O encontro foi organizado por lideranças da Terra indígena Raposa Serra do Sol.
O Conselho Indígena de Roraima (CIR), representado pelo tuxaua-geral Amarildo Macuxi, participou do II Seminário “A Luta pela Libertação da Comunidade Santa Cruz”, realizado entre os dias 12 e 14 de julho na comunidade indígena Santa Cruz, região Raposa,T.I Raposa Serra do Sol. O evento reuniu lideranças indígenas de diferentes etnorregiões de Roraima, que relembraram um dos episódios mais marcantes da luta pelos direitos territoriais dos povos indígenas no Estado.
Realizado anualmente, o encontro busca manter viva a memória da resistência da comunidade, homenagear as lideranças que participaram da luta pela libertação de Santa Cruz e transmitir esse legado às novas gerações. O Tuxaua Geral do CIR, Amarildo Macuxi, destacou que o seminário é um momento de reflexão sobre a trajetória da comunidade e também sobre os avanços conquistados ao longo das últimas décadas.
“A importância de realizar esse evento é resgatar a história, o sofrimento e avaliar como a comunidade melhorou ao longo dos anos, construindo projetos voltados ao bem viver”, afirmou.
Segundo o tuxaua, além da defesa territorial, o CIR segue apoiando iniciativas voltadas ao fortalecimento das comunidades, como projetos de pecuária sustentável e agricultura familiar, desenvolvidos após a demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol.
Durante o seminário, lideranças que participaram diretamente dos acontecimentos de 1987 compartilharam relatos sobre o período em que a comunidade vivia sob constantes violações de direitos humanos.









Momentos durante o Seminário na Comunidade Indígena Santa Cruz. Fotos: Arquivo Pessoal
A tuxaua da comunidade Jiboia, Maria Cleonice, esteve presente durante a conhecida Batalha de Santa Cruz e relembrou os episódios de violência enfrentados pelos indígenas. Na época, moradores eram impedidos de plantar, criar animais e circular livremente. Também enfrentavam violência praticada por fazendeiros e seus aliados, cenário que levou lideranças indígenas de diferentes regiões da Raposa Serra do Sol a se unirem em defesa da comunidade.
“Quando eu estava gestante de três meses fui espancada na barriga. Derramaram nossa farinha, jogaram nossa comida no chão. A gente lutou, apanhou. Nós sofremos muito, mas conseguimos vencer, hoje a antiga fazenda é uma escola do Estado”, destacou a liderança.
Além de homenagear as lideranças que marcaram a história da comunidade, o seminário também teve como objetivo aproximar a juventude desse processo de resistência. Para a jovem liderança Miriam Rosas Macuxi, preservar essa memória é fundamental para garantir a continuidade da defesa do território.
“É muito importante lembrar da luta das nossas lideranças. Eles nos deixaram um território livre. Agora cabe a nós assegurar aquilo que foi conquistado com firmeza e resistência”, afirmou.
Alcídes Constantino, coordenador regional do Baixo Cotingo na época, participou da luta pela defesa dos direitos territoriais e ressaltou que a história da demarcação da Raposa Serra do Sol teve um de seus principais marcos em Santa Cruz e que transmitir esse conhecimento às novas gerações é uma forma de fortalecer a organização dos povos indígenas.
“Nós vivenciamos a luta de Santa Cruz e esperamos que esses jovens valorizem e continuem esse legado, tomando decisões para seguir essa caminhada.”
Ao reunir lideranças, jovens e sobreviventes da luta pela libertação da comunidade, o seminário reafirmou o compromisso coletivo de preservar a memória, fortalecer a resistência e garantir que a história de Santa Cruz continue sendo contada às futuras gerações.
Comentários