despesas de saúde. Segundo os estudantes, o valor da Bolsa Permanência não tem sido suficiente para garantir a continuidade dos estudos, especialmente para mulheres indígenas com filhos e estudantes que vivem longe de suas aldeias.

Se a educação escolar indígena ainda é precária e a permanência no ensino superior representa um fator limitante, a formação de professores também é impactada. Esse foi outro desafio apresentado pela delegação.

Ao longo da semana, outros órgãos do Estado receberam as denúncias da delegação, que agora retorna às suas comunidades, mas assegura que a luta pela garantia de seus direitos continua.

“A delegação retorna às suas comunidades, mas assegura que a luta pela garantia de seus direitos continua”

Indígenas de Goiás e Tocantins em audiência com representantes da Funai e MPI

Fonte: https://cimi.org.br/2026/05/indigenas-goias-tocantins-cobram-demarcacao-educacao/