A Comissão Pró-Indígenas do Acre (CPI-Acre) promove a exposição “Cartografia Indígena – descolonizando mente e espaço”, aberta ao público de 8 de abril a 31 de maio, das 9h às 18h, na Galeria de Exposições Sansão Pereira, no Museu dos Povos Acreanos. A entrada é gratuita.
A mostra reúne 23 mapas produzidos por Agentes Agroflorestais Indígenas (AAFIs), desenvolvidos na disciplina de Cartografia Indígena dos Cursos de Formação de AAFIs, que acontecem no Centro de Formação dos Povos da Floresta, (CFPF), sede da CPI-Acre.
Ao longo da história, os mapas foram utilizados como instrumentos de poder político, religioso e social. A cartografia, enquanto forma de produzir e legitimar conhecimentos sobre o território, foi frequentemente empregada como mecanismo de dominação — inclusive contra os povos indígenas.
No estado do Acre, na Amazônia ocidental brasileira, essa lógica começou a ser questionada a partir de 1983, quando a CPI-Acre iniciou um projeto de formação de professores indígenas. Participaram dessa experiência os povos Huni Kuĩ, Yawanawa, Jaminawa, Katukina, Puyanawa, Shawãnawa, Shanenawa, Manxineru e Ashaninka. O objetivo era criar novas formas de expressão e fortalecer práticas de autonomia cultural, política e educacional.
Naquele contexto, muitos participantes ainda não dominavam a língua portuguesa, nem tinham familiaridade com leitura, escrita ou matemática. A cartografia, portanto, não foi ensinada apenas como técnica, mas adaptada como uma forma de linguagem própria. Assim, a Cartografia Indígena passou a combinar conhecimentos tradicionais, símbolos próprios e expressão artística, tornando-se um meio de comunicar as relações entre território, paisagem e memória.
Durante esse processo, foram elaboradas convenções cartográficas próprias. Formas, cores e escalas foram discutidas e acordadas coletivamente, resultando em legendas que expressam modos indígenas de ver e representar o espaço. Um exemplo é a representação da água em amarelo, tonalidade que se aproxima das águas barrentas dos rios e igarapés amazônicos, em contraste com o azul utilizado nos mapas oficiais.
Atualmente, no Acre, esses mapas são ferramentas fundamentais para discutir, negociar e resolver conflitos territoriais. São compreendidos por todos, inclusive por aqueles que não dominam a escrita alfabética, pois utilizam sinais e símbolos visuais conectados às experiências locais. Além disso, desempenham papel central no planejamento, na conservação e no manejo sustentável dos recursos naturais nas terras indígenas.
Após mais de quatro décadas, a Cartografia Indígena consolidou-se como uma ferramenta política e pedagógica de grande relevância. Mais do que representar territórios, esses mapas afirmam direitos, fortalecem identidades e contribuem para a construção de estratégias coletivas de gestão e proteção dos territórios indígenas, no presente e no futuro.
Segundo o Agente Agroflorestal Indígena Flaviano Medeiros Ixã Huni Kuĩ: “Mapa é um instrumento de estudo, é um registro muito importante onde identificamos muitas coisas que existem na terra indígena. Mostra o tamanho da terra, onde ficam os limites, a localização das aldeias, quantos igarapés, poços e lagos existem, as praias produtivas, os pontos de caça, os nomes dos lugares, acampamentos, barreiros, áreas campestres e de refúgio de caça e pesca. Com isso, conseguimos trabalhar o plano de gestão territorial e ambiental, tanto da fauna quanto da flora. O mapa reúne várias atividades que realizamos e ajuda a compreender nosso trabalho com sabedoria na gestão do território.”
A exposição é uma realização da CPI-Acre, em parceria com a Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre (AMAAIAC), com apoio do Museu dos Povos Acreanos, da Rainforest Foundation Norway e do Governo do Acre.
Local: Galeria de Exposições Sansão Pereira – Museu dos Povos Acreanos, Rio Branco, Acre.
Período: 8 de Abril a 31 de Maio de 2026
Horário: 9h às 18h
Entrada: gratuita
Para mais informações:
Elizabeth Bylaardt e Ila Caira Verus
Contato: (68) 99953-9648
E-mail: ascom@cpiacre.org.br
Fonte: https://cpiacre.org.br/cartografia-indigena-e-tema-de-exposicao-no-acre/
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