Capa do documentário Replikka; Indígena participa de ritual sagrado do povo wauja durante cerimônia de inauguração da réplica da gruta de Kamukuwaká, no Parque do Xingu, em Mato Grosso, em outubro de 2024 – Divulgação

  • ‘Replikka’ estreia na mostra Ecofalante de Cinema, em SP
  • Curta venceu Hot Docs em Toronto e entra na corrida do Oscar

Jorge Abreu

São Paulo

A tecnologia de ponta e a ancestralidade indígena se encontram no documentário “Replikka” —premiado em festivais de cinema no Brasil, no Canadá e no México. O curta-metragem conta a história da gruta sagrada de Kamukuwaká, no Mato Grosso.

“Replikka” será exibido, pela primeira vez em São Paulo, na 15ª Mostra Ecofalante de Cinema, que será realizada entre 28 de maio e 10 de junho. O documentário, dirigido pela cineastra Heloísa Passos e pelo comunicador Piratá Wauja, vai concorrer como melhor curta na categoria “Territórios e Memória” do evento.

Em 2 de maio, a história da gruta de Kamukuwaká chamou a atenção dos críticos do festival Hot Docs, em Toronto (Canadá), e foi eleito o melhor curta-metragem documental internacional. Com este título, entrou na corrida por uma vaga ao Oscar.

Antes disso, “Replikka” venceu, em abril, como melhor curta ibero-americano do Guadalajara International Film Festival, no México. Também levou os títulos de melhor direção e melhor edição de som, no 58˚ Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (setembro, 2025), e ganhou o prêmio Canal Brasil de melhor curta, no 21º Panorama Internacional Coisa de Cinema (março, 2026).

“Replikka” conta a história da perda e do renascimento da gruta sagrada, considerada o berço da etnia wauja, do Parque Indígena do Xingu. O enredo narra a jornada de resiliência, espiritualidade, memória e identidade.

Em 2018, o povo wauja descobriu o vandalismo na sagrada gruta de Kamukuwaká, que destruiu petróglifos milenares —o local é alvo de conflito entre indígenas e fazendeiros do agronegócio. A polícia não prendeu ou identificou ninguém pela ação criminosa.

Quando o Xingu foi demarcado, em 1961, a gruta de Kamukawaká ficou do lado de fora dos limites territoriais. Na época, os indígenas não entendiam como funcionava esta questão. O agronegócio ganhou força em Mato Grosso, ao longo dos anos, e não permitiu o avanço da terra indígena.

O Iphan tombou a gruta (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em 2016 devido às gravuras rupestres, que tinha registros do modo de vida tradicional indígena, como as atividades de pesca, o convívio familiar, a caça, entre outras memórias.

Os indígenas, então, se juntaram ao centro britânico de arte e pesquisa People’s Palace Projects (PPP), em parceria com a ONG Factum Foundation, da Espanha, para a criação de uma réplica da gruta, com os petróglifos perdidos.

A réplica foi confeccionada com tecnologia de ponta em Madri. É composta de isopor, poliuretano, resina, tintas acrílicas e pigmentos naturais. A peça mede oito metros de largura por quatro de comprimento. Em outubro de 2024, ela foi entregue na aldeia Ulupewene e pode ser vista no Centro Cultural e de Monitoramento Territorial, o primeiro museu no Xingu.

“É muito importante apresentar para o mundo o filme sobre o meu povo, a minha própria cultura indígena. Assim, as pessoas conhecerem a nossa luta para manter aquele lugar sagrado que, para nós, é um livro vivo”, disse o co-diretor do curta, Piratá Wauja.

Folha participou da cerimônia de inauguração da réplica da gruta de Kamukuaká, na aldeia Ulupewene, em outubro de 2024, a convite da People’s Palace Projects. Na ocasião, a reportagem conheceu as equipes da elaboração da peça e da produção do documentário.

O documentário reúne registros da gruta original, da chegada da réplica à terra indígena e da preparação da peça até a sua inauguração, além de depoimentos de lideranças espirituais do povo wauja, que participaram das pesquisas para a elaboração da peça, e do próprio Piratá.

“Nosso desafio foi transformar esse curta em uma obra poética, com potência e força, para falar do guerreiro indígena Kamukuaká, da ancestralidade e da luta do povo wauja pela ampliação da demarcação do território, porque a gruta está fora”, afirma a diretora Heloísa Passos.

Replikka

  • Quando Dom. (31); às 15h30, no Reserva Cultural – Av. Paulista, 900, SP; Qua. (3/6), às 15h, no Centro Cultural São Paulo – Rua Vergueiro, 1000, SP
  • Produção Brasil, Estados Unidos, Reino Unido, 2025
  • Direção Piratá Waurá, Heloisa Passos

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/05/filme-indigena-premiado-dentro-e-fora-do-brasil-conta-historia-de-gruta-sagrada.shtml